O concerto de Lorde foi um abraço ao nosso “eu” adolescente. 3 destaques do espetáculo da artista no NOS Alive

No último dia do NOS Alive, Lorde fez milhares de pessoas revisitarem a adolescência enquanto apresentava a versão mais madura de si própria – ainda que o passado e o presente coexistissem sem competir. Entenda.

Certos artistas destacam-se pelas suas qualidades enquanto compositores. Outros destacam-se pela voz ou pela capacidade de comandar multidões. Lorde sempre pertenceu a uma categoria mais difícil de definir, sendo que, quando apareceu em 2013 com “Royals”, nunca pareceu particularmente interessada em caber no molde tradicional de popstar, preferindo construir um universo próprio.

Essa identidade foi-se tornando mais evidente à medida que a carreira avançou. “Melodrama” cimentou-a como uma das compositoras mais interessantes da sua geração, “Solar Power” mostrou uma artista disposta a desafiar as expectativas e “Virgin”, lançado em 2025, voltou a gerar burburinho em torno dela, precisamente por continuar a fazer aquilo que mais ninguém faz da mesma forma. Lorde escreve sobre crescer, mudar e desaprender – e canta essas transformações com a consciência de quem sabe que as está a viver.

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Talvez seja por isso que os concertos nunca pareçam uma sucessão de músicas que ouvimos, com as quais vibramos, e depois vamos embora sem pensar muito no assunto. Há um fio narrativo invisível que liga cada gesto, cada silêncio, cada corrida pelo palco, não havendo uma separação clara entre a cantora e a pessoa. É como se, durante pouco mais de uma hora, Lorde deixasse de interpretar canções para simplesmente existir dentro delas.

Foi exatamente isso que aconteceu no último dia do NOS Alive, este sábado, 11 de julho. Num recinto completamente cheio – mesmo com os Pixies a atuar em simultâneo –, a neozelandesa fez aquilo que poucos artistas conseguem num festival: transformou dezenas de milhares de pessoas numa audiência completamente concentrada, quase como se o tempo tivesse parado. Eis alguns destaques da performance.

Lorde transforma o palco numa extensão do próprio corpo

O início do espetáculo foi austero (mais do que se pensava). Sozinha, rodeada por sintetizadores, a cantora entrou em palco sem recorrer a grandes efeitos nem apresentações dramáticas e, em poucos instantes, começou a interpretar “Royals”, o tema que lhe mudou a vida aos 16 anos. Em vez de guardar o maior êxito para o fim, escolheu colocá-lo logo no início, quase como quem diz que já não precisa da canção mais conhecida para fazer com que o público fique a assistir ao espetáculo até ao fim.

Ao longo do concerto, já com êxitos como “What Was That”, “Broken Glass” ou “Shapesifter”, tornou-se evidente que Lorde pensa os movimentos da mesma forma que pensa a música. Corre de uma ponta à outra do palco, sobe cubos, deita-se sobre plataformas, tira a camisola, dobra o corpo em movimentos aparentemente caóticos e deixa que a dança aconteça sem qualquer rigidez coreográfica, sem perfeição técnica ou sincronização absoluta. Afinal, o objetivo é outro: fazer com que o corpo pareça responder instintivamente àquilo que está a cantar. 

Até a cenografia acompanha essa lógica. Os bailarinos nunca roubam protagonismo, funcionando antes como prolongamentos da sua linguagem corporal, enquanto os cubos móveis e as projeções criam imagens que parecem pensadas tanto para quem está no recinto como para quem acompanha tudo através dos ecrãs gigantes. Houve vários momentos em que Lorde se virou deliberadamente para os focos de luz, oferecendo a silhueta às câmaras, mostrando ter a noção de que, mais do que nunca, um concerto também vive através da imagem.

A cantora fala pouco, mas sabe conquistar

Durante largos minutos, Lorde praticamente não interrompeu o alinhamento. Ao contrário de muitos artistas, não sentiu necessidade de explicar cada canção ou de procurar constantemente a validação do público. Preferiu deixar que a música conduzisse o espetáculo e, talvez por isso, quando finalmente pegou no microfone para conversar, tudo aquilo que disse ganhou um peso diferente.

Dizemos isto porque a artista relatou que Lisboa é um dos seus sítios favoritos no mundo para atuar, confessou que ainda estava a tentar convencer-se de que estava de volta e recordou a primeira visita à cidade, aos 17 anos. Brincou com o Campeonato do Mundo (vá, também era escusado tocar nesse tópico sensível, mas vamos deixar passar), elogiou a energia dos portugueses, e afirmou até que o resto da Europa tem inveja da “vibe” portuguesa. Foram intervenções simples, mas suficientes para desmontar a imagem distante que muitas vezes lhe é atribuída.

Mas o momento mais genuíno surgiu quando apresentou “The Louvre”. Depois de dizer que também ela é uma “summer girl”, descreveu o verão como “a estação das paixonetas” e convidou toda a gente que estivesse apaixonada – ou quisesse apaixonar-se – a cantar a música com ela. É um comentário simples, é certo, mas prova que a cantora não tenta parecer expansiva, nem transforma cada intervenção num grande espetáculo. 

Foi precisamente essa autenticidade que ajudou a quebrar a imagem distante que muitas vezes lhe é atribuída. Lorde continua a ser reservada, quase introspetiva, mas isso não significa frieza. Pelo contrário, demonstra carinho através de pequenos gestos, de memórias partilhadas e de frases que não parecem retiradas de um guião repetido cidade após cidade. E podemos ser tontos, fica a sensação de que Lisboa nunca será uma paragem das suas digressões como outra qualquer.

Os hits que são uma viagem no tempo

Depois da vulnerabilidade de “Liability”, Lorde muda completamente de pele. “Hammer” mergulha o recinto em eletrónica, “Supercut” explode acompanhada por pirotecnia e “Girl, So Confusing” confirma que a artista continua tão confortável a revisitar o passado como a apresentar a sua nova fase. Pelo meio, “Team” lembra-nos que há canções que, por mais anos que passem, continuam a soar exatamente como da primeira vez que as ouvimos.

Na verdade, esse equilíbrio entre presente e passado foi uma das maiores vitórias do concerto, porque, ainda que não sintamos que são a parte mais impactante do concerto, a artista também não lhes retira a óbvia importância que têm. “Royals”, logo no início, é uma afirmação de identidade e “Team” devolveu-nos automaticamente à adolescência, ao passo que “Buzzcut Season”, acompanhada pelas palmas sincronizadas de um recinto completamente cheio, trouxe de volta a melancolia que fez de “Pure Heroine” um disco tão marcante para toda uma geração.

Mas foi “Ribs” que transformou um excelente concerto numa experiência difícil de esquecer. Quando Lorde desceu do palco para cantar no meio do público, o verso It feels so scary getting old (é tão assustador envelhecer, em português) torna-se ainda mais avassalador. Isto porque, ao ser cantado por milhares de pessoas, relembra qualquer fã desta era da artista – corria o ano de 2013, mais especificamente –, muito provavelmente numa altura em que tentavam perceber quem eram e que regressaram, agora adultos, para ouvir exatamente as mesmas palavras com um significado completamente diferente.

Talvez seja esse um dos pontos mais fortes de Lorde, uma vez que, mais do que recordar o passado, obriga-nos a encará-lo. Quando escreveu este hit, tinha apenas 16 anos e cantava sobre o medo de crescer como quem tenta adiar o inevitável. Mais de uma década depois, arriscamo-nos a dizer que continua a ressoar em quem a ouve, mas por uma razão diferente: já somos bem crescidinhos. Contudo, pelo menos durante mais de uma hora, certo é que todos pudemos regressar à pessoa que éramos quando ouvimos esta canção pela primeira vez.

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