Carolina Torres saiu do Porto para a capital do País aos 20 anos. Aí descobriu a noite lisboeta, em especial a do Cais Sodré, que começou pelo bar Viking. O documentário da artista “Caos do Sodré” começa por contar uma das primeiras noites no Cais do Sodré, passada num sofá de veludo e com rock dos anos 80 de fundo, sem esquecer o varão do Viking.

O "Patriarcado", feminismo e masculinidade tóxica, discutidos em documentário português
O "Patriarcado", feminismo e masculinidade tóxica, discutidos em documentário português
Ver artigo

A partir desse momento, o Cais Sodré começou a ser especial para Carolina Torres. A realizadora e autora do documentário “Caos do Sodré” relembra que “o Viking era um mundo de possibilidades”.

Mas a vontade de eternizar memórias e histórias daquela zona da capital num documentário não começou aí. “A ideia surge em mais uma das noites no Cais do Sodré em que estava num bar chamado Ménage, de strip”, conta Carolina Torres à MAGG. Nesse dia, conheceu o senhor António, o dono do bar, que lhe contou um pouco da história do Cais do Sodré, onde o espírito não era igual ao que se vive agora. Antigamente, o Cais do Sodré era um lugar de prostitutas e marinheiros. A loucura já existia, mas era vivida de forma diferente da atual. 

Desde essa conversa, que a vontade de fazer acontecer o “Caos do Sodré” ficou. Mas intensificou-se com a pandemia pelo medo de perder pessoas e não ter tempo de contar as suas histórias. “Havia uma pessoa, um senhor mais velho no Viking, que eu consegui fazer rir uma vez. Aquele gajo sisudo, esse gajo deve ter vivido coisas incríveis, quando soube que ele tinha morrido, pensei que tinha mesmo de fazer isto, arranjar maneira financiar e filmar”, conta à MAGG.

Entre pré-entrevistas, pesquisas e toda a organização para criar um documentário até o “Caos do Sodré” ver a luz do dia passou cerca de um ano. O documentário disponível no Youtube desde 27 de julho conta com histórias, mensagens e experiências vividas no Cais do Sodré, desde Djs até às pessoas que iam viver o Cais para ouvir música, ou pelos consumos e o álcool. Em cada uma das histórias contadas no documentário há uma constante paixão visível no olhar de cada entrevistado.

Carolina Torres decidiu entrevistar as pessoas com quem já se tivesse divertido em noites no Cais. Alguns dos entrevistados são muito conhecidos pelos portugueses, como Gisela João, Tânia Graça, JP Simões, Tiago Bettencourt, Rui Cruz, Samuel Úria, Legendary Tigerman, Fernando Alvim. Outras caras serão conhecidas por quem já frequentou o Cais Sodré como António Costa, dono do Viking, Cais do Pirata e Ménage, Augusto, dono do Copenhaga, e Fernando, dono do Tokyo.

A autora do documentário recorda que algumas gravações foram marcadas para um domingo. Na noite de sábado cruzou-se e relembrou os amigos dos planos marcados, mas no dia seguinte grande parte não apareceu porque estava de ressaca. Entre gargalhadas, Carolina Torres relembra uma das partes do documentário, em que explicam a noite no Cais do Sodré: “podes acordar na casa de outra pessoa, vomitar na tua sanita, ou até sossegado na tua cama, mas nunca sabes onde vais acordar [depois de uma noite de Cais]”.

O documentário já conta com mais de 60 mil visualizações, e Carolina Torres partilha que o feedback tem sido muito positivo. “Nunca senti tanto amor, nem num aniversário”. “Caos do Sodré” apenas está disponível no Youtube, e Carolina Torres diz que assim há sempre mais gente a ver, porque é gratuito e há muito consumo de Youtube em Portugal.

Os pedidos para Carolina Torres contar a história de outros sítios, como a Ribeira do Porto, começam a surgir. Ainda assim, a artista diz que não pode intervir noutros lugares. “Não posso ir para um sítio contar a sua história se é um sítio onde eu não vivi e não tenho a ligação emocional como o Cais”, explica Carolina Torres.

“Acho que toda a gente tem um Cais na sua vida, aquele sítio que vai com os amigos, como em ‘Friends’”, comenta a artista, explicando que é por isso que há tanta gente a gostar do projeto. Além do fator de que a história do Cais do Sodré é mais complexa do que um sítio “onde as pessoas bebem copos".  "É um sítio que foi o reflexo de um país durantes muitas fases, desde o pós 25 de abril, às festas e aos poucos direitos das mulheres”.

O Cais do Sodré está numa fase de mudança, entre encerramentos de bares icónicos (Jamaica, Tokyo e Europa), construção de novos hotéis e um maior foco nos turistas. “O fecho dos três bares mais emblemáticos vai tornar aquilo um bocadinho mais triste, mais podre. O facto de saber que finalmente vão existir os hotéis que toda a gente já odeia, mas ainda não existem”, partilha Carolina Torres, que ainda assim está envolvida na magia do Cais do Sodré. “O importante é haver um compromisso entre as duas partes, que é teres bolinhos de bacalhau ou vinho do Porto- coisas mais tugas, mas teres também reggaeton e mojitos em determinados sítios”, conta a autora do documentário.

Ainda assim, há o reverso da moeda: “Não posso ser purista, gostava que fosse outra coisa, que houvesse mais sítios como a Collect, sítios que procuram mais cultura, a música, a diversidade. Mas acho que faz parte teres bares mais comerciais.”

A história do Cais do Sodré não está limitada às quase duas horas do documentário. Carolina Torres assume que vai existir uma segunda parte, porque tem dez horas de filmagens com histórias “inacreditáveis”.

As coisas MAGGníficas da vida!

Siga a MAGG nas redes sociais.

Não é o MAGG, é a MAGG.

Siga a MAGG nas redes sociais.

Fale connosco

Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado.