Comecei na Tailândia esta viagem de um ano pelo mundo com o meu namorado, Nuno. Estive um mês neste país incrível, pelo qual me apaixonei, e que me marcou para sempre. É interessante perceber como, de facto, precisamos de muito pouco tempo para nos sentirmos em casa, longe de casa. Eu já estava confortável aqui, por isso, confesso, custou fazer as malas e seguir caminho. Sei bem que a premissa desta aventura são as despedidas constantes, por isso, o melhor que tenho a fazer é habituar-me a elas. Sem dúvida, o entusiasmo pelo destino seguinte ajuda muito neste processo, e confesso que era imensa a minha curiosidade pelo Vietname.

Volta ao Mundo. O melhor da Tailândia em 3 histórias e destinos que não vou esquecer
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Aterrei em Hanói, cidade que me conquistou logo à chegada, e sobre a qual terei oportunidade de escrever noutro artigo. Nesta publicação, partilho uma das mais inéditas experiências que vivi nos últimos anos. Inéditas, com quem diz radicais, arriscadas, ou melhor ainda, fora da minha zona de conforto. Tanto, que na véspera do início desta aventura, pensei muito em desistir. Ha Giang Loop é o nome dado a este percurso de mota de mais de 450km pelos montes e vales do norte do Vietname, que pode ser feito entre três a cinco dias.

Optámos pelos cinco dias, porque excluímos logo à partida a hipótese de andarmos com tempo contado por caminhos desconhecidos, ainda por cima de mota, meio de transporte ao qual não estamos habituados.

O Ha Giang Loop é conhecido por ser um sobe e desce constante, tal como por curvas e contracurvas, na maior das vezes, apertadas. As estradas não estão propriamente em bom estado, e muitas não têm sequer rails de proteção, deixando-nos com a sensação de que a qualquer momento podemos cair ribanceira abaixo. É também um desafio partilhar este caminho com outros carros, motas, autocarros e camiões, porque as estradas são estreitas, a visibilidade está longe de ser a melhor e a gravilha surge quando menos estamos à espera. Valha-nos a buzina, usada por todos a cada instante, sobretudo como sinal de alerta para as ultrapassagens.

Por tudo isto, não vou mentir, esta viagem impõe respeito. Contudo, a sensação de superação à chegada de cada nova meta é inexplicável e contribui para tornar esta jornada inesquecível. Além disso, a beleza da paisagem coloca todos os receios em segundo plano e faz a aventura valer a pena. Não é mesmo por acaso que as estradas deste percurso são descritas como das mais bonitas do mundo em inúmeros blogues e artigos de viagens. Foi esta conotação, que repetidamente vimos atribuída ao longo da nossa pesquisa, que nos deixou curiosos sobre este paraíso na terra, ainda muito pouco explorado.

O Ha Giang Loop traduz-se num verdadeiro mergulho na natureza. Leva-nos a imiscuirmo-nos num Geoparque Mundial da UNESCO, onde é diária a exposição a paisagens únicas e surpreendentes, da montanha aos terraços de arroz, sempre pautadas por um verde vibrante que parece pintado à mão.

A autenticidade é evidente, tanto na natureza que nos envolve ao longo de todo o percurso, quanto nas pessoas que passam por nós ao longo dos dias, às quais foi impossível ficar indiferente. Cruzámo-nos de facto com inúmeros locais ao longo do caminho, acedendo a parte das suas rotinas.

O trabalho no campo é duro, levado a cabo por homens e mulheres, mas também por adolescentes e crianças. Passa por cuidar do gado, mas também e sobretudo pelo transporte a pé de materiais pesados, que são carregados às costas ao longo de muitos quilómetros.

As crianças saem de manhã cedo para chegarem a tempo à escola, para a qual se dirigem a pé. O caminho é longo e repete-se ao fim do dia, para o regresso a casa, feito à luz da lua. As crianças caminham sozinhas ou em grupo, quase sempre de mãos dadas. São independentes, mas unidas entre si, e parecem felizes. Perdi a conta aos sorrisos que me entregaram, a troco de nada.

Embora nesta zona do Vietname quase ninguém fale inglês, de uma forma geral, todas nos disseram “Hello, how are you?”. É com estranheza que nos olham, mas também com curiosidade. Os mais pequenos, com medo de nós, escondem-se atrás das saias das mães, que nos explicaram que, por causa da pandemia, somos os primeiros ocidentais que vêem na vida.

Esta zona rural do norte do Vietname foi altamente afetada pela COVID-19, já que vive essencialmente do turismo. Reergue-se agora, passo a passo, fazendo frente aos desafios.

É inspiradora a garra destas pessoas, são verdadeiros exemplos a seguir.

De seguida, partilho informações mais práticas e específicas sobre os cinco dias desta aventura. Assim, caso venha a passar por esta experiência, pode precaver-se sem grandes surpresas.

Chegada a Ha Giang

O Ha Giang Loop começa na cidade de Ha Giang, situada no extremo norte do Vietname. Chegámos aqui de autocarro, a partir de Hanói, viagem que dura sete horas. As avaliações online sobre estas viagens denunciam os condutores destes autocarros, com relatos muito negativos. Efetivamente, a condução no Vietname é diferente daquilo a que estamos habituados, já que as regras de trânsito não são cumpridas e impera o vale tudo. No entanto, este sistema funciona, ou pelo menos, parece que sim. De todas as opções disponíveis, a empresa Good Morning Cat Ba pareceu-nos a melhor, por isso arriscámos e correu tudo bem (preço do bilhete por pessoa: 13,31€).

Chegámos numa sexta-feira à noite e ficámos alojados num hostel que recomendo: Kiki’s House.

A Kiki é uma rapariga de 31 anos que cresceu em Ha Giang e que leva a cabo este negócio com a família. O hostel dispõe de serviço de lavandaria, serve refeições e faculta ainda o aluguer de motas.

Definimos logo à partida que iniciávamos o Loop no domingo, por isso tirámos o sábado para descansar, tratar do aluguer da mota (valor do seguro: 4€; valor do aluguer por dia: 8€), comprar roupas quentes e fazer a reserva dos dois primeiros hotéis.

O Nuno adora conduzir carros, mas não tem experiência a conduzir motas. Já eu, tenho ainda menos, por isso ficou claro, logo à partida, que o Nuno seria o condutor. A equipa da Kiki aconselhou-nos a alugar uma mota semi-automática, por ser mais robusta e segura. Contudo, é também mais exigente, porque implica que as mudanças sejam alteradas manualmente (exatamente como acontece nos carros).

Seguimos o conselho, mas como a partida era só no dia seguinte, passeámos de mota pela cidade, com o objetivo de a testarmos. Este primeiro passo foi fundamental, porque levou-nos a concluir que não seria seguro seguirmos viagem nesta mota. Não aconteceu nada de grave, mas percebemos que, por falta de experiência, pelo menos nas subidas não seria possível controlá-la a 100%. Estávamos mais do que a tempo de trocar para uma automática e foi isso mesmo que fizemos.

O tempo estava mais fresco do que estávamos a contar e, embora não nos tenhamos lembrado deste pormenor previamente, a verdade é que nas montanhas a tendência é fazer frio. Recorremos por isso a um mercado local (Minh Khai Market) para comprar roupa mais quente, com o intuito de garantirmos que o frio não era problema ao longo do percurso. Só não encontrámos luvas, que queríamos também ter comprado por precaução, já que por mais que fosse ponto assente que teríamos uma condução cuidadosa, sabíamos que ninguém está livre de quedas. De joelheiras não precisámos, já que a Kiki emprestou, e impermeável já tínhamos.

Abastecemo-nos ainda de bolachas, fruta e água, que guardámos na bagageira da mota, para alguma eventual emergência. Este kit SOS, como lhe chamámos, pode mesmo ser salva-vidas, explico adiante porquê.

Faltava apenas fazermos a nossa mala de viagem. Trouxemos o mínimo possível, pois apenas seria possível transportarmos uma mochila. O aluguer da mota, além dos capacetes e joalheiras, inclui um fio resistente, que permite prender a mochila à mota, junto ao lugar do co-piloto, neste caso, eu.

Assim:

Volta ao Mundo

Et voilà, tudo a postos para o grande dia. Confesso que, na véspera, a ansiedade misturou-se com a euforia, entusiasmo e vontade de seguir de caminho. Por isso mesmo, não foi fácil adormecer. Faz parte e, percebi depois em conversa com outros turistas, é comum a muitos do que se propõem a embarcar nesta aventura do outro mundo.

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Mapa com o percurso oficial. Não foi exatamente este o caminho que seguimos, porque surgiram imprevistos, mas foi com base neste mapa que nos guiámos do início ao fim.

Dia 1: Ha Giang - Quan Ba (55km)

Saímos pelas 10h45 de Ha Giang e demos início à aventura. Percebemos logo à partida que a velocidade confortável para nós seriam os 40km/h. De uma forma geral, foi assim que nos mantivemos sempre, com excepção das estradas planas, sempre a direito, que nos permitiram chegar no máximo aos 50km/h. Diria que esta é a dinâmica mais segura e tranquila para quem, como nós, não está muito à vontade a conduzir uma mota.

Uma hora após o arranque, chegámos a uma das paragens obrigatórias: Bac Sum Pass. O custo para aceder a este espaço é 1,40€ por pessoa, mas valeu mesmo muito a pena. Por um lado, porque soube bem parar depois da primeira hora de viagem de mota pela montanha, por outro lado, porque este foi o local onde, pela primeira vez, nos deparámos com a imensidão do cenário em que estávamos.

Tivemos sorte com o tempo, estava um dia lindo de sol, sem nuvens, o que tornou a paisagem ainda mais impressionante. Muito verde a toda a volta, montanhas que não acabavam (como eu nunca tinha visto), tal como inúmeras curvas e contracurvas. Aqui avistamos, e bem, o verdadeiro loop. Tanta, mas tanta beleza natural. É comovente. O facto também de estarmos completamente sozinhos tornou este momento ainda mais especial. Este percurso é muito conhecido pelo mundo inteiro, contudo, por causa da pandemia, há ainda poucos turistas a viajar por aqui.

Ficámos aqui à volta de uma hora e seguimos depois caminho até ao hotel, onde almoçámos. Calculámos, e bem, que o cansaço físico e emocional seria algum ao fim deste primeiro dia, por isso procurámos uma opção que nos garantisse conforto nesta primeira noite. A nossa escolha foi o H'mong Village Resort.

Pareceu-nos uma boa opção pela descrição e fotografias partilhadas no Agoda, onde fizemos a reserva, mas não podíamos prever que fosse tão incrível.

Este hotel presta no fundo uma homenagem ao povo H’mong, que diz respeito à comunidade que vive sobretudo no sudoeste da China, Vietname, Laos, Tailândia, e Mianmar (trata-se de aproximadamente cinco milhões de pessoas). Não só o nome do Resort inclui a palavra H’mong, como também os bungalows são inspirados nas mochilas de verga tipicamente usadas para o transporte de mantimentos pelas pessoas desta comunidade.

O resort fica nas montanhas, por isso proporciona um cenário idílico. Dispõe ainda de vários jardins extremamente cuidados e, por isso, muito bonitos. Por cima das flores de várias cores, voam borboletas e libelinhas. A paisagem é encantadora e parece saída de um filme. Como se tudo isto não bastasse, existe ainda uma piscina exterior com vista para a montanha. A água estava gelada, mas não ousaria abdicar desta oportunidade única de nadar perante esta paisagem, por isso, mergulhei. Que sensação única.

É inevitável destacar também o conforto dos quartos, muito espaçosos e detentores da melhor vista para a montanha. O restaurante é fantástico e apresenta um menu muito variado com os pratos mais típicos da região.

Arrisco-me a dizer que esta foi a experiência de hotel mais incrível pela qual passei até hoje.

Dia 2: Quan Ba - Dong Van (87km)

O segundo dia de viagem pelo Ha Giang Loop começou com a dolorosa despedida do H’mong Village Resort, pelas 10h30. Fizemos uma paragem rápida para almoçar a meio do caminho e rumámos depois ao Palácio Vuong, uma mansão centenária, que simboliza a glória passada do povo H’mong. A pesquisa que fizemos trouxe-nos até aqui, contudo, este local pareceu-nos abandonado e, na verdade, não surpreendeu. Valeu a pena pela oportunidade de pararmos mais uma vez e, assim, de recuperarmos energia. Três horas de mota por dia em estradas como estas, não só cansam, como provocam dores no corpo, por isso, olhei sempre com bons olhos para a ideia de parar.

Uma hora de caminho depois e chegámos finalmente a Dong Van, a meta deste dia. Ficámos alojados no Hotel Hagiang-holic, onde jantámos. Este hotel, tal como todos aqueles onde ficámos nos dias seguintes, foi mais do que suficiente para a noite de descanso de que precisávamos após um dia inteiro de viagem, contudo, está longe de ser o mais confortável.

Dia 3: Dong Van - Meo Vac (71km)

O terceiro dia de viagem começou mais cedo do que os anteriores, porque tínhamos pela frente mais paragens do que nos outros dias. Às 08h30 já estávamos a caminho do primeiro local.

Segundo o Google Maps, demoraríamos aproximadamente uma hora desde o hotel onde estávamos até ao primeiro destino do dia, no entanto, acabámos por demorar mais meia hora do que o previsto. A estrada estava em muito más condições, com buracos, pedras e gravilha, e nalgumas zonas com obras a decorrer, o que inevitavelmente nos atrasou.

Um casal de irlandeses caiu de mota à nossa frente, numa curva. Acudimos de imediato e percebemos logo que não tinha sido grave. De qualquer das formas, não ganhámos para o susto, tanto nós, quanto eles. Confidenciaram-nos que estavam a fazer o percurso em três dias e que, por isso, estavam mais à pressa. Garantimos que estava tudo bem, trocámos contactos e seguimos caminho.

Chegámos finalmente à famosa bandeira-torre de Lung Cu, um monumento com trinta metros de altura, construído para marcar o ponto mais a Norte do Vietname, quase na fronteira com a China. Trata-se no fundo de uma torre que culmina na enorme bandeira do Vietname, a partir de onde é possível desfrutar de uma vista panorâmica sobre Lung Cu, zona do distrito de Dong Van, onde nos encontrávamos (custo para aceder à torre por pessoa: 0,40€).

É bonito, mas muito turístico, e estava muita gente na meia hora que aqui estivemos. A meu ver, não compensa a exigência do caminho que fizemos, nem tão pouco o tempo que acabámos por despender no processo de ir e vir.

Pelas 13h estávamos de volta ao hotel para levantarmos a mochila e seguirmos caminho até Meo Vac, a meta do dia.

Seguimos viagem sem almoçar e acabámos por não encontrar nenhum restaurante aberto no caminho. Nesta zona do país, as pesquisas online podem induzir em erro, porque muitas das informações disponíveis estão desatualizadas. Perdemos a conta aos restaurantes que guardámos no Google Maps, e que são agora, afinal, uma loja de motas ou de roupa. Nestes casos, valeu-nos o kit SOS que fomos sempre repondo ao longo da viagem, de forma a garantirmos que não faltava energia.

Fizemos algumas pausas no caminho, para recuperar o fôlego, e também para desfrutarmos da paisagem, que é das mais impressionantes de todo o percurso. Sobretudo ao longo da Mapi Leng Pass, um dos destaques do Ha Giang Loop. Esta estrada foi esculpida na montanha nos anos 60 por milhares de trabalhadores de minorias étnicas desta zona. Levou 11 anos até ficar concluída. O resultado é uma paisagem romântica e lindíssima, um verdadeiro cenário de filme.

Chegámos à meta final do dia pelas 17h, exaustos. Ficámos alojados no hostel Nha Nghi Viet Nhat, o menos confortável de toda a viagem. De qualquer forma, cumpre o requisito mais importante: proporcionar uma boa noite de sono.

Dia 4: Meo Vac - Yen Minh (48km) 

Este foi o dia mais cheio de peripécias de toda a viagem, no bom e no mau sentido. Tínhamos pela frente muitas paragens imperdíveis, por isso saímos novamente cedo. Previmos que não seria possível voltarmos ao hotel a tempo do check out, ao12H, por isso, perguntámos se seria possível entregarmos a chave do quarto pelas 14h. Foram simpáticos e não puseram qualquer problema.

Saímos às 08h30 para tomar o pequeno-almoço no café Tu Sàn, feito de bamboo, com vista para a montanha. Receberam-nos com a música Sacrifice, do Elton John, que adoro. Quando perguntei pelo menu, disseram-me que tinham apenas café. Perceberam que estávamos cheios de fome e, sem estarmos à espera, em dez minutos resolveram o assunto. Apareceram com pacotes de noodles de camarão, daqueles pré-feitos. Rendemo-nos à simpatia do senhor que nos atendeu e não hesitámos em dizer que sim.

Baterias recarregadas e lançámo-nos à estrada. Nesta fase do percurso, o rio Nho Que compõe a paisagem, tornando-a ainda mais especial. Fazermos uma viagem de barco neste desfiladeiro era o primeiro objetivo do dia. O caminho de mota até perto do rio é simples e rápido, mas chegar até à margem implica fazer um trekking bastante íngreme. É desafiante a descer e ainda mais a subir, mas vale muito a pena. Alugámos um barco só para nós (preço por pessoa: 11,50 €) e o guia levou-nos a passear durante 45 minutos. A montanha envolve o rio, por isso a paisagem é incrivelmente bonita e muito diferente daquilo a que por norma tenho acesso. Impossível esquecer esta experiência de fusão absoluta com a natureza.

Tal como prevíamos, às 14h estávamos de volta ao hotel para levantarmos a bagagem. Almoçámos depois disso e às 15h30 estávamos prontos para seguir caminho até ao último destino do dia: Du Gia. A previsão era que a viagem durasse duas horas e meia. Contudo, deparámo-nos com obras logo no início do caminho, que nos atrasaram logo à partida.

Passámos esta zona e estava a correr tudo bem, até termos ficado sem rede. O Google Maps não funcionava, nem no meu telefone, nem no do Nuno. Fomos seguindo caminho um pouco por intuição, sempre à procura de ajuda por parte de quem passava por nós. O problema é que quase ninguém fala inglês nesta zona do Vietname, ou seja, os nossos pedidos de ajuda não eram ouvidos.

Passou finalmente por nós um grupo de vietnamitas que falava inglês, e que nos disse que nos dirigíamos para um estrada cortada temporariamente. Sugeriram que os seguíssemos, pois conheciam o caminho alternativo. Recomendaram que abdicássemos da ideia de viajar até Du Gia, já que nos sobrava apenas uma hora de sol, e o caminho até lá demoraria, no mínimo, mais duas horas. Deixaram bem claro que não é de todo recomendável viajar na montanha durante a noite, pelo facto de não haver qualquer iluminação. Estávamos, portanto, em contra-relógio.

Foi exigente esta viagem atrás destes nossos companheiros de última hora, que conduziam em motas bem mais robustas do que a nossa e, portanto, a uma velocidade que acompanhámos com receio e dificuldade. Durante grande parte do caminho, a estrada não tinha qualquer proteção, o que tornou a viagem mais desconfortável ainda. Eu tenho vertigens, por isso às tantas desisti simplesmente de olhar para esse lado da estrada. Estávamos perante o maior desafio de todo o percurso, eu só pensava mesmo em chegar. Tive muito medo, mas com a chegada do pôr-do-sol deslumbrei-me e percebi que aquele estava afinal muito longe de ser um dia mau.

Termos tido a oportunidade de contemplar o pôr-do-sol nas montanhas, enquanto seguíamos caminho de mota, foi uma experiência inesquecível, que muito dificilmente voltará a proporcionar-se. O céu todo cor-de-laranja, a refletir no rio, bem como o delineado das montanhas, deu origem a uma paisagem belíssima, que guardo na gaveta das minhas melhores memórias.

Chegámos a Yen Minh já ao anoitecer. Parámos junto a uma banca de rua, onde comprámos uns aperitivos e uma cerveja, que bebemos junto ao passeio em jeito de celebração pelo desafio superado. Enquanto isso, cancelámos a reserva no hotel de Du Gia e procurámos uma alternativa em Yen Minh. Fizemos uma pesquisa rápida online e num instante encontrámos uma solução, que superou as expectativas. Ficámos alojados no Milk Milk Homestay, um hostel de uma família que nos fez sentir em casa. É um local muito simples, mas tem um espaço exterior agradável, onde nos foi servido o nosso pequeno-almoço favorito: pão quente com ovo mexido, fruta e café com leite.

Dia 5: Yen Minh - Ha Giang (100km)

Os imprevistos do dia 4 fizeram com que seguíssemos caminho sem sabermos bem por onde. Resultado: desviámo-nos da rota prevista para o dia 5. Regressámos portanto ao quilómetro zero pelo caminho já feito no primeiro dia de viagem. A viagem durou pouco mais de uma hora e, na verdade, depois da intensa aventura do dia anterior, soube bem podermos seguir caminho por estradas que já conhecíamos.

É única a sensação de retomar ao quilómetro 0 após mais de 14 horas de viagem. Uma alegria tão grande, que ligámos à família em videochamada para celebrarmos juntos. Eles viajaram connosco diariamente, sempre ansiosos pela nossa mensagem a dizer que havíamos chegado ao destino do dia.

Sinto-me feliz por ter sido capaz de me expor a esta experiência, que me levou para tão longe da minha zona de conforto, a tantos níveis. A sensação à chegada é de missão cumprida e, mais importante ainda, de superação.

Esta aventura trouxe-me mais clareza sobre o sentido desta viagem e até da minha vida. Vivê-la pressupõe imprevistos, mesmo quando acho que tenho tudo sob controlo. Tenho muito a ganhar se me dispuser, pelo menos, a tentar desfrutar das surpresas por detrás dos planos aparentemente furados. Há oportunidades únicas na vida, que chegam juntamente com os imprevistos que nos acontecem, e é importante estar atento para evitar desperdiçá-las. Com toda a certeza, já cometi esse erro várias vezes ao longo da minha vida, mas não agora. Sinto-me feliz e orgulhosa por isso.

Caso tenha alguma dúvida ou sugestão, não hesite a contactar-me por e-mail ou mesmo pelo Instagram, onde estou também a partilhar sobre esta minha aventura.

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