Lucas With Strangers é a quarta conta de TikTok mais relevante em Portugal. Com 20 anos, Lucas Rodrigues alcançou 1,5 milhões de seguidores em apenas quatro meses e vê-se agora obrigado a sair do País para conseguir viver da criação de conteúdo. "O TikTok não paga em Portugal", revela o jovem de Vila Nova de Gaia.

Quem é o miúdo de 24 anos que se tornou no primeiro português a ter 1 milhão de seguidores no Tik Tok
Quem é o miúdo de 24 anos que se tornou no primeiro português a ter 1 milhão de seguidores no Tik Tok
Ver artigo

"Como é que o posso fazer feliz?" é a frase que catapultou a conta de Lucas Rodrigues para as tendências do TikTok em Portugal. Os vídeos de "Lucas With Strangers" primam pela generosidade e empatia, mas o motivo por detrás do conceito é tudo menos positivo. "Em janeiro [2020] fui sequestrado. Fiquei com stress pós-traumático. Só fiquei totalmente bem com o projeto", contou Lucas Rodrigues à MAGG.

"Eu estava num bungalow, com a minha [à data] namorada, num parque de campismo, em Gaia, a dormir. Acordei com os gritos dela, porque [os assaltantes] estavam a tentar tocar-lhe sexualmente. Eles tinham facas, disseram para virarmos a cabeça para baixo. Diziam que, se falássemos, nos matavam. Roubaram-nos tudo", recorda Lucas Rodrigues. "Foram presos, apanharam [uma pena de] 8 anos, mas tudo isto deixou-me com vários traumas. Não consegui sair de casa durante três ou quatro meses. Eu moro num apartamento e não conseguia sequer andar no corredor, da porta ao elevador", acrescenta.

Depois de praticamente um ano fechado em casa, focado na saúde mental, Lucas Rodrigues voltou a conseguir sair à rua. Com "medo do mundo", mas com uma vontade inexplicável de tirar fotografias e interagir com estranhos,  o jovem de Vila Nova de Gaia começou o projeto precisamente por registar, através do Instagram, todos os desconhecidos com que se cruzava.

"Comecei com perguntas às quais eu também não tinha resposta. Era mais para mostrar a personalidade das pessoas do que outra coisa qualquer. Entretanto, as perguntas também deixaram de ser suficientes. Não demonstravam o lado que eu queria. É muito diferente obter uma resposta intelectual ou uma reação emocional", explica o tiktoker.

15 famosos portugueses que não imaginavam que pudessem estar no Tik Tok
15 famosos portugueses que não imaginavam que pudessem estar no Tik Tok
Ver artigo

Com a vontade de espelhar a essência e a emoção de "strangers", Lucas começou a gravar as suas interações. Das lutas de almofadas às declarações carinhosas ou a perguntas como "o que é que acontece depois da morte?", o conceito da conta Lucas With Strangers mudou.

O jovem de 20 anos começou a recuperar a confiança tanto no mundo como nos desconhecidos, enquanto tentava mostrar o lado humano das figuras com que interagia. "Cheguei a dar doces a estranhos, porque é mesmo aquela cena que te ensinam a não fazer. Desmistificar um bocado: nós não precisamos de ter assim tanto medo dos estranhos", diz. 

O jovem destaca dois momentos cruciais para o projeto, responsáveis pelo sucesso (quase) imediato. "A certa altura, num dia em que estava a chover,  não podia fazer perguntas nem experiências. Comecei a ver imensa gente na rua sem guarda-chuva e comecei a dar abrigo às pessoas e gravei. E isso puxou outro lado das pessoas, muito mais emocional", conta.

Lucas Rodrigues garante que, desde esse momento, toda a ideia – inicialmente inocente, sem qualquer visão económica ou profissional –  ganhou uma outra dimensão. A partir daí, o foco deixou de ser meramente interagir com estranhos, mas sim ajudá-los. Em conversa com amigos, surgiu a frase "como é que te posso fazer feliz?" e nasceu assim o cerne do trabalho atual do jovem.

Em vez de supor aquilo que podia fazer pelos estranhos, Lucas prefere ser direto e perguntar o que pode fazer para melhorar a vida ou o dia de alguém.  As respostas variam entre simples abraços a flores ou até a viagens de avião – e, para satisfazer esses pedidos, para além de boa vontade, é preciso dinheiro. "Tudo o que faço é à base de doações. O TikTok não paga em Portugal", diz.

Com a pandemia a estragar o negócio da sua pequena frota da Uber e depois de desistir da faculdade, Lucas é atualmente conhecido como 'o rapaz que oferece coisas à malta' e dedica-se exclusivamente ao TikTok. "Eu estou a dedicar 100 por cento do meu tempo a isto – muita gente não pode andar o dia todo na rua a ajudar pessoas. Tenho as minhas necessidades básicas asseguradas, porque tenho os meus pais e estou a viver em casa deles. Nunca gastaria dinheiro das doações em coisas para mim – e é a razão pela qual este modelo não é sustentável em termos profissionais", conta.

Em exclusivo à MAGG, Lucas Rodrigues revela que está prestes a partir para Londres, para poder não só alcançar (e ajudar) mais pessoas como para poder viver exclusivamente da criação de conteúdo para o TikTok. "Estou a pensar mudar-me para Inglaterra, porque lá o TikTok já paga. E eu não gosto de pedir dinheiro às pessoas", explica. "Embora eu saiba que gostam de ajudar e cria uma dinâmica interessante, porque as pessoas fazem mesmo parte do projeto, porque estão a contribuir e sabem que estão a fazer pessoas felizes, acabam por estar a investir em felicidade", acrescenta.

Com uma conta viral no TikTok e mais de 1,5 milhões de seguidores, Lucas Rodrigues confessa que já recebeu propostas de marcas e agências. "Já surgiu e recusei tudo. A base principal de qualquer agência, para monetização, é a publicidade e eu quero mesmo manter o meu conteúdo genuíno. É o coração do meu conteúdo. E mesmo sendo genuíno, imensa gente duvida", justifica.

"Já me sugeriram usar o 'como é que te posso fazer feliz?' para fazer publicidade a uma marca. Ou seja, eu perguntava e a pessoa respondia que queria X produtos. Não percebem que fingir reações é tão óbvio", revela Lucas Rodrigues.

O jovem tiktoker, que atualmente conta com a ajuda de uma única amiga, que trata das gravações, confessa que gostava de expandir o projeto. Lucas Rodrigues admite que, se algum canal televisivo apostasse no "Lucas With Strangers" para a produção de um programa, descartava a opção de partir além-fronteiras. "Era uma coisa que me faria ficar em Portugal. Podia ajudar muito mais pessoas, com financiamento garantido. Só ainda não [o] fiz, porque não sei por onde começar", avança, quase como se de uma sugestão à televisão nacional se tratasse.

Subscreva a newsletter da MAGG.
Subscrever

As coisas MAGGníficas da vida!

Siga a MAGG nas redes sociais.

Não é o MAGG, é a MAGG.

Siga a MAGG nas redes sociais.

Fale connosco

Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado.