Doralice Goes, funcionária pública, deixou de andar e esteve um ano internada depois de consumir um molho pesto que comprou numa feira artesanal em Brasília, Brasil. O produto estava contaminado com a bactéria que causa botulismo, uma intoxicação rara e potencialmente mortal.

“Fui a uma feira artesanal a 31 de dezembro de 2021. Comprei um molho pesto de um feirante de quem já era cliente e guardei para comer depois. Na embalagem, não vi se havia prazo de validade. O vendedor não me deu orientação sobre o armazenamento, mas confiei porque era cliente frequente e deixei o molho na despensa”, começou por contar.

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“A 23 de janeiro de 2022, um domingo, coloquei o molho numa torradinha e bebi um vinho. O molho estava delicioso, com aspeto e cheiro bons. No dia seguinte, vivi normalmente. Na terça de manhã fui treinar e comecei a sentir uma fraqueza estranha, que nunca tinha sentido na vida”, continuou.

Doralice Goes contou que começou a sentir um formigueiro na mão e as pessoas não entendiam o que ela dizia, porque “a língua começou a enrolar”, pensando que estaria a ter um Acidente Vascular Cerebral (AVC). A mulher conduziu 20 quilómetros até ao hospital e, quando lá chegou, as pernas “deixaram de funcionar”.

“Levaram-me rapidamente para as urgências para fazer tomografia. Disseram que, se eu passasse mal, tinha de apertar a campainha. Durante o exame, parei de respirar. Comecei a vomitar e apertei a campainha cinco vezes. Tinha perdido todas as funções do meu corpo, menos o coração”, contou.

A bactéria atingiu o sistema nervoso de Doralice e esta ficou tetraplégica. Depois de entubada na unidade de cuidados intensivos, realizou vários exames, mas não chegavam a nenhuma conclusão. A equipa suspeitava de AVC, síndrome de Guillain Barré e até de uma reação à vacina contra a COVID-19. Foi Samir Souki, neurologista, que deu o diagnóstico final: botulismo. Depois de lhe darem um soro antibotulínico, os agentes de vigilância sanitária foram até sua casa para fazer testes nos alimentos.

O internamento não foi nada fácil para Doralice. “Dependia de um aparelho para urinar, uma sonda para me alimentar. Fiquei 9 meses no ventilador, não tinha força pulmonar. Todos achavam que estava inconsciente, mas eu ouvia tudo. Não conseguia engolir nada. Uma vez, a sonda vazou dentro de mim e tive uma infeção. Os meus rins pararam e tive de fazer dois meses de hemodiálise. Durante a estadia no hospital, contraí uma superbactéria e covid-19, mesmo antes de receber alta”, contou.

Doralice só conseguiu voltar a falar nove meses depois, quando tirou a traqueostomia, revela o "VivaBem". Em dezembro de 2022 recebeu alta hospitalar e saiu a andar lentamente com um andarilho. Atualmente, a mulher ainda tem sequelas, como ter pouca força para abrir garrafas ou dificuldade em empurrar um carrinho de supermercado. Quanto ao feirante que lhe vendeu o molho contaminado, este continuou com as vendas até ao Natal de 2022 e depois parou. A mulher quer avançar com uma acusação contra o homem.

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