Feito em Portugal, por portugueses, para o mundo. É assim o conceito do primeiro musical online interactivo, alojado na plataforma Airbnb: o cLock Down. Sendo único no mundo, não há antecedentes de como se faz, o que é que o público quer ver, ou de como é que vai reagir. Mas Pedro Pico sabia bem aquilo que queria criar — um espaço onde os convidados vibrassem com a história do início ao fim, mas no qual pudessem também entrar, interagindo à distância com os atores.

"Os atores e personagens estão no estúdio que construímos para este musical interactivo, com todos os cenários de cada cena à sua volta. Os nossos convidados estão no conforto das suas casas, sozinhos, em família ou com amigos, a assistir nas suas televisões, computadores ou tablets", explica Pedro, anfitrião desta experiência, à MAGG.

Alguns já estão familiarizados com Pedro Pico, embora nem todos o conheçam por este nome. "Sou mais conhecido pela minha drag persona, a avó Teresa al Dente", diz. Também pode ser reconhecido pelas experiências Drag Taste, criadas em junho do ano passado, ou pela popular experiência online na Airbnb Sangria e Segredos com Drag Queens, organizada por Pedro e pelas suas seis companheiras, e que arrecadou mais de 88 mil euros num mês. Depois do sucesso deste evento, Pedro não quis ficar por ali. A 3 de abril, nasceu a ideia do musical interativo.

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Com Pedro nesta aventura está Babaya Samambaia, Pedro Simões e Henrique Feist, que escrevem a história de Teresa, a personagem que dá vida ao musical. Este conta a história de como uma rapariga, há muitos anos, conseguiu vencer a sua quarentena (lockdown) no reino de relógios mágico onde vivia, na Tic Toc Town.

A estes quatro nomes, juntaram-se mais de 50, como a apresentadora Filomena Cautela. "É uma mulher muito especial, uma grande amiga minha e alguém que admiro muito. E não lhe podia ter dado um outro papel que não fosse o da rainha, porque ela assim o é", diz o anfitrião.

Filomena Cautela
Filomena Cautela créditos: divulgação

Para perceber cada detalhe do musical inovador, a MAGG esteve à conversa com o anfitrião, que promete fazer com que os participantes se levantem do sofá e vivam a história. A experiência tem um valor de 35€ por pessoa.

Qual é a sensação de criar um musical do zero e que trabalho é que isso acarreta?
Para mim, pessoalmente, foi fisicamente devastador, cheguei a estar mais de três dias acordado e muitas pessoas da equipa estiveram perto desses números. Mas a sensação é talvez a melhor que tive desde que nasci. Sempre fui apaixonado por cinema, teatro e musicais, sou um fã incondicional de quase tudo o que a Disney faz, por exemplo. E aqui em Portugal temos uma qualidade soberba no ramo da Arte e da Cultura. Agora, criar um musical do zero foi talvez o maior desafio que tive desde sempre. Em primeiro lugar, porque não é um musical como os outros: é online, é em directo, e é interactivo. Estes três factores complicam muito o processo, não desenhei um musical num palco comum, para um um público sentado à nossa frente. É um estilo de palco que não poderíamos copiar e é um conceito de musical que foi inventado. No entanto, todos os outros componentes de um musical foram integrados no nosso. O processo que tive em desenvolver o conceito por si só foi interessante, mas criar uma história relacionada com a quarentena, enquanto a estávamos a viver foi difícil, mas ótimo ao mesmo tempo.

Como foi planear tudo à distância?
Cada sessão com a Babaya e o Pedro Simões, tinha 10, 14, e, às vezes, 20 horas seguidas, onde estávamos a debater ideias, a discutir e a rir. Enquanto o mundo estava parado, com tudo fechado, tentávamos encontrar os nossos sentimentos e emoções durante esses tempos e trazê-los para a história. Quando a acabámos, tivemos que passar para a fase dois, o guião, e aí, o mesmo só era possível com aquele que, para mim, é melhor do País — o grande Henrique Feist — não por ser meu amigo, mas porque é mesmo brilhante. Juntou-se a nós online, no início, e depois, com calma, de máscara e sempre a dois metros de nós. Foi estranha a sensação de o fazer desta forma. Quando o guião estava finalizado, todos os outros elementos do musical começaram a surgir através de amigos de amigos e conhecidos do ramo: a escrita da música, do nosso Nuno Feist, a orquestra a tocar ao vivo, os cantores, os vestidos, as perucas, os cenários todos. Ai, os cenários! Que trabalheira. Depois vieram os ensaios diários e a coisa começou a aparecer pela primeira vez à frente dos nossos olhos.

Para quem construíram este musical?
O clock Down foi escrito na sua fase inicial para crianças e famílias. Crianças a partir dos 5 anos até aos 13 adoram o musical online interactivo. Cantam, dançam, riem-se e muito mais. Mas temos tido muitos adultos a comprar bilhetes, pessoas entre dos 29 aos 75 anos, uns sozinhos, outros com família, e a grande maioria são amigos separados pela pandemia que estão em cidades ou países diferentes e cada um compra o seu bilhete, através das Experiências Online na Airbnb. Depois vêem-se uns aos outros e participam de uma forma muito divertida com as personagens da peça. No fundo, é um musical para toda a gente que goste de passar um bom momento no conforto da sua casa, para todos os que adoram arte e cultura, para todos os que adoram ir ao teatro ou mesmo ao cinema, ou ver Netflix — têm aqui algo diferente, como nunca antes feito antes.

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Até as pessoas mais acanhadas vão sentir-se tentadas a interagir?
Quando os convidados compram um bilhete, recebem uma mensagem imediata a explicar que podem escolher ser um de dois tipos de convidados. Ou escolhem ser "popcorn guests" (convidados pipoca), que são aqueles que escolhem sentar-se no sofá e desfrutar do musical sem participar nas atividades, ou se preferem ser "interactive guests" (convidados interativos), que são aqueles que vão recolher a lista de objectos, utensílios e ingredientes (que já têm em casa, na maioria das vezes), e participar em todas as atividades que fazemos com eles. Na grande maioria, as pessoas mais "acanhadas" não ligam a câmara, e assistem ao musical, sendo que umas destas acabam por ser interativas em sua casa, mas nós só sabemos quando nos dizem isso nos comentários ou por email. Mas o mais divertido é, sem sombra de dúvida, ligar a câmara e participar em tudo, ver as outras pessoas e ser visto por todos. É diferente. A sensação já foi descrita como "ser igual a ir a um musical, mas onde se pode ir para o palco".

Como é que vão interagir com o público?
De várias maneiras. Existem várias partes da história em que eu, como narrador, tenho um grande ecrã à minha frente e vejo as pessoas, falo com elas e elas falam comigo, "batemos um papo". Pergunto de onde são e aí reparo que temos japoneses, americanos, muitos portugueses, canadianos, ingleses, espanhóis e a lista já passou os 50 países. Mas as conversas que temos são simplesmente a base da interação, porque depois vêm os jogos, conforme a história se desenrola. Desde fazerem lutas de almofadas, a terem que desenhar o que as personagens lhes pedem, até irem à cozinha fazer ao mesmo tempo que nós um bolo delicioso de caneca no microondas. Damos dezenas de variações de ingredientes para todos em casa e é um sonho ver todas aquelas famílias, crianças e amigos a desfrutarem do bolo de caneca enquanto veem o musical em directo. Existe uma cena, que é uma das minhas preferidas em termos de interação, que é quando o nosso mau da fita, o mago Vyraz, representando pela nossa Cher No-Billz, pede ao público para representarem emoções e fazerem caretas ou mesmo gritar com todo o ar que têm nos pulmões, para ver se consegue recrutar alguém para o plano maléfico dele.  No fim do musical, os nossos convidados levantam-se e aplaudem, tal como no teatro, e nós sentimo-nos realizados a um nível como nunca antes sentimos.

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Depois da experiência Sangria e Segredos com Drag Queens, com que sabores (e respetivos significados) descreveriam esta nova experiência?
[Risos] Para começar, seria uma Sangria sem álcool. O sabor tinha que ser champomi e sumo de uva vermelha com infusão de ursinhos goma. Quanto aos significados do mesmo, bem, o champomi representa a celebração para todas as crianças de poderem assistir a um musical como este, mesmo que em quarentena, celebram o facto de eles não poderem ir ver um palco, mas o palco é agora a casa deles. O sumo de uva é devido aos adultos também poderem adorar esta "sangria", mesmo que sem álcool, a uva está lá presente, e todas as idades vão sentir o seu sabor. Os ursinhos goma, foi devido a uma experiência que tive há uns anos com amigos, quando estávamos em casa a fazer sangria de champanhe e não tínhamos nem uma fruta. Mas tínhamos gomas de fruta, e quando as colocámos dentro da sangria começaram a libertar o sabor e as cores todas que tinham, ficou ótimo! Aqui os ursinhos de todas as cores representam a variedade de todos os artistas que participam no cLock Down. Temos uma grande variedade de etnias, de orientações sexuais, de tamanhos, de religiões, and the list goes on [e a lista continua]. Temos mais variedade neste musical do que os ursinhos goma têm cores.

Quem é a Teresa e o que é que ela nos quer dizer nestes tempos complicados?
A Teresa al Dente, de 71 anos, é a avó que nunca ninguém teve! Não só por ter mais de dois metros e 20 centímetros de altura, mas porque é um pouco desbocada e diz tudo o que pensa. Não é rude nem mal educada, é simplesmente honesta, brutalmente honesta. Sobre estes tempos, ela diz que o melhor é sorrir, é pensar nos bons tempos que aí vêm, e tentar retirar o bom que pode encontrar em tudo o que é mau. É isso que ela faz na história do cLock Down: explica-nos como encontrar felicidade na tristeza, no medo e na raiva através de técnicas que todos podem fazer em casa.

Que artistas idealizaram de imediato para o musical? Havia algum critério?
Não idealizámos, era a equipa do Drag Taste que tínhamos disponível. As Queens que estavam a trabalhar connosco a tempo inteiro foram as selecionadas de imediato. Depois, com o tempo, fomos integrando outros artistas, uns porque nos faziam sentido e outros porque já tinham trabalhado ou eram amigos. Mas no fim do dia, reparámos que tínhamos a equipa de sonho, e não poderíamos estar mais felizes com o resultado final, nem os nossos convidados.

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Além da Filomena Cautela, que outros nomes conhecidos fazem parte do cLock Down?
São muitos. Os cantores Diogo Leite, Valter Mira, a Sissi Martins e a Mariana Pacheco. O Henrique Feist e o Nuno Feist, e todos os músicos na orquestra, bem como as Drag Queens que fazem as personagens em palco. Desde a Babaya Samambaia, vencedora do Miss Drag Lisboa 2019 e semifinalista do Portugal Got Talent, e muitas outras com uma qualidade fora de série. Mas na realidade não são só os nomes conhecidos que fazem a magia deste musical, é o conjunto desses, como todos os outros. A equipa que a Drag Taste formou durante esta quarentena é que vai fazer o musical conhecido.

A expetativa é de um sucesso semelhante à experiência Sangria e Segredos com Drag Queens?
Está melhor do que a Sangria e Segredos. Não estou a dizer que já vendemos os mesmos 20 mil bilhetes, mas relativamente ao tempo de lançamento, a coisa está a ficar famosa. Nós só fazemos sessões em direto à sexta, sábado e domingo, quatro sessões em cada dia. Na Sangria fazemos dez por dia, sete vezes por semana. Mas o musical está a começar a ter adesão lá fora, aos poucos. Está a crescer com a visibilidade que nos dá a plataforma de experiências online na Airbnb e o marketing boca-a-boca das pessoas que fazem o musical é que está a trazer todos os convidados novos, não estamos a gastar dinheiro em marketing, zero. Estamos a projetar ter todas sessões esgotadas perto de setembro. Ontem tivemos a primeira escola a comprar mais de 300 bilhetes para os seus alunos, e vimos que existe aí um mercado interessante. Bem como já tivemos centenas de trabalhadores da Google, Yahoo, Motorola, e outras empresas mundiais na aula da Sangria como uma atividade de Team Building, e o mesmo querem fazer com o musical cLock Down. E nós estamos prontos para modificar um pouco algumas situações da história para fazer estas sessões especiais em privado, feitas à medida.

Depois de referências na "Forbes", "The New York Times", "Vogue" e "Washington Post", o que é que falta para que este projeto atinja o seu auge?
Ter referências em Portugal. Ao mesmo tempo que ministérios da cultura, escolas públicas, televisões e mais outros países querem colocar disponível este musical único para os seus residentes, era interessante ver um Portugal, ou um Turismo de Portugal, entender o que nós construímos aqui e o que fizemos durante a nossa quarentena, depois de fecharmos as portas do Drag Taste e de nos termos reinventado da forma que o fizemos. Mas estamos muito felizes com o que o projeto já atingiu, e com o que está aparecer.

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