De cabelo esgadelhado e barba ruiva, Tiago Barbosa apresentou-se no "The Voice Portugal" com a guitarra na mão para interpretar "Make You Feel My Love", um clássico de Bob Dylan. A voz rasgada e o timbre característico foram o suficiente para que, até ao final da atuação, as cadeiras dos quatro mentores do programa se virassem naquele que é o sinal máximo de interesse e vontade de trabalhar com os concorrentes. Quem o viu atuar, ainda em meados de setembro, reconhece-lhe o à vontade em palco que, sabemos agora, não é por acaso.

É que antes do "The Voice Portugal", Tiago Barbosa, natural da Póvoa de Lanhoso, já estava habituado à ideia de tocar ao vivo para estranhos — sujeitando-se ao escrutínio e à avaliação do público enquanto artista de rua. No momento em que a pandemia lhe esvazia as ruas do Porto que antes se enchiam de pessoas para o ouvir cantar, a decisão de se inscrever no programa teve como único objetivo elevar a sua carreira profissional.

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"Era habitual pegar nas minhas coisas e ir tocar para a rua e, de repente, vi as ruas sem gente. A partir do momento em que comecei a sentir essas barreiras àquilo que, até então, era a vida normal, procurei alternativas. A entrada no programa foi a pensar no futuro a médio-longo prazo", explica à MAGG.

Mas esta não foi a primeira vez que ponderou este caminho.

O salto para o "The Voice Portugal" como uma estratégia profissional

"Cheguei a ir a um casting há mais ou menos sete anos, mas não passei. Passado esse tempo, foi como se as coisas se tivessem alinhado para acontecer dessa forma. Tinha já alguns originais gravados em estúdio, tinha tempo, e foram uns amigos que me disseram que, dada a conjuntura atual, esta podia ser a altura ideal para me inscrever numa coisa destas e dar o salto em termos profissionais."

Tiago Barbosa saltou, mas, para já, ainda é cedo para perceber exatamente a que alturas chegou. A única certeza que tinha era que, da forma como estava a fazer as coisas — cantando nas ruas e publicando alguns vídeos no YouTube das suas interpretações —, o alcance a novos públicos iria ser demorado. Nesse sentido, assume que se tratou de uma "decisão estratégica" com olhos postos no futuro.

Mas ainda que tenha procurado novos palcos, nem por isso a saudade das ruas desaparece. Prova disso é o entusiasmo com que Tiago Barbosa fala delas na conversa com a MAGG.

"Antes de sair de casa para tocar, fazia um calendário semanal consoante o dinheiro de que precisasse para o mês e escolhia entre três ou quatro dias por semana", mas todo o processo é muito dinâmico porque não há horas certas ou uma duração fixa para se estar nas ruas. Nas palavras do músico, trata-se de um "jogo de sensatez".

As ruas que se esvaziaram durante a pandemia

"Se durante as primeiras horas fizesse o dinheiro necessário, já não tocava mais porque há mais artistas de rua que também precisam de ganhar dinheiro. Nesses casos, sentia-me sempre no dever de dar o lugar a outro", explica. E ainda que, em condições normais, a média de dinheiro oscilasse entre os 100 e os 150 euros por dia, pós-confinamento a quebra foi abrupta.

"Na primeira fase do descofinamento ainda havia muita gente com medo nas ruas, mas sentava-me à mesma numa cadeira a tocar para quem quisesse ouvir. Cheguei a estar uma tarde inteira a tocar para, ao final do dia, fazer apenas dez euros. Foi complicado. Ao ver os números [de contágios diários] novamente descontrolados, as pessoas voltaram para casa e os artistas também, porque todos querem proteger-se."

Impossibilitado de ganhar dinheiro a fazer o que gosta nas ruas do Porto, Tiago e da namorada, com quem vive, contaram com a ajuda da família. "Temos uma família muito sólida e isso fez com que as coisas se organizassem e se ultrapassassem. Se não tivéssemos a nossa família aqui, teria sido bastante mais complicado e, não tenho dúvidas, teria passado a barreira psicológica e ter-me-ia estragado a vida profissional", conta.

Apesar de tudo, o concorrente afirma que o público português é dos que mais contribui, e até valoriza, os artistas de rua. Não tem certezas sobre se a pandemia — que obrigou mais pessoas a consumir cultura nas suas mais variadas formas — terá tido impacto, mas recorda alguns dos comentários que foi recebendo após o primeiro desconfinamento e que, diz, parecem ir nesse sentido.

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"As pessoas ficaram sensibilizadas para a importância da cultura nas suas vidas e houve muitas que me diziam, depois de me ouvir tocar, que aquele tinha sido o único concerto ao vivo que tinham visto este ano e agradeciam-me. A rua traz ao de cima essa genuinidade das pessoas que, por nos verem, se sentem à vontade para parar, ouvir-nos e até abordar-nos seja com uma palavra ou com um agradecimento através de dinheiro. E fazem-no porque sentem que o devem fazer, não porque são obrigadas a tal."

Sobre o que esperar de Tiago Barbosa no programa, que começou com uma interpretação de Bob Dylan e depois surpreendeu com uma versão de "The House of the Rising Sun", o músico diz que embora se tenha apresentado com alguns clássicos da música, quer também cantar em português e irá fazer "alguma pressãozinha para que isso aconteça".

O artista de rua natural da Póvoa de Lanhoso começou por escolher a equipa de Diogo Piçarra, mas faz agora parte da equipa liderada por Aurea. A próxima emissão do "The Voice Portugal" está marcada já para a noite deste domingo, 29 de novembro, na RTP1.

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