Assim que Portugal passou do estado de emergência para uma situação de calamidade pública, algumas lojas tiveram autorização para abrir. É certo que existem diretrizes a cumprir, como o atendimento por marcação e a redução da ocupação do espaço, mas a verdade é que aconteceu uma corrida a um determinado tipo de setor: o da beleza. E até é fácil perceber porquê.

Unhas de gel ou gelinho? Tentou-se de tudo, desde limar até à acetona, mas até o melhor verniz não conseguia disfarçar os restos de produto nas unhas. Sobrancelhas? Se tal como eu, tiverem sobrancelhas dignas do Volverine, percebem a luta para tentar usar a pinça ao mínimo para não estragar o trabalho feito nos últimos anos. Buço? Nem vamos pensar na loucura que é colocar aqui uma gilete, por isso a alternativa era esperar e disfarçar com a pinça.

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E nem me façam falar das pessoas desesperadas por cortar ou pintar o cabelo, ou por ir à depilação. Tive a sorte de ter feito o melhor investimento da minha vida há uns anos quando gastei umas boas dezenas de euros em depilação a laser, não sendo a depilação uma prioridade no regresso dos espaços de beleza. E um bom corte em novembro, combinado com a redução drástica de secador e placa nos últimos tempos, faz com que também não tenha de correr para o salão.

Mas, meus amigos, quando falamos de sobrancelhas e unhas, não podia esperar mais por estes espaços abrirem. Quer dizer, podia e não podia. Porque apesar de ter ter feito a marcação assim que ouvi que já era permitido, estive quatro dias a pensar se seria realmente a decisão mais sensata. E cheia de medo. Mas no último sábado, 9 de maio, acabei mesmo por ir arranjar as mãos e as sobrancelhas, nesta era pós-confinamento. Ou novo normal, como lhe quiserem chamar. Esta foi a minha experiência.

Quando o gabinete das unhas parece a repartição de finanças

Vamos por partes. Tenho 32 anos, não estou no grupo de risco, cumpri rigorosamente o isolamento voluntário e, nos últimos quase dois meses, saí de casa duas vezes, uma para ir às vacinas com a minha filha mais nova, outra para ir ao supermercado. E quando digo que não saí de casa, não saí mesmo. Não fui ao lixo, não fui ao jardim, não fui dar uma volta ao quarteirão.

Portanto, podemos afirmar com alguma certeza que não devo estar contagiada pelo novo coronavírus (sim, posso sempre estar assintomática, é verdade). Não interagi com ninguém desde que tudo isto começou para além do meu agregado familiar, não conheço ninguém infetado, por isso estamos falados nesse aspeto.

Adiante. Condições de segurança dos espaços. Há muitos anos que arranjo as mãos no gabinete de uma amiga, a poucos minutos de minha casa, numa zona residencial e sem grandes aglomerados de pessoas. Há muito também que a minha amiga raramente atende sem ser por marcação, o que faz com que este não seja um sítio com muitas pessoas a entrar e a sair para conseguir uma marcação pontual.

Dias antes da minha marcação, recebi uma SMS a indicar as novas regras do gabinete de estética, que entre outras medidas de segurança, exige o uso de máscara pelas clientes, proíbe os acompanhantes, incluindo crianças, de forma a restringir as pessoas no espaço, e só atende uma pessoa de cada vez.

Senti-me mais segura, e admito que esta era a marcação que me causava menos ansiedade. Ao chegar ao espaço, aguardei alguns segundos para que a cliente anterior saísse e deparei-me com o novo normal. Nas mesas onde costumo arranjar as unhas estão agora dois acrílicos gigantes, com uma abertura na parte inferior para que a técnica consiga arranjar as mãos das clientes em toda a segurança.

À entrada da loja, para além de um frasco com álcool gel para desinfectar as mãos, encontrei uma pequena mesa com uma caixa onde as malas das clientes devem ser colocadas durante o serviço. À saída, podemos desinfetar o exterior das malas e as mãos, para que tudo seja feito com segurança.

Em relação à técnica, esta usa luvas, máscara e fica sempre por trás do acrílico. Nunca me senti em perigo, dado que a vi desinfectar mesa, cadeira, fornos de UV a seguir à cliente anterior a mim ter saído, e fez exatamente o mesmo quando terminou de me arranjar as mãos. Só quando tive de escolher a cor é que preferi não mexer nos testers de plástico, onde estão as cores, e mandei para o ar uma opção segura: preto.

O único ponto mais negativo é mesmo o pagamento. Não existindo multibanco neste local, os pagamentos têm de ser feitos em dinheiro. Sabendo de antemão, levei a quantia certa para evitar trocas, desinfectei novamente as mãos à saída e deixei pés marcados para a próxima semana. Quanto a este serviço, e dado que é impossível fazê-lo com um acrílico a separar técnica e cliente, é profissional usa uma viseira, para além da máscara. Nível de ansiedade a rodar o dois, numa escala de zero a 10, e muito provavelmente porque odeio estar de máscara. E, obviamente, nunca a retirei.

Se os centros comerciais estão assim com meia dúzia de lojas abertas, temo o pior quando voltarem ao funcionamento normal

A segunda parte da minha manhã de beleza já não me deixava assim tão tranquila. Ao contrário do primeiro espaço, mais pequeno e familiar, arranjo as sobrancelhas e o buço num conhecido franchise dedicado ao threading, uma técnica que usa fio de nylon para arrancar os pelos. E este gabinete é no interior de um centro comercial.

Alguns dias antes, informei-me sobre os cuidados de segurança do espaço. Tal como no primeiro caso, exige-se o uso de máscara durante quase toda a permanência no local (já lá vamos ao quase), aumentaram os intervalos das marcações de 15 minutos para 45 minutos, para não se cruzarem mais do que três clientes no máximo, e alteraram a forma como depilam as clientes.

Isto porque, e para quem não está familiarizado com este procedimento, as técnicas seguram o fio de nylon na boca, o que será tudo menos seguro nos tempos que correm. No site da marca, pode ler-se que usam agora o pescoço, o que me levantou muitas dúvidas. Será que fica bem na mesma? Não me vão arrancar meia sobrancelha? Mas arrisquei e fiz a marcação.

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Chegado o dia, estava à espera de entrar num parque de estacionamento fantasma, ou perto disso. Afinal, para além do supermercado e da farmácia, que sempre estiveram abertos, apenas o gabinete de estética e três cabeleireiros estavam a funcionar. Mas à exceção de uma das entradas do shopping, que se encontrava encerrada, e por isso com os lugares mais próximos vazios, os outros dois acessos às lojas estavam rodeados de carros, quase como se de um sábado normal se tratasse.

Não fossem as máscaras na cara das pessoas, a média luz nos corredores e as muitas lojas fechadas, diria que nada de estranho se passava. Ok, podia ser um dia fraco, mas nunca esperei encontrar tanta gente. E não, não estavam só perto das lojas abertas, havia pessoas a andar de um lado para o outro, a parar em frente a montras sem iluminação e um senhor mais velho fitava com desconfiança um dos bancos com uma fita vermelha por cima, para que não fosse usado. Toda a expressão do senhor era algo como: "Olha agora que raio, porque é que não me posso sentar?".

Fiquei surpresa, preocupada e acelerei o passo para chegar rapidamente à loja. Também aqui existe um frasco de desinfectante para as clientes à entrada, os cadeirões estão envolvidos em celofane para serem desinfetados a cada cliente, e durante a minha marcação só atenderam mais uma pessoa. No total, estávamos quatro pessoas no gabinete, entre profissionais e clientes, cada uma a ser atendida em pontas opostas.

Aqui as técnicas usam máscara e viseira, o fio de nylon por cima de uma gola alta, de forma a proteger o pescoço, mas não usam luvas. Presumo que não consigam trabalhar com luvas postas, mas vi a profissional que estava a fazer o serviço a desinfetar as mãos umas três vezes durante o meu atendimento, por isso senti-me segura.

Quando me começa a depilar as sobrancelhas, apercebo-me do problema número um. Dado que os utensílios foram banidos, as técnicas não usam a escovinha para limpar os pelos que nos vão caindo na zona dos olhos. E isto, minhas amigas, dá uma comichão desgraçada. Fiz de tudo para não coçar a cara e aguentei-me bem, abanando a cabeça à mínima oportunidade para que os pelos caíssem. Assim que a profissional terminou, passou-me para as mãos um espelho com celofane na pega, que desinfetou antes de me entregar, para eu ver o resultado. Sobrancelhas perfeitas, mesmo com o pescoço.

O drama veio a seguir: quando deu um último toque final com a tesoura, o pelo caiu-me para o olho e fui com a mão à cara automaticamente. E fiquei em pânico. Toquei no espelho. Toquei na cara. E agora? Lá percebi que tinha visto a pega do espelho ser desinfetada e respirei. Mas níveis de ansiedade ali no 10.

Adiante. Lembram-se de ter dito que a máscara era exigida durante quase toda a permanência? Pois, se quer fazer o buço, tem obviamente de a tirar. Confirmei com a profissional que me estava a atender se efetuavam esse serviço, ao que me respondeu afirmativamente, mas informou que pedem às clientes para não falarem durante todo o tempo que o buço está a ser depilado.

Tirei a máscara por trás, sem nunca tocar na parte exterior, não falei, e o buço foi feito de forma rápida. Respirei de alívio quando voltei a pôr a máscara e estava despachada. Para quem está habituada a usar este tipo de serviço, existem mais alterações ao procedimento habitual. Para além das técnicas usarem o pescoço, a massagem habitual nas têmporas não existe, sendo apenas passado um disco de algodão com o gel calmante. Bem como os acessórios partilhados, também todos os lápis e fixantes foram banidos, por isso as profissionais deixaram de maquilhar as sobrancelhas no final. Pode sempre adquirir estes produtos na loja, mas mesmo assim, elas não lhe vão fazer a aplicação. É uma medida de segurança, dado que leva o produto consigo para casa.

Neste estabelecimento pode pagar com dinheiro ou multibanco, existindo um claro apelo a que use cartão. Os terminais estão também envolvidos em celofane, desinfetados à nossa frente. Paguei por MB, desinfetei novamente as mãos e saí rapidamente em direção ao carro. É verdade que todos os procedimentos de segurança foram cumpridos, e senti-me tranquila dentro do possível, mas enervou-me a quantidade de pessoas nos corredores para um shopping a funcionar a 20%, no máximo. Se isto está assim agora, o que é que vai acontecer quando as lojas abrirem todas? ME-DO.

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