Não foi fácil encontrarmo-nos com Julien Dufour. A culpa foi nossa: numa altura em que parece que está toda a gente de férias, mas mesmo assim está tudo a acontecer, sair da redação parecia impossível. Por nós uma entrevista por telefone seria suficiente, para o managing partner da ODEON Properties, responsável pela recuperação do cinema Odeon, estava longe de ser o ideal.

Depois de mais uma saga de imprevistos, conseguimos finalmente convencê-lo a falar pelo telefone. Só que ele recuou na decisão logo após a primeira pergunta: "Marta, não me leve a mal mas eu gostava mesmo que viesse aos nossos escritórios ver o que andamos a fazer. Temos um amor enorme por este projeto, e queremos que perceba como nos estamos a entregar de corpo e alma a ele."

Agradecemos a Julien Dufour por ter insistido connosco para que isso acontecesse. De facto ele tinha razão, e de facto não seria possível contar (bem) a história do que está prestes a acontecer com o cinema Odeon se não nos tivéssemos sentado com ele.

Julien Dufour é managing partner da ODEON Properties, responsável pela recuperação do cinema Odeon

E este é um daqueles temas que exigem um tratamento cuidadoso, ou não estivéssemos nós a falar de um dos cinemas mais emblemáticos da cidade — que ficou vetado a uma triste história de abandono durante quase três décadas. Depois de ter ficado aparentemente esquecido numa das zonas mais nobres de Lisboa, na Rua dos Condes, mesmo ao lado da Avenida da Liberdade, o cinema Odeon está prestes a ganhar nova vida.

E já se sabe o que vai acontecer: a partir do final de setembro, começam as obras para transformar o cinema numa propriedade de luxo com dez apartamentos e um restaurante. Com o objetivo de manter a história do edifício, serão preservados todos os elementos mais icónicos do local — deste as varandas e marquises até ao frontão art déco.

Mas vamos com calma porque, como dissemos, esta é uma história que merece ser contada devagar. O cinema Odeon foi uma das salas de espetáculos mais importantes da cidade, recebeu grandes estreias e personalidades da cultura, da política, do desporto. Antes de terminar os seus dias a passar filmes pornográficos, teve enchentes de pessoas que chegaram a irritar a Presidência da República.

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"O cinema progride. Lisboa progride. De amanhã em diante, os amadores de cinema contam com uma nova casa de espetáculos"

Vamos recuar ao dia em que tudo começou. Melhor ainda, vamos recuar à véspera do dia 21 de setembro de 1927, quando o cinema Odeon, situado na Rua dos Condes, em Lisboa, abriu ao público com "A Viúva Alegre", o filme mudo de Erich von Stroheim. Na quarta página do jornal "Diário de Lisboa", dedicado à cidade, uma pequena caixa na lateral da folha anunciava "um novo cinema em Lisboa".

"O cinema progride. Lisboa progride. De amanhã em diante, os amadores de cinema contam com uma nova casa de espetáculos, sumptuosa, elegante, confortável. É o Odeon", lê-se na notícia.

Notícia no 'Diário de Lisboa'

Mesmo ao lado do Teatro Condes, mais tarde Cinema Condes (e onde fica hoje Hard Rock Café Lisboa), o cinema Odeon nasceu no local onde estava instalada a drogaria Ferreira, fundada após o terramoto de 1755. O projeto foi pensado pelo proprietário da drogaria (Anastácio Fernandes), um médico oftalmologista (Eduardo Fonseca) e um pintor (Matoso da Fonseca).

Depois de quatro anos em obras, abriu ao público. Tinha capacidade para 691 espectadores, distribuídos pela plateia, dois balcões e camarotes (Salazar tinha um lugar cativo). Toda a obra era impressionante, desde o teto em forma de quilha de navio e feito de madeira pau-brasil, único do mundo, até ao frontão em relevo Art Déco.

Se teve um começo pomposo quando chegou à cidade — era considerado um dos cinemas mais modernos à época —, foi entre os anos 40 e 60 que se instituiu como uma referência em Lisboa. Por aqui passaram grandes clássicos portugueses como o “Pátio das Cantigas” (1942) e o “Leão da Estrela” (1947), mas também obras de realizadores estrangeiros tão emblemáticos como Frank Capra, Sergei Eisenstein, Fritz Lang e George Cukor.

O dia em que uma estreia no cinema Odeon irritou a Presidência da República

A 24 de junho de 1964, "Uma Hora de Amor" estreou no cinema Odeon. Os jornais davam grande destaque ao filme realizado por Augusto Fraga, que contava a história de António Luís, operário numa fábrica. Descoberto por um empresário que o lança como cançonetista de êxito, o convívio com uma grande vedeta da rádio e televisão afasta-o de Lina, uma rapariga doente que ele adora.

Os protagonistas do filme foram António Calvário e Madalena Iglésias, que se estreavam no cinema. Na noite da exibição, fizeram uma "chegada triunfal", escreveu o "Diário de Lisboa", "com batedores da Polícia, carro aberto e papelinhos coloridos".

Anúncio no 'Diário de Lisboa'

O jornalista não é muito simpático na sua análise ao filme, que descreve como uma "historiazinha piegas de uma rapariga humilde", com uma qualidade técnica modesta e "Canto e Castro foi, por assim dizer, o único que representou". Ainda assim, assume, o grande público não parou de aplaudir: "Aplaudiu a simples presença no ecrã dos dois ídolos; aplaudiu todas as canções; aplaudiu-os de novo no palco, findo o filme."

António Calvário e Madalena Iglésias atraíram, por si só, uma autêntica legião de fãs nessa noite — de tal forma que a Presidência da República não gostou de ver tanta gente reunida num evento que nada tinha que ver com a aparição do chefe de Estado, na altura Américo Thomaz.

"Essas fitas (...) alcançavam, de facto, êxito considerável junto do público, o que pode ser ilustrado por um episódio algo caricato ocorrido na sequência da estreia de 'Uma Hora de Amor'", lê-se num documento do Instituto Camões.

"Tantos foram os admiradores que quiseram ver na noite de estreia do filme que a Presidência da República alertou os responsáveis do cinema Odeon, mítica sala de espetáculos (...) para o facto de nunca em Portugal deverem concentrar-se mais pessoas, fosse para que evento fosse, em número superior ao verificado aquando de qualquer presença pública do chefe de Estado".

O cinema Odeon nos anos 60

Ninguém sabe ao certo se o cinema Odeon chegou de facto a fazer alguma coisa para que aquela situação não se repetisse, mas a verdade é que o sucesso que faziam estava quase fora de controlo. Em entrevista à revista "Sábado", em 2015, António Calvário revelou que, naquela época, não podia andar na rua entre o Rossio e o Chiado.

"As pessoas gritavam "é o Calvário, é o Calvário!", era uma loucura. Se estava anunciada a estreia de um filme no Cinema Odeon, o trânsito nos Restauradores tinha de ser cortado e eu tinha de sair de casa acompanhado por polícias de motorizada".

Do sucesso extremo para um abandono que durou quase três décadas

Foi depois do 25 de Abril que o cinema começou a sobreviver com filmes pornográficos. Não foi caso exclusivo do cinema Odeon — os tempos estavam a mudar, e as salas estavam longe de encher como dantes. Para evitar a bancarrota, que acabaria por revelar-se inevitável, este e outros cinemas viram-se obrigados a reinventar-se.

Só que nem isso foi suficiente para garantir a sua sobrevivência. No início da década de 90 fechou ao público. Durante muito tempo os proprietários não se entendiam sobre se haveriam de vender o edifício ou não. Quando decidiram finalmente fazê-lo, veio a crise.

Durante quase três décadas, o cinema Odeon permaneceu fechado. As suas emblemáticas varandas e marquises pareciam prontas a ruir a qualquer momento, a fachada imaculada noutros tempos transformou-se num repositório de cartazes rasgados, tags e graffitis.

Lá dentro, o cenário era ainda mais devastador. As fotografias de Gonçalo Gouveia, autor da página GG Photography, de locais abandonados, comprovam isso mesmo.

"Decidimos que, se tínhamos perdido o edifício, iríamos chamar à nossa empresa ODEON Properties"

É curioso como esta história de amor (é a designação mais apropriada) começou. Estávamos em 2014 quando a empresa ODEON Properties foi formada. Dedicada ao ramo do imobiliário de luxo, o seu primeiro grande amor foi o cinema Odeon. Só que os proprietários do edifício tinham acabado de assinar um contrato de exclusividade com uns investidores.

"Perdemos a oportunidade", relembra o francês Julien Dufour, managing partner da ODEON Properties juntamente com o português Jorge Capelo. Numa altura em que ainda não tinham nome para a empresa, resolveram fazer uma homenagem ao cinema. "Decidimos que, se tínhamos perdido o edifício, iríamos chamar à nossa empresa ODEON Properties".

Sentir-me-ia terrível se fizesse algo que fosse contra a preservação do edifício".

O destino parecia selado. Só que felizmente não estávamos numa tragédia shakespeariana, e ainda era possível terminar esta história com um final feliz. Exatamente nove meses depois, já com outros projetos na cidade, Julien Dufour recebeu uma chamada dos proprietários a dizer que, afinal, a venda não se iria concretizar. "Na semana seguinte encontrámo-nos, apertámos as mãos e fechámos o acordo."

Quando surgiram as primeiras notícias a anunciar a transformação do cinema Odeon em apartamentos de luxo, a revolta não tardou. Mais um pedaço de história da cidade destruída. Mais um património que não vamos voltar a ver.

O objetivo de Julien Dufour foi exatamente o contrário: construir menos, defender mais. "Sentir-me-ia terrível se fizesse algo que fosse contra a preservação do edifício".

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"O cinema Odeon é especial para toda a gente na cidade. Fizemos visitas ao edifício com imensas pessoas, e as duas reações mais frequentes são, primeiro, uau, e em segundo lugar: 'Eu lembro-me de vir aqui em miúdo'."

Julien Dufour recorda que teve exatamente a mesma reação quando entrou no edifício pela primeira vez com o agora co-proprietário da ODEON Properties, Jorge Capelo. Obviamente não tinha memórias de lá ter estado em miúdo, mas ficou igualmente surpreendido e arrebatado pela beleza do local. Naquele mesmo dia, e muito antes de saberem que conseguiriam comprar o Odeon, decidiram fazer tudo o que fosse possível para preservar a história do cinema.

"Não queremos construir o máximo que conseguirmos, não faz sentido num edifício como este. Queremos preservar a alma do Odeon. Queremos que as pessoas continuem a ter aquelas duas reações: uau e 'eu lembro-me de vir aqui em miúdo'."

Para garantir que historicamente nada falha, Julien Dufour passou muito tempo nas feiras e nos arquivos da cidade, à procura de fotografias. "É difícil encontrar boas imagens do cinema nos anos 30 e 40. Não há muita informação."

Mas a ideia com este projeto é chegar o mais próximo possível do final dos anos 20 e início dos anos 30.

O que podemos esperar do projeto para o cinema Odeon

O projeto arquitetónico de reconversão está a cargo de Samuel Torres de Carvalho, que assinou projetos bem difíceis mas que se tornaram emblemáticos na cidade como os hotéis Memmo em Alfama e no Príncipe Real. As obras vão começar no final de setembro, e deverão estar concluídas em meados de 2020.

No total vão estar disponíveis dez apartamentos, das tipologias T1+1, T2 e T3. As dimensões começam nos 128 metros quadrados. Lá dentro mantém-se a preocupação de preservar a alma do edifício, por isso "incorporou-se o ferro, pés direitos altos, mezzanines." Metade dos apartamentos já foram vendidos.

O projeto do restaurante

Cá fora, as dez portas, anteriormente fechadas porque, claro, no cinema Odeon exigia-se escuridão, vão estar abertas. É uma forma de convidar toda a gente entrar. E podem mesmo todos entrar no restaurante, ainda sem arrendatário definido.

Com um total de 675 metros quadrados, o espaço vai preservar o frontão em art déco, camarotes, clarabóia e teto de madeira pau-brasil.

"Vai ser um restaurante/cinema. Adoraria ter um restaurante que passe filmes antigos ocasionalmente ao longo da semana. Um espaço que se conectasse realmente com o Odeon."

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