Devo confessar que sempre me fez alguma confusão ver que há uma tendência para se insistir na ideia de que a música (ou o cinema) "útil", seja lá o que isso significa, não pode ser sinónimo de fogo de artifício — ou seja, ser espalhafatosa, quase cinematográfica ou deslumbrante, até, na estética que apresenta. Foi, aliás, isso que Salvador Sobral disse há três anos, acabado de vencer a Eurovisão: que "a música não é fogo de artifício", mas "sentimentos". Como se o mundo fosse unidimensional e estes dois conceitos mutuamente exclusivos

Desde a vitória de Salvador Sobral no festival, Portugal foi representado por Cláudia Pascoal, Conan Osíris (que não se apurou para a final) e, mais recentemente, The Black Mamba, que ficaram em 12.º lugar nesta edição. Entre os três concorrentes (Elisa não foi a escolhida para representar Portugal após a edição de 2020 da Eurovisão ter sido adiada devido à COVID-19), e independentemente dos registos inteiramente diferentes, há excentricidade q.b, sensibilidade e entrega total às canções que se propuseram interpretar (o mesmo no caso de Salvador Sobral).

The Black Mamba. "Começaram a olhar para nós com outro respeito e consideração"
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A ideia de que uma música deixa de ser "séria", "erudita", "interessante" ou "inteligente" só porque, pelo meio, mete fogo de artifício, jogo de luzes ou artifícios é especialmente inconcebível quando o assunto é a Eurovisão — um evento televisionado que, como toda a televisão de entretenimento, não mostra, nem tem de o fazer, a verdade.

A final da 65.ª edição da Eurovisão, emitida na noite deste sábado, 22 de maio, teve fogo de artifício. E desde quando é que isso é mau? Emocionou, divertiu, fez bater o pé, entreteve e juntou pessoas — ainda que, devido à COVID-19, maioritariamente nas redes sociais — que quiseram comentar o evento. Não é ciência, mas espetáculo.

E ainda que tenha havido espetáculo do bom, também houve bizarria e momentos caricatos. A MAGG acompanhou a final da Eurovisão e mostra-lhe alguns dos momentos mais formidáveis, caricatos ou aborrecidos do fecho do festival — da qual a Itália saiu vencedora.

A atuação dos The Black Mamba, claro

Portugal é um país de paradoxos. Ainda que muito críticos de nós próprios, não toleramos que ninguém de fora nos aponte o dedo. Da mesma forma, somos também profundamente orgulhosos do que somos e fazemos, especialmente se internacionalmente e em representação do nosso país. No entanto, há uma humildade latente que nos impede de dar um passo em falso e arriscar cair no ridículo.

E humildade foi o que os The Black Mamba mostraram quando subiram ao palco da final da Eurovisão. Afinal, era possível, espante-se, ser-se português mesmo com uma canção integralmente em inglês.

Uma vez que "Love is On My Side" não é uma "Amar Pelos Dois", o grupo voltou a beneficiar do jogo de luzes, da cenografia e dos efeitos especiais para, pelo menos, cativar quem vê.

E quem viu, viu o início do que parecia ser uma serenata: um cenário a preto e branco, quase solene, que deixava espaço para que se ouvisse os primeiros acordes da canção portuguesa e da voz de Pedro Tatanka que, em controlo total do seu timbre vocal (afinal, são já vários anos de carreira), não vacilou, mas também não explodiu em euforias — deixando que a guitarra fizesse isso por ele.

Bastava sermos humildes, genuínos e autênticos. E os rapazes conseguiram.

Os problemas técnicos que prejudicaram a atuação da Grécia

A atuação da Grécia, representada por Stefania, distinguiu-se pela forma como foi feita a apresentação a canção: fazendo recurso a muito ecrã verde para 1) tornar os bailarinos invisíveis; 2) esconder a escadaria que a artista iria usar; e 3) usar uma estética típica de ficção científica para um eventual fator uau.

Problema? Houve algumas falhas durante a atuação, até porque a desejada invisibilidade dos dançarinos acabou repetidamente estragada por problemas técnicos, provocando a estranheza de quem viu em casa.

Curioso com o que a plateia, presente em Roterdão, viu durante a atuação da Grécia? O Twitter ajuda. Mas damos uma pista: só viram verde.

O dedo do meio na atuação da canção alemã

A cada salto durante a cação alemã, "I Don’t Feel Hate", interpretada por Jendrik Sigwart, um dos bailarinos surge vestido dentro de uma mão que ora alternava entre um gesto que simulava um "fixe" ou "paz" e outro menos simpático e até agressivo.

Oi, como disse? Pois. Estava tudo planeado, claro, e condizente com a bizarria engraçada do festival.

Tal como os Óscares, também a Eurovisão se alongou

Tal como as cerimónias dos Óscares, dos Emmys ou dos Globos de Ouro, também a final da Eurovisão pecou por se alongar. A emissão começou às 20 horas e terminou perto da meia-noite.

Há, claro, votos para contar. Mas terminadas as 26 atuações da noite, fica difícil captar a atenção do espectador que sente a sua atenção cobiçada pelos canais concorrentes que competem entre si por audiências.

Não ajuda que, enquanto se aguarda os resultados dos votos, o que tenhamos seja pequenos resumos das atuações ou momentos pastilha-elástica que acrescentam zero.

Quatros países com zero pontos

No voto do público, Países Baixos, Espanha, Alemanha e Reino Unido não tiveram direito a voto nenhum, sendo um dos momentos mais constrangedores da noite.

O fair play, no entanto, imperou, e os concorrentes aplaudiram os derrotados da noite num gesto muito elogiado pelos comentadores e pelos espectadores que comentaram o evento, em tempo real, nas redes sociais.

Itália e França tiveram das melhores atuações da noite

A intensidade com que Barbara Pravi, a cantora francesa, se entregou a "Voilà"; a resposta do público cuja reação se fazia ouvir mesmo com canção a tocar; e o enorme e intenso aplauso que durou vários segundos são a base que sustentam a frase seguinte: a canção francesa foi uma das melhores atuações da noite.

De início solene, mas a subir de intensidade à medida que o fim dos acordes se aproxima, atingindo picos vocais que levaram a arena de Roterdão à loucura e a uma explosão de palmas. Tal como Salvador Sobral, em 2017, Barbara Pravi deambulou entre o registo intimista e, a espaços, eufórico à sua maneira.

Duas atuações depois, seguiu-se a da Itália, pelos Måneskin, que apresentaram um rock diferente com uma interpretação eufórica feita para encher o olho do espectador, paradigmático do que faz uma boa preparação nos ensaios: com jogos de luz, efeitos especiais e uma energia contagiante.

Se dúvidas houvesse, basta voltar a olhar para a atuação que terminou com o vocalista, que correu, pulou, cantou e gritou, deitado no chão, exausto.

Em jeito de resumo, foi uma final repleta de música pop, espetáculo, fritaria e fogo de artifício do bom. Mas queriam outra coisa que não isto?

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