No caminho para as eleições legislativas de 30 de janeiro, João Póvoa Marinheiro moderou três frente a frente (Livre vs Chega, Chega vs CDS e Livre vs. CDS). Mas nenhum gerou tanta controvérsia como o que opôs Francisco Rodrigues dos Santos e André Ventura. O confronto entre os líderes do CDS-PP e do Chega foi cheio de trocas de acusações, frases virais e tensão. À MAGG, o jornalista da CNN Portugal recorda como foi moderar esse debate.

Aos 28 anos, João Póvoa Marinheiro é um dos mais jovens pivôs da televisão portuguesa. Mas não é um novato. Estagiou na TVI em 2014 durante seis meses, seguindo depois para uma experiência curta na Comissão Europeia. Voltou à estação de Queluz de Baixo em 2015 e é pivô desde 2017, tendo-se estreado no extinto "Diário da Manhã", o matutino do canal generalista da estação de Queluz de Baixo.

Em novembro passado, depois da transição da TVI24 para a CNN Portugal, passou a conduzir o "CNN Fim de Tarde". Paralelamente, Póvoa Marinheiro é anfitrião do podcast Globalistas, juntamente com Filipe Caetano, editor de Internacional do canal de notícias da estação de Queluz de Baixo.

Tenho de começar por lhe perguntar sobre o debate entre Francisco Rodrigues dos Santos e André Ventura. Acredito que já estivesse preparado para um frente a frente tenso, mas não tão tenso.
Foi muito desafiante. Acho que aquele debate seria muito difícil em qualquer canal. Foram dois adversários que procuraram aniquilar-se um ao outro e viriam sempre com essa postura. Do lado do CDS, mais a demarcação da direita que o separa de André Ventura. Seria um debate muito ideológico mas também muito focado no ataque pessoal. Já estava a contar com um duelo muito quente, muito tenso, muito audível. No início consegui tentar manter alguma...

...civilidade?
Civilidade no sentido de, ao menos, respeitarem-se nos tempos de intervenção. Claro que tem um desafio de fact checking muito exigente.

Que quase não se consegue fazer em tempo real, porque são 25 minutos.
Exatamente. O tempo curto também acaba por ser um fator de maior pressão nisso. A própria capacidade humana para absorver tanta informação. Mas isso também é o nosso trabalho de preparação. Mas sobretudo porque o registo seria aquele. Estariam mais interessados em confrontar-se do que em irmos ao detalhe do programa, que era para onde eu estava a tentar puxar o debate. Acho que isso foi conseguido em muitos momentos, julgo que a recta final foi um bocadinho mais quente do que o debate todo, onde, ainda assim, foi possível tentar que respeitassem o tempo de intervenção de cada um.

Debate entre Francisco Rodrigues dos Santos (CDS-PP) e André Ventura (Chega), moderado por João Póvoa Marinheiro
Debate entre Francisco Rodrigues dos Santos (CDS-PP) e André Ventura (Chega), moderado por João Póvoa Marinheiro créditos: Armanda Claro / Media Capital

Como é que se sai de um debate como aquele, sendo o moderador?
Sinceramente, encarei normalmente. Obviamente que saímos dali com picos de adrenalina, seja o moderador, seja os participantes. Procurei rever e tentar identificar os momentos mais tensos, para tentar perceber se poderia ter havido uma estratégia diferente. Mas encarei naturalmente e focado no desafio a seguir. Aquele foi o último dos três debates que tive a cargo e ia ser sempre o mais agitado.

Foi a primeira vez que moderou debates.
Debates eleitorais, sim. Se bem que, no último ano e meio, antes do desaparecimento da TVI24 para a CNN Portugal, estive num formato muito semelhante. Eu e a Carla Moita tínhamos um jornal muito focado em temas políticos, a "Noite 24", e tinha mesmo uma hora final, antes da meia-noite, que implicava a moderação de painéis, "O Dilema". Esse formato também foi um contributo muito importante para chegar à moderação do debate eleitoral, ser uma estreia nisso mas não ser uma coisa particularmente nova para mim.

O João é um dos mais jovens pivôs a moderar debates eleitorais. 
Pessoalmente, era um desafio que eu queria muito, há algum tempo. Acho que tenho vindo a ter um percurso ascendente nesse sentido, era uma coisa que eu queria fazer e fico mesmo muito feliz pela aposta. Era assim uma etapa que eu queria mesmo superar. Encaro isso com muita naturalidade. A minha preocupação é continuar a fazer bem o meu trabalho, encontrar formas de o fazer melhor e aprender com as pessoas mais experientes que estão à minha volta.

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Como foi fazer a transição do mindset TVI24 para a CNN Portugal?
Já falámos muito disto, no início, sobretudo. Eu já acompanho o trabalho da CNN há muito tempo. Desde provavelmente do meu estágio. O meu estágio foi na editorial de Internacional, portanto eu convivia muito com a CNN. Quando esta notícia chegou foi muito entusiasmante nesse sentido. A distinção da CNN é sobretudo o ritmo, o formato e a estética do jornal. Acho que essa foi uma transição muito interessante de se fazer e de se procurar fazer na realidade portuguesa, em termos da desconstrução das notícias. Aplicar um ritmo muito mais veloz. Mas isso obriga-nos a ir ao essencial. A grande mais valia é essa.

Para mim, foi um desafio adaptar a forma como estamos habituados a construir e a apresentar jornais e transformá-los para o registo CNN, nessa particularidade de desconstrução de temas, que é o que eu procuro fazer no meu próprio jornal ["CNN Fim de Tarde"]. E trazer a análise incisiva e diferenciadora que também ajuda os espectadores a olhar para os grandes temas de outra forma. É isso que eu procuro fazer.

João Póvoa Marinheiro
João Póvoa Marinheiro créditos: TVI

Depois de estagiar na TVI foi para fora.
Fui para a Comissão Europeia, onde estagiei.

E porque é que não seguiu uma carreira nessa área?
Eu cheguei à Comissão com o ritmo do estágio em televisão. Eu sempre quis ser jornalista. Imprensa, sobretudo. A televisão não era uma coisa que eu encarasse como o meu caminho. Foi uma oportunidade de estágio que surgiu, eu agarrei-a e fiquei preso. Mas a minha ideia, na universidade, era ir para os jornais, entregar a edição em cima da hora, etc, aquele idealismo de imprensa que eu admiro muito. Acabei por chegar à Comissão Europeia para um estágio profissional como assessor e representante de comunicação dos Assuntos Marítimos. E era um ritmo completamente diferente.

Não é que a experiência não tenha sido desafiante, no sentido de poder ter contactado com pessoas de diversas nacionalidades, de diversas realidades e percursos profissionais tão distintos do meu. Mas o trabalho em si, percebi logo que não era algo que eu quisesse fazer e com o qual me identificasse. Fiquei muito com o ritmo da televisão e, felizmente, abriu-se a oportunidade para eu voltar. E, desde então, tem sido uma história de paixão muito bonita.

No meio disto, o podcast Globalistas?
O podcast, neste momento, está numa pequena pausa de janeiro. Estamos a retomar, até porque o Filipe precisava também de tirar umas férias. Vamos regressar, se tudo correr bem, esta semana. Vem aí uma terceira temporada de Globalistas e vamos procurar também agitar um pouco o nosso formato, não nos distanciando do que é a nossa identidade, um registo informal de discutir assuntos sérios e temas internacionais, com a informação essencial mas também com a nossa opinião e com a forma como nós vemos o mundo. Vamos procurar trazer outros participantes, tentar criar uma rotina de convidados mais assídua.

Sente necessidade de ter um outro espaço de outro tipo de reflexão, de trabalho, como é o podcast?
A pandemia estava prestes a estalar e era uma coisa que, tanto eu como o Filipe já queríamos criar há muitos anos, porque somos consumidores de podcasts há muito tempo. E, de certa forma, é um espaço onde podemos falar sobre os temas que nos interessam pessoalmente, mesmo em termos de produtos culturais que consumimos, filmes, séries, livros, etc.

Temos mais tempo para o fazer e num registo um pouco mais informal mas não menos informado. Eu acho que também é por isso que há muitas pessoas que procuram o podcast. Porque retira formalidade à coisa mas traz facto, traz visões do mundo, traz uma leitura dos assuntos um pouco diferente. Acaba por ser um meio que me complementa muito, tendo em conta a minha rotina do dia a dia.

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