Há cada vez mais mulheres a dar os primeiros passos no universo dos videojogos online. Mais: o número de jogadoras a nível profissional ou competitivo aumentou nos últimos anos, mas continua a ser difícil contornar o preconceito e os abusos a que muitas vezes estão sujeitas. Três jogadoras contam à MAGG como, a certa altura, os jogos deixaram de servir como uma simples forma de entretenimento e passaram a estar noutro patamar completamente diferente — o do streaming e o da competição.

E José Amendoeira, fundador e responsável do 1UP Gaming Longe, o primeiro bar temático de videojogos em Portugal, explica-nos como é que as mulheres conquistaram o seu espaço num meio tipicamente masculino, em que por vezes o machismo, a intolerância e a violência gratuita imperam.

Do entretenimento ao desencanto

Sara Maria, de 24 anos, jogadora e ex-streamer, conta à MAGG que o gosto pelos videojogos começou com a primeira vez que teve acesso a um computador ligado à internet. Na altura, continua, o catálogo de jogos a que se dedicava era muito reduzido mas jogava-os todos de forma casual até conhecer o jogo online "League of Legends" que diz ter mudado a maneira como olhava para o meio.

"Até então, via os jogos como puro entretenimento mas com o 'League of Legends' fiquei a perceber que existia uma parte competitiva muito séria", o que levou Sara não só a conhecer algumas das organizações portuguesas e a forma como estas se juntavam na promoção de eventos, como a fazer transmissões regulares e em direto das sessões de jogo em plataformas online como o Youtube ou o Twitch.

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Também Catarina Sousa, de 23 anos, streamer na plataforma Twitch, revela à MAGG que cresceu com a influência dos videojogos. Experimentou o primeiro título aos quatro anos no computador do pai e desde então o bichinho ficou. "Sempre que encontrava um jogo novo, nem que fosse daqueles que vinham nas caixas de cereais, eu tinha de o jogar". Porém, diz que não é fácil ser-se rapariga no universo dos videojogos.

A certa altura fiquei com muito medo de falar no jogo, pois já sabia que a atenção iria ser posta em mim e não no objetivo que, enquanto equipa, tínhamos de cumprir. Assustava-me muito. Assumiam que, por ser mulher, não merecia jogar como eles.

"Enquanto mulheres sentimos uma grande dificuldade em falar dentro do jogo, precisamente porque a nossa voz nos denuncia e abre de imediato portas ao insulto, ao enxovalho e à humilhação pública", diz Ana Sofia, de 16 anos, streamer e jogadora competitiva de "Counter-Strike". Sara é da mesma opinião e defende que este tipo de situações são cada vez mais recorrentes em jogos cuja receita para o sucesso esteja na comunicação entre membros de equipa. Especialmente em servidores públicos em que geralmente não se conhece as pessoas com quem se está a jogar.

Devido às ofensas e a todo o tipo de constrangimentos a que estão muitas vezes sujeitas, são cada vez mais as mulheres que se escondem por trás de perfis falsos.

As mulheres são o alvo mais fácil

Não é o caso de Sara, Catarina e Ana que assumem sem medos que são mulheres, ainda que lamentem as piadas de mau gosto ou as abordagens mais grosseiras de que muitas vezes são alvo. "A certa altura, fiquei com muito medo de falar no jogo, pois já sabia que a atenção iria estar posta em mim e não no objetivo que, enquanto equipa, tínhamos de cumprir. Assustava-me muito. Assumiam que, por ser mulher, não merecia jogar como eles", revela Sara que hoje deixou de fazer streaming por estar cansada da atenção negativa que recebeu.

Já existe, porém, uma maior diversificação de jogadores a nível nacional. São cada vez mais as mulheres que se expõem e jogam a nível competitivo e profissional. Quem o diz é Ana que, com apenas 16 anos, é  uma inspiração para muitas raparigas que a veem jogar. Sara aplaude a mudança de mentalidades a que se tem assistido nos últimos tempos, em parte devido à ajuda de várias organizações, como a For the Win, que tem tido um papel ativo na promoção da igualdade e do respeito entre todos os jogadores.

"Finalmente perceberam que este não é um universo exclusivo aos rapazes; as raparigas também jogam e quem disser o contrário não sabe do que está a falar", defende Catarina que hoje continua a fazer streaming para um número considerável de seguidores.

Ainda assim, a desigualdade entre géneros continua a ser palpável. Sara contou à MAGG que era constantemente atacada por pessoas que não conhecia e que muitas vezes procuravam uma simples reação através dos insultos e da humilhação. Apesar de nunca ter percebido o motivo da violência que lhe era direcionada, diz que o facto de ser mulher pode muito bem ter sido razão suficiente. "O meu namorado começou a fazer streaming há sensivelmente seis meses, e ainda ninguém lhe invadiu a stream para criar confusão, precisamente porque é rapaz e é normal haver rapazes que joguem. Nós, mulheres, somos o alvo mais fácil", continua.

A experiência de José Amendoeira enquanto fundador e responsável do 1UP Gaming Lounge, diz-lhe que continuam a existir obstáculos a qualquer mulher que queira encontrar o seu espaço no universo dos videojogos. "É lamentável que assim seja, já que é um meio em que todos os envolvidos partilham o mesmo gosto", mas José não tem dúvidas que esta é uma realidade que a pouco e pouco tem vindo a mostrar-se aberta à inclusão e à normalização da presença da mulher.

Morada: Passeio de Neptuno, 5, Lisboa

Email: geral@1up.pt

Horário: 18h-02h, 14h-02h ao sábado e domingo, fecha à segunda-feira

No 1UP, continua, há cada vez mais mulheres que deliberadamente visitam o espaço e se juntam com os amigos para longas sessões de jogo e diversão. Contudo, há diferenças nos tipos de jogos preferidos entre elas e eles.

"Elas preferem os jogos com uma componente mais social", revela José, e adianta ainda que, geralmente, os jogos mais competitivos nem sempre as atraem, precisamente pela violência e o assédio online que os caracteriza. Ainda assim, diz que hoje há uma aceitação acrescida por parte da comunidade portuguesa, embora Portugal continue muito atrás de outros países como Espanha ou França, onde se "denota uma igualdade muito forte entre jogadores, independentemente do género, credo religioso ou nacionalidade."

O 1UP foi o primeiro bar temático de videojogos a ser criado em Portugal e é hoje o ponto de encontro entre os vários jogadores de Lisboa

A mudança de mentalidades teve certamente um papel fundamental para que o universo dos videojogos fosse considerado mais sério e justificasse a presença de organizações que protegessem os seus atletas. Exemplo disso é a GrindingMind, uma associação que, não só luta pela promoção da vivência saudável entre jogadores, como oferece ainda apoio psicológico a jogadores individuais ou a equipas profissionais em casos de bullying ou stresse resultante das competições.

A violência verbal sempre fez e continuará a fazer parte do meio. Principalmente em situações de alta tensão em que os nervos estão à flor da pele de cada jogador, mas José acredita que para as mulheres será sempre mais doloroso ouvir certos comentários, "especialmente quando o insulto é muito direcionado para um só género." Acaba por haver uma personalização do conflito que leva, inevitavelmente, à segregação das mulheres do universo dos videojogos.

Para José, é urgente que se combata aquele que considera ser "um dos maiores flagelos da atualidade", neste universo, o da violência contra as mulheres, para que o público feminino não tenha medo de dar os primeiros passos neste universo, mas também para apoiar a diversidade de um meio que continua a ser composto maioritariamente por rapazes.

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