O mundo da beleza está a ser tomado de assalto por uma polémica (na verdade, duas) e tudo por causa de um simples spray fixador. Lily Costa Marques, maquilhadora e fundadora da marca Guilty Beauty, está a ser alvo de uma onda de críticas depois de vários utilizadores nas redes sociais compararem o Bulletproof Makeup Spray, o fixador da sua marca, com outros produtos que prometem as mesmas maravilhas e, ao que tudo indica, têm fórmulas iguais.
Há, pelo menos, duas alternativas que têm circulado pelas redes sociais. É o caso do Professional Makeup Fixing Spray da marca polaca Hean, que custa 6,99€, e o Fixing Spray da insígnia alemã Kryolan, que custa 20,60€ e que a marca da própria maquilhadora comercializa. À primeira vista, a acusação que está a ser feita à influenciadora passa pelo facto de os três parecem ter a mesma fórmula, mas preços altamente diferentes.
Efetivamente, uma análise rápida às listas de ingredientes explica o motivo da suspeita. O fixador da Hean contém "Alcohol Denat., Butane, Propane, Isobutane, Acrylates Octylacrylamide Copolymer, Isopropyl Myristate, Diisopropyl Adipate e Parfum". O da Kryolan tem uma lista quase igual, apenas acrescentando Aqua (Water) e Benzoic Acid. Já o da Guilty Beauty, que custa 20€ por 150ml, apresenta exatamente a mesma composição que o da Hean, com ligeiras variações na grafia de alguns compostos.
Foi devido às fórmulas praticamente idênticas que os consumidores começaram a questionar a transparência da marca portuguesa. E foi nesse contexto que Lily Costa Marques decidiu esclarecer tudo, esta quinta-feira, 23 de outubro, num vídeo de quase 15 minutos publicado no Instagram. E garantiu que não há qualquer engano ou tentativa de disfarçar a origem do produto. Até porque esta é uma prática comum no mercado.
Como surgiu a ideia do fixador?
"Veio à baila o tema dos nossos fixadores, e sinceramente, isso para nós nem é um problema", começou por dizer Lily Costa Marques, aborrecida com o volume de críticas, mas claramente pronta a chegar à raiz da questão. "Muitas pessoas estão a acusar-nos de falta de transparência, mas nós não estamos a enganar ninguém. Estamos a tentar ajudar as pessoas", continuou, ao lado do marido, Emanuel.
Segundo contou, o fixador da Kryolan, um dos mais usados por maquilhadores profissionais, começou a estar frequentemente esgotado. "Nós vendíamos Kryolan e reparamos que nem o distribuidor oficial, nem a própria fábrica, conseguiam dar resposta à quantidade de fixadores que vendíamos", admitiu, dizendo ainda que isso afetava as vendas dos outros produtos da marca. Isto é, sem o fixador em stock, os clientes não se sentiam tentados a explorar a restante oferta da Guilty Beauty.
Foi nesse contexto que a maquilhadora decidiu avançar para um produto próprio, de forma a resolver um problema e criar uma alternativa nacional. Para o efeito, precisava de encontrar um fornecedor que conseguisse replicar a performance do fixador da Kryolan, mas, de forma a resolver outro problema com o qual se debatia frequentemente, com aroma. “Eu queria um fixador que cheirasse bem. Falei com o Emanuel e disse: 'não, eu vou esperar por este fornecedor porque quero um fixador com cheiro'", continuou.
A fundadora lembra que o processo de criação não foi fácil ou barato. Este passou por várias viagens "a muitas feiras" e, claro, gastos de "milhares de euros à procura de fornecedores", contou. “Quando mandámos produzir os nossos fixadores, ficámos com 100 euros na conta da empresa", disse ainda. Foi então que, em 2023, a Guilty iniciou então o seu processo Private Label.
Trocando por miúdos, este é um modelo de produção muito comum na indústria, em que as marcas trabalham com fornecedores que já têm fórmulas desenvolvidas e as adaptam à sua identidade, criando versões Private Label. Segundo Lily Costa Marques, a Guilty ficou com uma espécie de exclusividade dessa fórmula no mercado português, que se distinguiu pelo aroma a caramelo nougat.
Até que, pouco tempo depois, houve uma reviravolta completa naquilo que a dupla deu como garantido. Lily Costa Marques e o marido dizem que, em 2025, o fornecedor alterou unilateralmente o estatuto da fórmula, passando-a para White Label, o que significa que passou a ser uma fórmula genérica, possível de ser utilizada por outras marcas. "Nós nunca acordámos isso, nem fomos avisados", garantiram.
Na prática, isso significa que outras marcas podem agora vender o mesmo produto, apenas com um rótulo diferente. "É basicamente o mesmo produto com autocolante diferente em cima", confirmou a maquilhadora. “Mas nós nunca censurámos nada, nem andámos a colar etiquetas para esconder o fornecedor. Vendemos milhares de fixadores por mês, acham mesmo que tínhamos tempo para isso?", questionou.
A influenciadora e o marido continuaram a rebater quem sugeria que a marca tentava esconder a origem do produto. “Por lei, somos obrigados a colocar o nome ou o trademark do fabricante na embalagem, porque é um produto inflamável e sujeito a regulamentação específica", explicaram, lembrando que a legislação europeia obriga a identificar o fabricante em todos os cosméticos e aerossóis. A medida existe por motivos de segurança.
A par disso, o casal fez questão de lembrar que a maioria das marcas cosméticas trabalha em regime de Private Label. “Noventa por cento do mercado, no mundo inteiro, é Private Label", garantiu Emanuel. "Tenho contactos de quem faz para a Louis Vuitton, para a Dior, para a Chanel — todos trabalham assim. Só a L’Oréal tem fábricas próprias", continuou.
O custo da transparência
Um dos pontos mais polémicos do debate foi o preço. Afinal, por que razão custa o fixador da Guilty 20€ se há versões idênticas com preços mais convidativos? O marido da influenciadora também respondeu sem rodeios, dizendo que "comparar uma marca que gasta zero euros" em marketing (de influência ou outro género) com uma marca que investe em comunicação "não faz sentido".
Emanuel explicou ainda que manter produtos em stock é sempre um risco financeiro. "Eu vendo mil ou dois mil unidades [de um produto]. De repente, sai uma notificação do Parlamento Europeu. O ingrediente X foi considerado altamente cancerígeno. E como tal, este produto tem de sair imediato do mercado", acrescentou, dizendo que há que haver sempre essa salvaguarda e que, por isso, no caso da Guilty, o fixador não pode ser vendido a "5€ ou 6€".
Outro ponto que o casal mencionou foi as alegações cosméticas e o facto de a embalagem conter pouca informação sobre o produto (ou seja, aquilo que é prometido pela marca no que diz respeito à utilização do cosmético). Isto acontece porque é algo dispendioso e que exige testes, para garantir a veracidade daquilo que é dito, sendo que um produto não pode alegar algo sem ter uma base científica que o sustente.
"Há muitos produtos no mercado que têm alegações escritas de 'caracacá', que são martelagens, não foram imprimidas, não têm suporte legal", afirma Emanuel, dizendo, por outras palavras, que o fixador só promete o que, efetivamente, entrega. E é por isso que as alegações são simples – a começar pelo nome, Bulletproof, que garante que a maquilhagem não sai do sítio o dia todo (e basta um scroll rápido nas redes sociais para perceber que é precisamente aí que reside a obsessão por este produto).
Além disso, para Lily Costa Marques, o valor final reflete muito mais do que o conteúdo da lata. Inclui o trabalho de uma equipa inteira e a sustentabilidade da marca. "Portanto, o nosso fixador não é absolutamente nenhum roubo", afiançou, dizendo ainda que, no que ao consumidor diz respeito, se trata de liberdade de escolha. "Se vocês conhecem outro fixador que faz as mesmas funções, ou é igual ou parecido, são livres de o comprar", rematou.
Esta polémica surge no mesmo dia em que Inês Mocho fez um vídeo a dizer que foi traída pelo seu braço direito dos projetos que criou, nomeadamente a Mocho Academy, cujo projeto terá sido levado para outra empresa pelo mesmo, que o terá copiado na íntegra. Lily Costa Marques, que também se prepara para abrir uma academia de maquilhagem, pronunciou-se em relação ao assunto e explicou que a história desta tinha bastantes incongruências.