Ser "uma pessoa que acha sempre que vai falhar a alguém com alguma coisa" é uma preocupação que pesa, consideravelmente, na vida de Nuno Markl.

O criador da rubrica "O Homem Que Mordeu o Cão" das manhãs da Rádio Comercial foi o primeiro convidado da segunda temporada de "Reset", o podcast de Mariana Cabral, mais conhecida como Bumba Na Fofinha. Numa conversa informal, Nuno Markl contou que a sensação constante de estar em falta com alguém, por estar num determinado sítio e não noutro, deixa-o nervoso e é um dos tópicos que aborda durante as suas consultas de terapia.

"Carrego uma espécie de culpa em cima constante (...) Já aconteceu eu estar a fazer um trabalho num dia em que era suposto eu ir buscar o meu filho à escola. Isto é daquelas coisas que vão formando uma culpa tremenda."

Nuno Markl confessou que vive numa inquietação por carregar certas culpas — ainda que não lhe sejam cobradas — nomeadamente por não ser o melhor dos pais, o melhor dos namorados ou o melhor dos filhos. O humorista explicou que, por já ter passado por momentos em que o seu universo se apoderou de si (particularmente após as separações), hoje em dia cria uma pressão em si próprio para estar atento aos que lhe são queridos.

Questionado por Mariana Cabral sobre se esse sentimento é o que gostaria de mudar na sua vida, mas ainda não conseguiu, o animador consentiu e ressalvou: "Fruir de todos os momentos sem pensar que estou a falhar com alguém e, de facto, tentar, obviamente, não falhar".

Com 50 anos completados em julho deste ano, Nuno Markl sente-se vítima da famosa "crise de meia idade". "É a angústia de começar a ver que tenho demasiadas ideias e vontade de fazer coisas que não vou ter tempo de para fazer", conta, explicando que tem mais projetos na cabeça do que anos de vida para os concretizar.

"["O Homem Que Mordeu o Cão"] é uma presença tão bíblica na minha vida que, de certa maneira, me engoliu"

Apesar de já ter passado pelo guionismo e pela televisão, a rubrica "O Homem Que Mordeu o Cão", que integra a programação da Rádio Comercial há mais de 20 anos, é um marco na carreira de Nuno Markl, o seu criador. "É uma presença tão bíblica na minha vida que, de certa maneira, me engoliu."

O humorista confessou que, por vezes, não consegue explorar outras áreas por ser associado à personagem. "Incrivelmente e passados estes anos todos, ainda há malta que olha para mim e diz: 'é O Homem Que Mordeu o Cão e não queremos mais nada dele se não isso'". Consciente de que tem que aprender a estar mais em paz com essa associação, sente que lhe falta conquistar essa separação.

Durante a conversa, Nuno Markl recordou uma fase da sua vida, há cerca de dois ou três anos, na qual sentiu dificuldade em distinguir a sua personalidade real daquela que cria ao assumir a personagem. "De repente percebi: 'espera aí, eu se calhar estou-me a transformar só nisto'. A partir do momento em que me acontece uma coisa e a minha primeira tentação é 'ok, isto vai dar um bom texto na rádio'. E, de repente, começo a ver que as pessoas na minha família sabiam de coisas via rádio, porque eu já não falava com elas, para mim tudo era material de comédia, já não havia material de vida."

"Comecei a mergulhar numa tristeza profundíssima, foi uma coisa mesmo terrível", explicou o animador, acrescentando que os momentos sozinho, a pensar na vida, eram os mais complicados. "As noites e as manhãs de fim de semana, às vezes, quando não estava com o meu filho, eram muito duras, porque era o tempo em que estava a pensar naquele beco em que estava e do qual parecia que só conseguia sair através do trabalho."

Durante essa fase, houve momentos em que o trabalho se sobrepôs à família. "Algum peso dessa tristeza vinha de situações como, a dada altura, dar tanta atenção ao trabalho que, de repente, as pessoas que deviam estar próximas de mim, estão meio alienadas e, de repente, estou a trocar impressões com estranhos que acompanham a minha obra do que com as pessoas que fazem parte da minha vida."

Nuno Markl, na altura, acreditava que conseguia fazer terapia a si próprio, refugiando-se na comédia e no trabalho. Hoje, não tem dúvidas: "Só estava a cavar um buraco mais e mais fundo." Aconselhado por Vasco Palmeirim, que diz ser um dos amigos "muito atentos", procurou ajuda e começou a fazer terapia.

"A maioria das coisas que eu fiz na vida foram 'flops' "

Entre as propostas que, ao longo da carreira, fez e lhe foram negadas, Nuno Markl mencionou um filme que tenta vender há alguns anos e contou que adorava ter oportunidade de escrever mais guiões de ficção.

Apesar de considerar que a maioria dos projetos em que participou foram "flops", mostrou-se orgulhoso e contou que, apesar da constante inquietação por querer fazer mais coisas, tem aprendido que o importante não é chegar a um grande número de pessoas, mas, sim, às pessoas certas.

Recordando alguns trabalhos, Nuno Markl mencionou "Paraíso Filmes", que diz ter sido um "fiasco" a nível de audiências, mas do qual sente orgulho."Muito poucas coisas nas quais eu trabalhei para televisão tiveram audiências por aí além. Isto é incrível. No entanto, são tudo coisas de que me orgulho e que tiveram assim alguma importância para as pessoas", explica o animador de rádio.

Já sobre a sua estreia como apresentador de televisão, em "Sem Filtro", garantiu que não se orgulha e confessou, até, alguma vergonha. Por outro lado, "5 para a Meia-Noite" foi o programa que o fez sentir-se mais "em casa".

Enquanto humorista, considera que os eventos de empresas são os piores, uma vez que o público nem sempre reage após o abrir da cortina e as histórias que costumam resultar bem nos outros espetáculos, nesse momento, não costumam fazer rir.

"Reset" é o podcast "só sobre fracasso", conduzido por Mariana Cabral, conhecida por Bumba na Fofinha nas plataformas digitais.A segunda temporada estreou este domingo, 17 de outubro e Nuno Markl foi o primeiro convidado.

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