Pode nunca ter ouvido falar da Adico, mas é menos provável que nunca se tenha sentado nas cadeiras que são o ícone desta fábrica com 100 anos de existência. Quem não sabe a história por detrás da 5008, mais conhecida como "cadeira portuguesa", diria que são simples assentos de metal que a maioria dos cafés e restaurantes gosta de comprar. Mas a verdade é que estas cadeiras são tudo menos peças vulgares e tornaram-se um símbolo nacional.

Comecemos pelo princípio. A Adico é a mais antiga fábrica de mobiliário metálico de Portugal e a segunda mais antiga da Europa. Em 1920, Adelino Dias Costa, filho de um pequeno serralheiro, era um homem com uma visão bastante moderna e com um espírito empreendedor invulgar para a época em que vivia. O fim da Primeira Guerra Mundial, a gripe pneumónica e o início dos anos 20, que resultou na valorização da convivência nas ruas e esplanadas, serviram de mote para o início de uma carreira de sucesso. "A Adico nasce da combinação disto tudo", garante Miguel Carvalho, um dos administradores da empresa.

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Pequenos móveis metálicos, camas, cofres e até lavatórios foram os primeiros artigos confecionados pela fábrica que aproveitou a época para se especializar também no mobiliário hospitalar. Já nos anos 30, os artigos para esplanadas passaram a ser o foco e foi aqui que nasceu a "cadeira portuguesa" que, além dos portugueses, passou a ser do mundo.

"Acho que um dos fatores críticos de sucesso da cadeira é, sem dúvida, a sua simplicidade. Quando algo é simples alterações estruturais não as fizemos e não fazemos", explica Miguel à MAGG, referindo que é isto que torna a cadeira especial. Ao longo dos anos, apenas foram acrescentando pequenos apontamentos como a oferta da "cadeira portuguesa" também em alumínio, e não só em metal, com acento em madeira ou até em termos de novas cores que, essas sim, se vão adaptando às modas.

Cadeira Portugesa
créditos: Divulgação

Se pensarmos na forma como o avançar dos anos fez mudar tanta coisa, percebemos o porquê desta cadeira, designada por 5008, se ter tornado um caso de estudo do design nacional e um elemento central da nossa portugalidade. "Em termos de mobiliária, e até de outras categorias de produto, não existe registo de itens que tenham tido uma longevidade tão grande e que ainda estejam com esta modernidade", afirma o empresário que garante que a "simplicidade no design, a durabilidade, resistente e conforto" são os principais fatores de sucesso.

Além disso, quem não gosta de estar bem sentado num esplanada enquanto aprecia o pôr do sol ou olha para os filhos a brincar no jardim? "Acho que a cadeira acaba por ganhar personalidade porque todos gostamos de estar numa esplanada. Há muitos fatores à volta da cadeira que são tangíveis pela própria, mas intangíveis nos sentimentos que gera", realça Miguel.

A Adico está presente em 30 países e destaca-se pelo design "falado em português"

Não é novidade para ninguém que somos pioneiros em muita coisa e a verdade é que esta cadeira é tão única que já viajou pelos mais de 30 países em que a Adico está presente. É da fábrica em Avanca, no concelho de Estarreja, que todos os anos são produzidas cerca de 100 mil unidades dos mais de 100 artigos que a Adico tem em catálogo neste momento.

Sim, porque, apesar de a "cadeira portuguesa" ser o diamante da fábrica, todos os anos, os cerca de 60 colaboradores da Adico trabalham na produção de novas peças que são uma referência no mobiliário interior e exterior.

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"Sendo nós uma empresa com 100 anos, o que fazemos com alguma regularidade é ir aos armazéns buscar produtos e móveis que produzíamos antigamente e o que o nosso gabinete de design faz é um restyling, dá-lhes modernidade e voltamos a apesentar ao mercado móveis antigos mas com um design mais atualizado", explica Miguel.

França, Espanha, Malta, Bélgica, Itália, Japão, Coreia do Sul, EUA, entre outros, são alguns dos países que todos os anos recebem os produtos únicos da Adico que, devido à notoriedade, começam a ser uma referência para outras empresas. "Há mais quatro ou cinco empresas a fazer um modelo muito semelhante ao que nós chamamos de 'cadeira portuguesa'. Vivemos bem com isso porque temos uma coisa que faz a diferença: nas costas de todas as cadeiras há uma chapinha que diz 'Adico' e isso, para nós, é a chancela da qualidade do produto. Além disso, temos uma assinatura de 100 anos que essa mais ninguém consegue ter."

Nesta empresa familiar, dirigida agora pela terceira geração, o que se procura é, acima de tudo, valorizar o que é português e é por isso que a fábrica tem vindo a apostar em designers nacionais. Além disso, em parceria com a Universidade de Engenharia e com a Universidade de Belas Artes do Porto, todos os anos há um grupo de cerca de 15 alunos que, nunca disciplina específica, trabalha em conjunto com a Adico.

"Nós privilegiamos muito esta ligação com o design português porque é algo que está eternamente numa fase embrionária, mas eu acho que cumpre a obrigação a quem materializa os produtos, que são as empresas industriais, de fazer essa alavanca e  puxar pelas tão boas competências que temos internamente", afirma Miguel. "Ajudá-los a evoluir e dar-lhes ferramentas para desenvolverem as competências que vão adquirindo na sua formação académica. O trabalho faz a diferença e nós temos também um papel nesse sentido", acrescenta.

O impacto da pandemia

Ao contrário do que aconteceu com a maioria dos negócios, Miguel Carvalho revela que o volume de vendas da Adico cresceu certa de 10% no último ano. "Felizmente não sentimos um impacto. O que sentimos foi que no setor da hotelaria houve uma retração dado que os espaços estão fechados", refere.  Devido à diversidade de produtos que têm, e pelo facto de serem bens duradouros, as pessoas continuaram a apostar na compra, talvez até mais.

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Com o confinamento, a maioria das pessoas passou também a dar mais valor à mobília que tem em casa e esse fator, refere Miguel, foi crucial para o impacto positivo nas vendas.

"Nós temos um trabalho alto sazonal. Em Portugal, a partir de janeiro até junho é o nosso pico de produção porque é quando há mais esplanadas a abrirem. O que sentimos este ano foi alguma prudência dos nossos clientes em termos do número de quantidades e dos prazos de entrega porque não sabíamos quando é que as esplanadas iam abrir. De um mês para cá, quando se começou a surgir essa  possibilidade de reabertura, sentimos uma força maior, não tanto nas encomendas, mas, na antecipação dos prazos de entrega", conta.

A partir desta segunda-feira, 5 de abril, as cadeiras portuguesas (que durante o confinamento estiveram empilhadas a um canto dos cafés e restaurantes) voltaram a encher as esplanadas e Miguel não podia estar mais contente com isso. "Nós costumamos dizer, em tom de brincadeira, que é muito difícil algum português nunca se ter sentado numa cadeira Adico. É notável e deixa-nos orgulhosos não só a questão das esplanada em Portugal, mas o facto de estarmos por esse mundo fora."

Neste momento, o objetivo da empresa é prepara-se para mais 100 anos de sucesso num mercado que se revela cada vez mais competitivo, mas onde a história e tradição ainda vão ocupando algum lugar de destaque.

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