Na edição com mais mulheres cozinheiras no cartaz, Michele Marques deslumbrou no Chefs on Fire com corações de galinha e falou com a MAGG sobre a importância de eventos como este festival. “Esta mostra de sabores mais femininos só é possível quando nos dão palco”, diz a chef.
A premissa oficial do Chefs on Fire é que os cozinheiros convidados têm de cozinhar com fogo. A não oficial? Sair da zona de conforto e inovar, deixando uma marca no paladar das centenas de pessoas que passam pelo evento. E Michele Marques, chef brasileira à frente da Mercaria Gadanha, em Estremoz, mais do que cumpriu a tarefa ao não ter medo de trazer algo mais inusitado: corações de galinha.
“É uma das coisas que eu mais gosto de comer no churrasco, que culturalmente faz parte da minha infância. O meu pai e o meu tio, que fazem churrasco muito bem, faziam sempre corações assim espetados e eu gosto dele simples, só grelhado com sal, não muito passado”, conta a chef à MAGG, que trocou o Brasil por Portugal em 2005, aos 21 anos, e acabou por encontrar em Estremoz a casa perfeita para dar vida aos seus projetos.
“A ideia aqui foi trazer um pouco desse meu gosto pessoal para o prato e para incrementar, pensei, ‘ok, tem que trazer aqui alguma suavidade’. Trouxe o puré de couve-flor, ficou assim caramelizado. Com os topos da couve-flor, para aproveitar, fiz o picles, e o molho, aproveitei as asas da galinha também, fiz como se fosse um caldo bem, bem aromático, puxando também com alguma acidez, com sumo de limão, e para finalizar, coloquei extra lima e coentros para trazer alguma frescura também ao prato. É quase um prato de aproveitamento, também aproveitei o pão que nos sobra para fazer a farofa, para fazer jus à farofa que nós fazemos lá no Brasil — só que lá usamos a farinha de mandioca, aqui usei a sobra de pão para juntar a mesma textura. Não é igual, mas é nessa linha de raciocínio e acho que combina tudo muito bem”, descreve.

Michele Marques acredita que, como chef mulher, apostar em cozinheiras em eventos como o Chefs on Fire, cuja edição de 2026 teve o maior número de mulheres no cartaz, é o caminho a seguir. “É darem-nos palco, isso é o principal para conseguirmos mostrar o nosso trabalho. Quando nos convidam, damos o nosso melhor, portanto acho que essa mostra de sabores mais femininos só é possível quando nos dão palco e a gente vem mostrar o nosso melhor”, refere.
Reconhecida com um Sol Guia Repsol, Michele Marques tem a mesma opinião sobre os prémios e eventos como o festival gastronómico.”Olho para os prémios da mesma forma que eu olho para quem nos dá palco nos festivais, que é maravilhoso para divulgar o nosso trabalho, é a nossa oportunidade também de receber um abraço, tipo, ‘estás a fazer um bom trabalho, né, parabéns, está aqui a tua distinção’ e é muito importante para mim, principalmente estando no interior, sendo mulher, imigrante, acho que tem toda essa história que nos ajuda a dar aquele empurrãozinho necessário para a gente fazer o nosso trabalho, para a gente chegar com a voz mais longe.”
À frente da cozinha do Mercearia Gadanha desde 2013, onde cruza o receituário e os ingredientes alentejanos com técnicas contemporâneas e algumas memórias afetivas do Brasil, o espaço tornou-se uma referência gastronómica em Estremoz e faz parte da seleção do Guia Michelin. “Seguimos a mesma linha de raciocínio desde a abertura, que é usar produto local, receituário tradicional revisitado, com todo o respeito pelo território. Vamos usando algum produto de estação, portanto temos muitas sugestões semanais e a carta mantém-se basicamente igual, porque é aquele conforto também de chegar no Alentejo e saber, ‘ok, eu vou ali porque eu consigo comer aquilo’. Ou seja, mesmo que não queiram experimentar uma coisa da sua sazonalidade, temos o nosso menu mais fixo, que não muda muito.”
A próxima edição do Chefs on Fire já tem data. O Pop Up Foz Côa acontece a 24 e 25 de outubro no Parque Arqueológico do Vale do Côa e os bilhetes já estão à venda desde 40€ para bilhete individual e 20€ para kids.
