Na noite de 7 de janeiro de 2018, James Franco venceu o Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator em Comédia ou Musical pelo seu desempenho no filme “Um Desastre de Artista”. Deveria ter sido um momento de glória para Franco, mas o que se seguiu parecia quase uma homenagem ao filme e ao seu título, ou seja, foi um desastre.

Enquanto James Franco fazia o seu discurso de vitória, um pin de apoio ao movimento “Time’s Up” (criado por várias celebridades ligadas ao cinema para denunciar situações de assédio sexual na indústria) estava bem visível na lapela do seu fato. Mas ao contrário de outros vencedores e apresentadores, Franco foi dos poucos que não aproveitou o tempo de antena para fazer menção ao movimento, à polémica com Harvey Weinstein ou ao tema do assédio.

Este foi um facto amplamente comentado nas redes sociais por milhares de pessoas que seguiam a cerimónia. Sobretudo o Twitter foi invadido por comentários de gente que dizia ser uma ironia o facto de James Franco usar o pin para apoiar o Time's Up.

Sarah Tither-Kaplan e Violet Paley, ambas atrizes, foram das primeiras a publicar nesta rede social declarações que demonstravam a alegada má conduta de James Franco — mas houve mais. Nos dias que se seguiram, cinco atrizes acusaram o protagonista de “Um Desastre de Artista” de um comportamento sexual inapropriado e claro abuso de poder.

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Os representantes de James Franco responderam a estas acusações com palavras do próprio ator que, numa entrevista a Stephen Colbert, chegou a afirmar: “Assumo a responsabilidade das coisas que fiz. Tenho de o fazer para me manter são. As coisas que li no Twitter não estão corretas. Mas continuo a apoiar as pessoas que não tinham uma voz até agora a falarem publicamente sobre estes temas e não quero silenciá-las de qualquer forma”.

Fora da corrida pela estatueta dourada

Na cerimónia dos Óscares da Academia do próximo domingo, será a primeira vez em seis anos consecutivos que o vencedor de Melhor Ator nos Globos de Ouro não figura na lista de nomeados da Academia na categoria correspondente.

Foram as acusações que emergiram contra James Franco a razão desta ausência? Inês Lourenço, crítica de cinema, acha que sim. “Tudo indica que terá sido essa a razão do retirada dele das nomeações para os Óscares, uma vez que contrasta gritantemente com o facto de ter ganho o Globo de Ouro.”

O tema do abuso e do assédio tornou-se tão tóxico em Hollywood que qualquer suspeita que exista é resolvida rapidamente."

Miguel Somsen também concorda que o ator foi afastado devido às alegadas acusações. “Ainda não vi o filme do Denzel Washington, mas acho que haveria espaço para James Franco conseguir a nomeação, nem que fosse preciso sacrificar o sobrevalorizado Daniel Kaluuya, protagonista de ‘Foge’ ”, conta à MAGG o crítico de cinema.

Somsen afirma que acredita que Franco foi preterido pelas suspeitas de estar envolvido em casos de abuso sexual. “O tema do abuso e do assédio tornou-se tão tóxico em Hollywood que qualquer suspeita que exista é resolvida rapidamente sem que seja dada uma segunda oportunidade aos réus. Não há tempo ou então não interessa que se prolongue esta dúvida durante muito tempo.”

Os efeitos em Hollywood

A #MeToo surgiu em outubro de 2017 como uma hashtag utilizada para divulgar os abusos de poder e casos de assédio sexual, especialmente no contexto laboral. A expressão tornou-se bastante viral pois seguiu-se ao escândalo de Harvey Weinstein (o famoso produtor foi acusado por dezenas de mulheres, muitas delas atrizes reconhecidas, de assédio sexual, existindo também uma acusação de violação).

A hashtag popularizou-se e deu origem a um segundo movimento, de seu nome "Time’s Up", fundado no dia 1 de janeiro de 2018 por várias celebridades de Hollywood. Um mês depois, já tinha angariado perto de 20 milhões de dólares para fundos de defesa das vítimas de assédio sexual e cerca de 200 advogados voluntários.

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O movimento teve uma das suas grandes expressões na passadeira vermelha dos Globos de Ouro, onde praticamente todas as convidadas vestiram preto em protesto contra os anos de abuso das mulheres desta indústria, e foram também vários os homens que mencionaram o movimento em entrevistas e discursos, ou mesmo com um pin com a frase “Time’s Up”.

Tenho a certeza de que, na maioria dos casos, as denúncias correspondem à verdade sofrida por estas mulheres. Mas sabemos que, no meio da verdade, pode surgir algum aproveitamento."

Mas não foram só donativos que estes movimentos geraram — também graças a eles existe diálogo e denúncia. E são essas mesmas denúncias que já conseguiram causar fortes consequências na carreira dos alegados agressores.

Harvey Weinstein saiu da produtora homónima e foi expulso da Academia, Kevin Spacey foi retirado da série “House of Cards” e do novo filme de Ridley Scott “Todo o Dinheiro do Mundo” (o realizador substituiu Spacey com Christopher Plummer, tendo este conseguido uma nomeação para o Óscar na categoria de Melhor Ator Secundário), sem contar com diversas outros nomes fortes visados nesta polémica, como Louis C.K., que já admitiu as acusações e se desculpou, a Dustin Hoffman, cujos advogados consideraram as afirmações de assédio sexual "falsidades difamatórias”.

Mas há sempre o outro lado, e no meio da verdade, às vezes pode haver mentira. “Para que conste, eu sou a favor da denúncia de todos estes casos de abuso – em Hollywood e até em Portugal”, afirma Miguel Somsen. “E tenho a certeza de que, na maioria dos casos, as denúncias correspondem à verdade sofrida por estas mulheres. Mas sabemos que, no meio da verdade, pode surgir algum aproveitamento. Essa mentira poderá vir a prejudicar muitos dos que foram visados por inevitáveis oportunistas. É talvez esse o preço a pagar por uma notável purga que, creio eu, virá a ser o principal blockbuster produzido em Hollywood durante os próximos anos.”

Vai existir de novo uma “black carpet”?

Não se sabe se as atrizes e convidadas vão voltar a usar um look total preto no próximo domingo mas é esperado que o tema do assédio sexual seja abordado.

Mas provavelmente não por Jimmy Kimmel — o comediante, que foi mais uma vez escolhido para conduzir a cerimónia, já afirmou que não vai falar do movimento "Me Too".

“Como a temporada de prémios demonstrou, o tema continuará a pesar sobre esta cerimónia e acredito que os discursos também irão nesse sentido”, refere Inês Lourenço.

Mas de uma coisa todos podemos ter a certeza, James Franco não vai pisar o palco do Dolby Theatre no próximo domingo.

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