O mês de janeiro não começou da melhor maneira para a restauração - e quem colocou a questão foi Rui Paula. O chef português de 58 anos aproveitou o embalo do início de 2026 para fazer um desabafo nas suas redes sociais, onde, ao entender que mais restaurantes estavam a fechar portas, decidiu expor o que se passava nos bastidores. Ao que tudo indica, os constantes aumentos em todo o setor da restauração estão a afetar seriamente os negócios, e o Boubou's, em Lisboa, não é exceção.

Boubou's. Fomos ao jardim encantado da Louise e saímos de lá a sonhar com língua de boi
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Com a quebra de procura e, consequentemente, de receitas, esta é mais uma crise que a restauração portuguesa terá de enfrentar, especialmente nestes meses de inverno onde o turismo não é tanto e onde há menos gente a querer ir jantar fora. "Não podemos aumentar sequer em mais um euro o custo da refeição, porque já é caro ir comer fora; mas, por outro lado, também não podemos seguir com esta contínua perda de rendimento, porque ela ameaça a viabilidade do negócio", notou Rui Paula.

Louise Bourrat, chef do Boubou's, é da mesma opinião, e sabia que, para enfrentar este problema, das duas uma: ou se reinventava, ou acabaria por ter de fechar as portas. Pois bem, como a cozinheira francesa não é (nem nunca foi) de cruzar os braços e deixar a situação passar, eis que foi neste momento de crise que decidiu criar menus novos. Agora, no seu restaurante há menos pratos - ou mais, mas a escolha é totalmente do consumidor -, menos álcool, menos tempo à mesa e menos gastos.

"É mais acessível em termos de preço num momento em que as pessoas não vão gastar [muito]. Financeiramente, se temos menos pratos para fazer, tenho muito para reduzir, mas faz mais sentido neste momento porque estamos a sofrer muito. Por exemplo, quando temos 20 pratos diferentes para fazer, não importa se temos 30 pessoas a jantar ou duas, temos de fazer todas as preparações na mesma, então [estes menus serviram para] encontrar uma maneira mais inteligente de reduzir", começou por explicar.

"Há muitas coisas que estão a mudar nesta indústria, não é só no consumidor, mas também na operação geral. [A questão do Rui Palma] é já desde junho de 2024. Por exemplo o peixe, em janeiro estão sempre a emendar os preços. São muitas coisas ao mesmo tempo, trabalho com pequenos fornecedores e eles têm a questão da gasolina que fica mais cara, e são eles que fazem as entregas todas, saem cedo de manhã, e estão a assumir esse gasto. Têm de aumentar os preços. São muitos custos que temos de assumir e é difícil meter isso na conta do cliente", disse.

As diferenças para os menus anteriores

A nova aposta do Boubou's para combater esta crise é então o Raízes, que é composto por dois menus: o de cinco e o de sete momentos, ao contrário dos 7 e 10 momentos que o restaurante tinha antes. Isto vem comprovar o facto que a chef constatou de que as pessoas não querem mais refeições de fine dining longas, e apesar de o restaurante ser conhecido por ser um espaço casual fine dining, "a humildade de ouvir os clientes e ajustar o rumo" levou a que o Boubou's, lá está, se tenha reinventado.

"Parece que as pessoas estão a comer menos, a beber menos, cada vez querem passar menos tempo na mesa. Eu também não sou fã do formato de quatro horas e meia na mesa com um prato de duas dentadas, e acho que as pessoas se estão a afastar cada vez mais disso porque talvez tenham a sensação de que não estão a receber o valor que estão a gastar. Acho que isso tem que ver com a quantidade e com a formalidade, a teatralização do serviço e da experiência."

Assim, o primeiro menu, com 5 momentos, tem o custo de 75€, e conta com snacks (ostra com gel de yuzu e uma tartelete de lírio), caracoletas com cuscos transmontanos (que, diga-se de passagem, foram um dos pontos altos do jantar em que a MAGG esteve presente), um momento português fora do menu com algumas variedades de pão, pasta, tamboril com raiz de aipo em várias texturas, e, por fim, uma sobremesa fresca de maçã com granizado de pepino.

Já o segundo menu, com 7 momentos, tem o custo de 95€, e conta com alguns pratos de assinatura de Louise Bourrat. Depois dos snacks e do momento português segue-se a especialidade da casa, ceviche de batata doce (uma total perdição, avisamos já), com as caracoletas logo a seguir e, depois, o quarto momento é com língua de boi com enguia fumada - um prato que remete à infância da chef francesa. A pasta é o prato seguinte, seguindo-se o tamboril e a sobremesa de maçã.

Veja os pratos.

No entanto, o Boubou's quis dar a oportunidade aos seus consumidores de se sentirem no centro da ação, e agora podem adicionar propostas aos seus menus de 5 e 7 momentos. "Temos de ver as tendências, temos de olhar para outros países. Em 2026 o consumidor quer ser o ator principal, há uma tendência de que as pessoas querem ter mais no prato. Da mesma maneira que há pessoas que querem comer menos e outras que não querem mais partilhar, há pessoas que querem voltar à comida mais tradicional e deixar o modernismo", explicou.

Dito e feito, o Boubou's abre assim os seus menus de momentos a mais pratos, portanto se quiser uma experiência mais completa, estão também à disposição a cabidela com frango recheado (para duas pessoas, acrescenta 25€), o momento de queijo do Boubou's (18€) e ainda o famoso gelado de alho negro e miso da chef Louise Bourrat (15€). E deixamos a nota: se tiver disponibilidade, aconselhamos mesmo a provar o arroz de cabidela do espaço, uma vez que é uma autêntica explosão de sabores.

Para acompanhar, o Boubou's continua com a sua harmonização de vinhos (ou de bebidas não alcoólicas), mas os copos também diminuíram: para o menu de 5 momentos estão disponíveis três copos diferentes (45€ de vinhos e 30€ de sem álcool), enquanto que para o menu de 7 são cinco bebidas (65€ de vinhos e 40€ de sem álcool). O objetivo aqui é acompanhar a tendência global de redução do consumo de álcool, pelo que assim os clientes também não precisam de se sentir fartos com um novo copo a cada novo prato.