São jovens, portugueses, já viajaram pelo mundo, mas foi em Portugal que decidiram criar e sustentar as suas próprias marcas. Olham para as peças de joalharia que criam como uma forma de contar uma história e de demonstrar uma identidade. Querem diferenciar-se dos outros e por isso tentam fazer peças que não existem no mercado. Mais do que corresponder às tendências, querem corresponder aos seus próprios ideais.

Joana Ribeiro tem 33 anos, criou a sua marca pouco tempo depois de se licenciar, em 2010. A natureza é a sua principal fonte de inspiração e apostar na textura das jóias, torna-as interessantes também ao toque. É uma marca pensada para mulheres com "personalidade" e "forte sentido estético".

O percurso de Romeu Bettencourt no mundo da ourivesaria começou aos 15 anos quando foi viver para o Porto e decidiu ingressar no curso de ourivesaria da Escola Artística Soares dos Reis. Depois de um longo caminho profissional, iniciou o processo de registo da marca em 2015. Há cerca de um ano e meio regressou aos Açores, a sua terra natal e o local que o inspira para os seus trabalhos mais personalizados.

Já a Sömmer nasceu há cerca de um ano pelas mãos de Sofia Bártolo — uma marca de joalharia contemporânea feita em porcelana e ouro. Depois de trabalhar e viver em países como Brasil, Suécia e Espanha, decidiu voltar para Portugal e é num estúdio na Ericeira que cria suas próprias obras de arte. Apesar de muito diferentes, todos pretendem criar peças que não existam no mercado e marcar pela diferença.

Joana Ribeiro Joalharia

Joana Ribeiro
créditos: Divulgação

Joana Ribeiro é natural de Matosinhos, tem 33 anos e há 10, após acabar a universidade, decidiu criar a sua própria marca de joalharia à qual deu o seu nome.

O gosto pela jóias começou desde muito nova. Sempre fez os seus próprios acessórios e quando chegou à altura de ingressar na universidade não teve dúvidas relativamente a que curso escolher. Licenciou-se em Design de Joalharia, na Escola Superior de Artes e Design e mais tarde, no mestrado, especializou-se em Design de Produto com a vertente de moda. Durante a licenciatura fez ainda ERASMUS em Antuérpia, a cidade dos diamantes — uma experiência que acabou por ser uma grande inspiração para a marca devido aos materiais alternativos que lá conheceu, aos esmaltes e às cores que aprendeu a usar.

Joana Ribeiro começou a trabalhar como freelancer, criando projetos para outras marcas, tudo atividades de curta duração. O facto de ter terminado o curso em plena época de crise fê-la pensar que o melhor seria criar a sua própria marca e assim o fez.

Em 2010 nascem as primeiras jóias da "Joana Ribeiro Joalharia" — uma marca que, com o passar dos anos, se foi adaptando ao mercado em que insere, apostando em mais coleções, mas nunca perdendo a identidade original.

"Sempre fui fiel à minha identidade. Nunca cai na tentação de me desviar da minha linha para agradar ou corresponder a uma determinada tendência ou algo que o mercado estava a pedir no momento. Mantenho aquilo em que acredito, o que defendo e procuro sempre que as minhas peças sejam diferentes do que há no mercado.", afirma a jovem empresária à MAGG. "Inicialmente, eu criava um pouco quando surgia, não tinha propriamente datas definidas. Agora pela parte comercial e também para ir suscitando o interesse por parte de clientes, procuro ir criando pequenas coleções.", acrescenta.

As peças de Joana são feitas em prata, totalmente à mão e a forma como trabalha faz com que cada uma delas seja única e impossível de ser reproduzida em série. "Crio sempre a peça inicialmente em formato maquete e depois faço o protótipo e passo para prata. A partir daí, vou fazendo muitos testes, experimento eu as peças usando no dia a dia para perceber também se são confortáveis e vou fazendo ajustes até ter a peça final. Todo o processo é feito por mim, tanto o protótipo como o soldar peça a peça. Não são peças em série e por isso a nível de stock nunca existe muito de cada peça. É sempre praticamente 100% feito à mão e por isso não existe também duas peças totalmente iguais.", explica Joana Ribeiro.

As jóias de Joana são totalmente inspiradas na natureza e mais do que chamativas ao olhar são também bastante apelativas ao toque. "Procuro transmitir não só a forma de uma folha ou de um pequeno arbusto, mas também a sua textura. Quando as pessoas tocam é como se estivessem a pegar num pequeno jardim", salienta.

Joana Ribeiro é reconhecida internacionalmente pelo seu trabalho desde o fim da licenciatura, mas lamenta o facto de ter um maior reconhecimento por parte dos pares do que do público em si: "Infelizmente penso que cá em Portugal, o que é produzido nacionalmente é facilmente caído no esquecimento." Em 2009, venceu o Concurso Jovens Criadores na categoria de Joalharia, com a sua coleção de final de curso — Annelus Naturalis. Dois anos depois, recebeu o terceiro prémio na categoria Inovação, no Concurso VIP Joias 2010, com o anel Ruber Folium.

O mesmo anel foi selecionado para vários livros de joalharia internacionais e é a peça que Joana destaca como sendo a favorita. "É aquela com que mais me identifico tanto como criadora e também ao meu gosto. É a que uso mais vezes e é  também uma peça que é impossível fazer molde, é sempre diferente. Todos os anéis se moldam à mão de cada cliente e são completamente diferentes porque cada folha é soldada à mão.", explica Joana, acrescentado que esta é uma peça que tem de ser pedida por encomenda.

Anél Ruber Folium
créditos: Divulgação/Joana Ribeiro

Mais recentemente, em 2016, a marca foi uma das cinco vencedoras do concurso "Rising Store", da Sonae, passando por um stand Pop up no Norteshopping onde pôde testar o seu potencial. Esta foi, sem dúvida, uma experiência que considerou "muito gratificante" pois ter as suas peças "num centro tão grande como o Norteshooping em que 99% das marcas são internacionais" fê-la repensar na própria marca. "Foi muito importante para ganhar mais espinha dorsal nesta coisa do empreendedorismo", confessa à MAGG.

O facto de criar peças tão únicas e cheias de personalidade faz com que tenha um público bem definido que, na sua maioria, corresponde a mulheres entre os 40 e os 60 anos de idade. "Tenho a certeza de que as minhas clientes são sobretudo pessoas que procuram algo diferenciador. Não têm o problema de serem vistas, de irem na rua ou estarem no trabalho e alguém reparar nelas por terem um acessório diferente. São pessoas que têm uma identidade muito definida e que são muito seguras relativamente ao que gostam e ao que pretendem transmitir." As jóias de Joana Ribeiro já foram usadas por várias caras conhecidas do público português como Fátima Lopes ou Cristina Ferreira, mas para a criadora o mais gratificante é acabar por encontrar pessoas com as suas peças no dia a dia em situações tão banais como uma ida ao supermercado.

As peças de Joana Ribeiro podem ser compradas através da loja online no site da marca.

Romeu Bettencourt

Aos 15 anos deixou os Açores e foi morar para o Porto já com os olhos postos no futuro. Tinha em mente seguir áreas como a arquitetura ou a engenharia civil, mas o destino trocou-lhe as voltas. Chegou a fazer um curso de Eletrotecnia, mas rapidamente percebeu "que não era daquilo que gostava", o que o levou a ingressar no curso de ourivesaria da Escola Artística Soares dos Reis, no Porto, onde completou o décimo segundo ano. Antes de ingressar na universidade, rumou à Escócia onde, na North Glasgow College, aperfeiçoou a técnica da cravação. Um ano depois, regressou a Portugal para ingressar na licenciatura em Joalharia na Escola Superior de Artes e Design, Matosinhos.

Quando acabou a universidade, um dos professores incentivou-o a concorrer a uma das mais famosa feiras de joalharia da Alemanha. Em 2011, Romeu foi um dos 60 finalistas selecionados, entre 600 concorrentes, de várias especialidades, a nível mundial, presente na Schmuck, em Munique — uma feira que unia várias galerias.

"Na altura concorri, sem expectativas e fiquei e isso foi uma grande alegria. Acabei por ganhar uma certa confiança. Sempre achei que aquilo que fazia não iria vingar muito.", confessa à MAGG. Isto porque considera o seu próprio trabalho como "minimalista" visto que leva poucas pedras. "Não era propriamente alta joalharia, mas foi sempre uma joalharia muito de autor. Depois mais tarde é que vim a perceber que mais gente tinha a mesma maneira de pensar do que eu e isso deu-me alguma margem para sentir que podia dar e que havia algum tipo de clientes que aceitava esse tipo de peças.", acrescentou.

Em 2014 , fez parte de uma seleção de 90 peças escolhidas pela Comissária Marie-José van den Hout  para a exposição "PIN 10 Years exhibition", na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa. Em 2016, tinha acabado de criar a própria marca e foi distinguido com o prémio de "Designer Revelação em Joalharia", algo que lhe deu bastante motivação para continuar.

Romeu trabalha sozinho, é ele quem faz o desenhos das peças, utiliza muita programação 3D, mas a maioria do trabalho é feito à mão. Há cerca de um ano e meio decidiu regressar aos Açores, local onde sentiu que podia ganhar o seu próprio espaço e criou então um ateliê. "Quando vim para cá as coisas tiveram de se alterar um bocado, continuo a ter coleções, mas fazia sentido ter também outro tipo de oferta", afirma.

Atualmente, tem trabalhado apenas com ouro e faz peças por encomenda, uma "joalharia mais personalizada". Recentemente apostou também na  ourivesaria sacra e em 2019 foi convidado a desenhar e produzir o Cálice comemorativo dos 60 anos de elevação do Santo Cristo a Santuário Diocesano.

A sustentabilidade tem sido também aposta no seu percurso. "Hoje em dia já vários artista falam nesse tema porque extrair o ouro e as pedras envolve muita poluição, acabamos por estragar algumas paisagens e eu gosto de ser um artista que contribui também para essa sustentabilidade", afirma Romeu.

Quando começou a trabalhar no ramo da ourivesaria confessa que foi alvo de algum preconceito, mas que o mesmo nunca o impediu de continuar. "Havia quele estigma de ser uma profissão só para mulheres até porque só eramos três rapazes numa turma de vinte e tal", confessa. ."O mercado das jóias é maioritariamente para as mulheres porque são as que apreciam mais, mas fazer joias é um trabalho até bastante duro.", acrescenta o artista.

"Uma pessoa chega a casa sempre com as mãos todas negras. Fazer jóias não é um trabalho propriamente limpo. A peça não está sempre polida, não está sempre limpinha. Tem de passar por um processo que exige muita sujidade e pó.", explica.

Atualmente já vai tendo vários clientes homens, alguns que querem peças para eles, mas a maioria aposta em algo para oferecer ao público feminino. "Os homens procuram fugir um pouco da joalharia tradicional. Querem coisas mais modernas. Às vezes querem coisas muito especificas que só eles é que tenham determinada peça e que mais ninguém tenha nem encontre em lado nenhum", explica.

Anel de noivado em caixa de Lava
créditos: Romeu Bettencourt/Divulgação

As jóias que fabrica pretendem mostrar uma identidade e quem as procura são pessoas que "não gostam de andar atrás das modas". Trabalha principalmente com ouro e destaca uma peça que fez recentemente por encomenda para um rapaz, apaixonado pelos Açores que queria pedir a namorada em casamento na ilha. O casal encontrou nos Açores o seu refúgio e achou que fazia sentido a peça ser elaborada por um local. O anel de noivado foi inserido numa caixa feita em lava.  "Ele tinha o objetivo de que a namorada encontrasse a pedra no chão e que não reparasse o que era, abria a pedra e era o anel", conta à MAGG.

É na ilha que Romeu encontra grande parte da inspiração para as peças que cria e expõem no site da marca. Recentemente pensou em abrir uma loja física, mas pandemia trocou-lhe as voltas.

 Sömmer

Sömmer
créditos: Divulgação

A Sömmer nasceu há cerca de um ano pelas mãos de Sofia Bártolo, uma jovem de 31 anos que, depois de um percurso profissional recheado na área da publicidade e da ilustração, decidiu "explorar novos caminhos criativos" e encontrou na porcelana toda uma identidade.

Nasceu em Coimbra, estudou Design Gráfico em Aveiro e mais tarde, em Espanha, especializou-se em ilustração. Já trabalhou em algumas das maiores agências de publicidade do mundo, na Suécia e no Brasil, e como ilustradora para revistas e jornais como o "Diário de Notícias", o "La Vanguardia" e a "Le Cool". Fez livros infantis para a FNAC e projetos para ONG´s como os Médicos do Mundo.

Foi em Madrid que começou a explorar o caminho da joalharia fundando a Sömmer — uma marca de joalharia contemporânea em porcelana e ouro.  "A porcelana acabou por ser o caminho que eu encontrei que dava resposta à possibilidade de criar sem ser vinculada a um computador, ou seja, criar pelas minhas próprias mãos e acabei por começar a explorar esse mundo e a parte da joalharia. O facto de serem peças pequenas possibilitou-me criá-las em casa e foi a partir daí que isto tudo começou", começa por contar Sofia à MAGG.

A jovem acredita que "as mãos são o coração do artesão" e que cada jóia é capaz de contar uma história que "começa no atelier e continua a ser escrita por quem as recebe". A marca surgiu há cerca de um ano, começou por ser criada em Espanha, mas após o regresso de Sofia a Portugal atualmente a Sömmer é uma marca totalmente portuguesa.

É no estúdio da Ericeira que todas as peças são elaboradas com "carinho, paciência e precisão". A artista explica à MAGG que a porcelana é um material que possibilita uma linguagem muito contemporânea e que lhe permitiu explorar "de forma bastante criativa e sem limitações este mundo". Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, é um material bastante resistente e o facto de ser tão atípico acaba por dar ainda mais destaque às peças. Mas até chegar à jóia perfeita é preciso passar por um processo que envolve várias etapas. É Sofia quem desenha as peças e faz todo o trabalho de forma manual do início ao fim.

A porcelana é um material que chega "cru" às mãos da artista e que, após ser adicionada água para conseguir a plasticidade necessária, é realizado o corte com os moldes, posteriormente fica vários dias a secar à temperatura ambiente. Depois de moldada e deste processo, vai ao forno a uma temperatura de mil graus para ser depois esmaltada, reforçando a forma e consistência do material o que, ao mesmo tempo, permite pintar à mão os detalhes em ouro. Antes da pintura, é ainda necessária uma segunda ida ao forno a cerca de 1250 graus. "Quando saem do forno estão prontas para serem aplicadas em todas as partes metálicas necessárias e para serem colocadas em stock dependendo se são encomendadas ou não.", explica Sofia.

Atualmente a marca conta já com cinco coleções inspiradas em alguns dos livros preferidos de Sofia que retratam a identidade feminina. Mas a maioria das referências vem das viagens que a jovem realizou. Destaca a coleção negra "Timanfaya", inspirada totalmente no Parque de Timanfaya, em Lanzarote, que se tornou para Sofia um dos lugares mais inspiradores.

Colar Timanfaya
créditos: Divulgação

"As restantes peças vêm sobretudo de inspiração das mulheres que estão à minha volta, que são as maiores referências da minha vida e que refletem a complexidade do mundo feminino em toda a sua expressão. Poder retratar a beleza do universo feminino de uma forma delicada e bonita é algo que posso materializar através das peças que produzo e isso é muito gratificante.", confessa à MAGG.

Presencialmente, o primeiro contacto da marca com o público foi no "Mercadito da Carlota" no final de 2019,  seguiram-se o Mercado del Diseño e o Mercado de los Motores, em Madrid — cidade onde nasceu a marca. A pandemia obrigou Sofia a mudar um pouco de estratégia sendo que o foco deixou de ser levar a marca para a rua, mas sim mostrar a sua essência e todo o processo artesanal que é feito "dentro de quatro paredes".

Para já, apostar numa loja não faz parte dos planos da marca. As peças podem ser vistas e encomendadas no site da Sömmer.

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