Numa sessão intimista e rodeado de amigos, Zé Manel faz uma despedida (ou melhor, uma pausa) na carreira a solo que iniciou há uma década. É uma retrospetiva do seu último álbum a solo "Expectativa / Realidade" mas também o fim de uma era. E o início de outra.

Os dois episódios foram filmados por Afonso Ponto no Misha's Place The One in Lisbon e, a acompanhar o músico estiveram Filipa Azevedo, Philipi, Joana Alegre, Catarina Archer, Jonathan Haller e Christian Tavares (guitarra).

Aos 33 anos, Zé Manel fecha o capítulo a solo da sua carreira e regressa ao lugar onde já foi feliz: os Fingertips. A banda, que se estreou em 2002 e conta com êxitos como "Melancholic Ballad (For The Leftlovers)" e "Picture of My Own", vai regressar "mais cedo do que possam pensar" com um novo single. "Quando derem conta, está cá fora", revela-nos o músico.

Em entrevista à MAGG, Zé Manel explica as razões desta decisão e fala de outro desejo, mais pessoal: ser pai.

Porque é que decide, ao fim de 10 anos de carreira a solo, fazer uma pausa?
Tem tudo a ver com a minha crença de que a vida é feita de ciclos perfeitos. Eu sou um bocadinho supersticioso no que toca a datas, a celebrações, a décadas. Eu comecei num projeto que marcou uma geração, onde estive 10 anos. Eu abandonei os Fingertips em 2009, 2010, numa altura em vivi uma série de experiências inesquecíveis e que não recebi da melhor forma porque talvez não estivesse sequer preparado para elas. Como em tantas outras coisas, quando estamos a viver as coisas pela primeira vez não lhe sabemos dar o devido valor nem avaliá-las com o devido distanciamento porque é tudo novo...

E era muito jovem.
E é tudo muito opressivo, principalmente para um miúdo de 14, 15, 16 anos. Havia alturas em que eu estava a viver o sonho de muita gente adulta, a ter essas oportunidades todas e, na realidade, o que eu queria era fechar a porta àquilo e ir ver um filme com a minha mãe para a sala. Ter tempo para mim, para crescer, para digerir, para lidar. Também sei que foi isso que fez de mim o profissional que sou, mas foi duro! Foi um crescimento que foi muito precoce, muito exigente e que eu, na altura, acho que nem percebi o peso que teve em mim. Quando saí dos Fingertips, em 2009, o meu principal objetivo era reconectar-me com as razões que me quiseram fazer ser músico, que pouco se prendiam com números, com sucesso, com tabelas comerciais. Eu sempre quis fazer música porque era a minha forma de expressar as coisas que me doem e que não sei digerir. A forma mais honesta que eu tenho de me dizer às pessoas é essa. Embora não pareça eu sou um falso extrovertido. Sou um bicho do mato, guardo muito as minhas coisinhas aqui para dentro. Traduzi-las para música sempre foi o processo mais fácil para mim. E o meu projeto a solo, durante estes 10 anos, trouxe-me mil e uma aprendizagens mas uma delas foi a valorizar o que vivi antes.

Desta vez eu tive de fazer tudo sozinho, por conta e risco, sem estrutura. É verdade que vivi o privilégio de fazer exatamente o que me apeteceu, da maneira que me apeteceu, estando-me a marimbar se encaixava numa playlist ou não. Assumo até que este período de 10 anos foi um bocadinho egoísta. As minhas músicas foram provas de amor para as pessoas para quem as escrevi, foram indiretas para família com quem eu se calhar tinha algum desaguisado, foi uma purga muito terapêutica e muito pessoal. Mas percebi o outro lado das coisas e percebi o privilegiado que fui nos 10 anos anterior, numa estrutura onde não era eu que tinha de organizar ensaios nem fazer uma data de investimentos e planeamentos que, desta vez, fui eu. Fui eu que tive de fazer tudo. Claro que foi um processo muito enriquecedor a nível pessoal, muito libertador e necessário. Desafiei os meus limites, deu comigo a ter de perceber coisas que nem me passavam pela cabeça.

Depois de, em 2018, ter resolvido as coisas com os Fingertips... eu sinto que os Fingertips são um bocado como a casa dos pais, onde temos tudo. E, como nós sabemos, há uma determinada idade em que nós queremos é ser hippies e ir acampar para o meio do mato. Isso é que é fixe. Eu sinto que este meu projeto a solo tem sido o meu acampamento no meio do mato. Foi ótimo mas também é bom, 10 anos depois, quando crescemos, percebermos que podemos ir bater à porta de casa dos pais e dizermos 'pá, tinhas razão'. E se calhar, valorizar as coisas de outra maneira.

"Os Fingertips são um bocado como a casa dos pais, onde temos tudo. E, como nós sabemos, há uma determinada idade em que queremos é ser hippies e ir acampar para o meio do mato"

Isto é uma pausa por tempo indeterminado mas eu sei que é uma pausa que vai terminar porque eu sei a minha necessidade de fazer a minha música, à minha maneira e como eu quero. E sei que isso vai voltar. Mas, depois de 10 anos seguidos, onde por minha conta e risco, lancei cinco discos, pagos por mim, criados por mim, e depois de 2018, em que me reencontrei com os Fingertips, ficou muita vontade de tornarmos a viver esta experiência juntos, noutra altura. É quase como reencontrar um amigo antigo. 'Bora lá viver isto outra vez, com outra preparação, com outra maturidade, com outra perspetiva'. Acho que isso nos motiva a todos, porque todos aprendemos muito, longe uns dos outros e acredito que este afastamento foi absolutamente essencial.

Esta pausa na carreira a solo é, então, o regresso a casa dos pais, leia-se, o regresso aos Fingertips.
É, sem dúvida. Nós, já desde 2018, quando celebrámos os 15 anos de carreira e lançámos o "15", em jeito de best of, que ficámos com essa vontade. Até porque quando há alguém na nossa vida de quem gostamos muito mas de quem, a dada altura, nos saturamos, o afastamento é essencial. Quando nós nos separámos, não nos podíamos ver à frente. E eu era um miúdo a precisar de liberdade, de crescer noutras dimensões. Eles, claro, tinham outras expectativas para o projeto. Também eram mais adultos e, se calhar, tinham uma visão mais parecida com a que eu tenho agora, de como se deve viver a música, de pagar as contas com ela. Agora as coisas são bastante diferentes. Nós já tínhamos essa vontade mas eu já tinha este projeto do "Expectativa / Realidade" em curso e queria terminá-lo.

Nestes 10 anos eu fiz o melhor que sabia, que podia, fiz a música que quis. Mas estes 10 anos estão terminados, com cinco discos em que mostrei outras facetas minhas, onde eu próprio me descobri e cresci enquanto músico e enquanto pessoa e, agora, quero celebrá-los da melhor maneira e quero ir com a cabeça limpa para uma nova aventura. Por outro lado, a título pessoal, acho que isso me vai permitir fazer o que não fiz estes 10 anos pela minha vida: descansar um bocadinho, investir mais em mim, ter tempo para ter um filho, pegar no meu dinheiro e gastá-lo a viajar, a ter outras experiências. Acho que está na altura de ceder um bocadinho ao conforto de ter um projeto que tem uma estrutura que marcou a História da música portuguesa, que tem o carinho do público e deixar um bocadinho de querer ser o super herói controlador que faz tudo e voltar só a escrever e a cantar.

"Vivi quase tudo na minha vida, de maneira tão rápida e tão intensa que sinto-me um velho precoce de cabeça"

Apesar das diferenças de idades dos outros elementos dos Fingertips, isso está muito mais esbatido agora, por causa das experiências de vida.
É óbvio. O sucesso dos Fingertips foi muito importante para a construção da minha autoestima, para cicatrizar algumas mágoas que eu tinha da infância e da adolescência, de não me sentir integrado, gostado, que pertencia, de não sentir identificação, e o sucesso proporcionou-me essa ponte com as pessoas. De perceber que as pessoas me viam, me ouviam e que se interessavam pelo que eu tivesse a dizer. Mas em todo esse sucesso que eu vivi, o meu interesse nunca esteve no dinheiro, na estabilidade financeira, na carreira, no prestígio. Porque, nessas idades, não se tem noção dessas coisas e do impacto que têm na nossa vida.

Referiu o desejo de ter um filho. Essa necessidade de estabilidade também está diretamente relacionada com essa vontade de ser pai?
Claro que sim! Não me arrependo de nada porque acho que quando nós estamos de pazes feitas com o passado e gostamos de ser quem somos, e nos apaixonamos pelo processo, vemos o saudosismo de outra forma. Mas eu acho que vivi quase tudo na minha vida, de maneira tão rápida e tão intensa que eu sinto-me um velho precoce de cabeça. Hoje em dia, para alguém me tirar de casa tem de ser com um guindaste. Porque já não me apetece. Vivi muito, não me privei de nada, lambuzei-me, fui um alarve! Hoje em dia quero cada vez mais uma vida pacata. Sou muito caseiro, gosto da minha rotina, dos meus animais, da limpeza, de cozinhar o que janto, de voltar para casa no fim dos concertos para dormir na minha cama. Há uma série de coisas que encantam a maior parte das pessoas que, a mim, já não me dizem grande coisa.

E se tiver filho que queira fazer uma vida de músico saltimbanco como a que teve quando tinha 14, 15 anos?
Para já, nunca limitarei um filho meu em rigorosamente nada que o faça feliz, a menos que seja nocivo para ele ou para os outros. Sempre disse que um filho meu poderá brincar com o que quiser menos com armas. Mas não lhe vou dizer que não. Vou tentar protegê-lo e aconselhá-lo, até porque passei por isso. Se for essa a vontade dele, pronto. Também podia dizer que gostava de ter um filho que, aos dois anos, já estive aí nos treinos para ser o próximo Ronaldo. Ao menos dava-me uma velhice mais descansada (risos). Mas estaria a mentir. Não, não queria ter (risos). O que quer que ele queira ser, que seja bom. É o meu desejo.

"Nunca limitarei um filho meu em rigorosamente nada que o faça feliz, a menos que seja nocivo para ele ou para os outros"

Encerra estes 10 anos de carreira com uma sessão gravada com vários amigos.
Um dos privilégios que eu tive no meu projeto a solo foi trabalhar com pessoas muito diferentes e de me cruzar com gente muito especial que, se não fosse através da música, eu não teria conhecido. Com a Mafalda Arnauth, com o José Cid, com o Tozé Brito, e com pessoas menos conhecidas, com a Iolanda Costa, com a Filipa Azevedo, que é a minha melhor amiga. Nós conhecemo-nos através da música e aquilo que nos juntou não foi termos passado tardes no café a falarmos das nossas vidas. Foi cantarmos juntos. E isso pressupõe uma identificação muito especial que acho que só quem faz música entende. E foi isso que quis fazer nesta sessão. É assim que eu faço música. Por outro lado, quis fazer um live videoclipe, com uma imagem cuidada, de videoclipe, mas onde tudo o que vocês ouvem é ao vivo.

Quando estavam a gravar este concerto, sentiu alguma nostalgia por simbolizar uma despedida?
Senti uma nostalgia porque eu não sei fazer música sobre e com amor e acho que não há uma maneira honesta de falar sobre o amor sem ser um bocadinho piegas. O "Expectativa" simboliza aquilo que eu quero parecer, que os outros vejam em mim, isso é aquilo que eu tento veicular e que eu tento beber das pessoas que admiro. Por outro lado, eu não sou nada disso. Sou uma pessoa super frágil, super sensível, super piegas, e o "Realidade" mostra isso. Mostra o Zé que passa horas a fio a chorar no quarto e a escrever, e a ouvir as suas playlists. Portanto, é natural que sendo essa sessão maioritariamente feitas de música do "Realidade", haja um bocadinho dessa nostalgia. Coisa que será sempre natural verem em mim, em todos os meus concertos.

Eu vivo a música de uma maneira muito visceral, e escrevo sobre as saudades que sinto de alguém, sobre as minhas inseguranças. Eu já estou habituado a ser o músico que chora em palco e já não me envergonho disso. Tento, inclusive, rentabilizar isso para a performance, porque acho que isso me aproxima das pessoas. E sim, eu sou frágil. Não gosto de me sentir criticado, de não ser gostado, de me sentir desadequado. E é engraçado porque, quando estávamos a trabalhar na nova música dos Fingertips que vai sair, eu quando ouvi aquilo pela primeira vez finalizado, tive um ataque de choro enorme. E foi muito ridículo porquê? Porque a música está tão poderosa e tão forte que eu quase que senti isto: 'aqui é que é o meu alter ego'. Quando eu sou o Zé Manel dos Fingertips, este é que é o meu alter ego. O Zé Manel dos Fingertips é forte! Está a marimbar-se para tudo! É, de facto, empoderador. Mas depois, quando ouves aquilo, há aquela noção 'eh pá, eu não sou nada disto! Eu tenho medo de não ser isto tudo!'. Há uma insegurança... é muito engraçada, esta dualidade.

Como se quisesse e fugisse ao mesmo tempo.
É como se tivesses medo da grandeza que nasce em ti quando estás naquele contexto. Até porque já a viveste e ela assustou-te, magoou-te. Portanto, sim, há aqui um turbilhão de emoções em relação a estas coisas todas. Mas, de facto, eu acho que as pessoas merecem a oportunidade de viver isto connosco outra vez, a ter a consciência das coisas. Daí dizer que estes 10 anos a solo foram um bocadinho egoístas. Está na altura de dar às pessoas que me permitem fazer música e que me acompanharam este tempo aquilo que elas querem. E elas querem o Zé Manel dos Fingertips. E eu agora sinto-me mais preparado para lhes dar isso de outra maneira, com mais forma e com mais estabilidade para viver tudo o que é subsequente.

"Quando eu sou o Zé Manel dos Fingertips, este é que é o meu alter ego. O Zé Manel dos Fingertips é forte! Está a marimbar-se para tudo!"

Está preparado para um impacto mediático que trará o regresso dos Fingertips? Hoje em dia há outro tipo de formas de obter feedback, como as redes sociais.
Estou preparado porque vou vivê-lo de uma forma diferente. Hoje em dia tenho uma vida pessoal tão mais pacata que não em exponho aos perigos que me expunha nessa altura. Tenho um total desinteresse por esse lado mediático que, há 15 anos, não acontecia. Porque era novidade para mim, porque estava a descobrir e estava a viver a vaidade de sentir que as pessoas queriam saber mais sobre quem eu era, que me queriam dar coisas, e tirar fotografias comigo.

Nós estamos em Portugal e o nosso País não é propriamente um País que privilegie as artes e a cultura e, portanto, o nosso mediatismo, quanto a mim, é um bocadinho corriqueiro, mixuruca, vazio, parolo e não me traz nada de relevante nem para a minha vida pessoal nem para a minha carreira. A minha vida é a minha vida, é extremamente desinteressante e eu hoje em dia valorizo muito o luxo da privacidade.

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