"Como é que se organiza uma volta ao mundo?". Podia ser uma pergunta nossa, mas foi Inês Saldanha Pisco, prestes a dar uma volta ao mundo em família a bordo de um veleiro, que questionou no inicio da conversa com a MAGG. As listas têm sido a sua salvação, mas nessas já nem cabe tudo o que tem para fazer, e tenta ainda encontrar a melhor forma de planear uma viagem desta dimensão. Pelo menos, durante os 365 dias, ninguém escapa a tarefas dentro do veleiro.

"Já estamos aqui a perceber como vai ser esta logística. O João é o capitão, ele manda mesmo. Quando digo 'ah, não é preciso colete', ele não brinca em serviço. É muito obcecado com a segurança", revela Inês, organizadora de eventos como profissão, mas que no veleiro vai ter o papel de mãe. Não é que até agora tenha sido, mas o papel é redobrado em alto mar. "Aqui em casa dividimos muito tarefas, mas no barco não vai ser bem assim. Como ele [João] tem de estar muito tempo no leme e a ver as coisas do barco, vou ter de assegurar os almoços e jantares e dar assistência aos miúdos", diz Inês, de 36 anos.

Com Inês e João, o marido, de 43 anos, vão embarcar os quatro filhos a partir de Lisboa, entre o final de agosto e o início de setembro, com direção, literalmente, ao mundo. Alice e Manel, os mais velhos de dez e oito anos, respetivamente, são, segundo a mãe, os que vão dar uma maior ajuda.

Isto porque Alice assume sempre uma posição muito maternal e frequentemente ajuda Inês a tomar conta dos mais novos — Francisco com cinco anos e a Teresinha com dois — e Manel é o grande ajudante do pai. "Esse puto daqui a dois meses sabe mais do que o pai. Ele sobe ao mastro, tem destreza física, e gosta. Vai ficar um puto do mar mesmo", diz a Inês.

Apesar de reconhecer que esta viagem vai marcar os filhos, Inês sabe que mais tarde pode ter consequências que qualquer mãe não quer que aconteçam. "Daqui a uns anos falo consigo e só vou dizer 'mas que merda é que eu fui fazer. Agora tenho miúdos com mente aberta, ninguém quer viver aqui, quer ir tudo para fora'", diz Inês, quer não concebe a ideia de um dia ver os filhos a voar para longe.

Do confinamento para o mundo

Inês, João, Alice, Manel,  Francisco, e Teresinha, passaram o confinamento no Estoril, em casa, "uma fase dificílima", diz Inês. No entanto, agora vão poder seguir viagem a bordo do veleiro, que embora seja uma espécie de confinamento em alto mar, a motivação é outra. "Vou estar uma semana dentro do barco a velejar, mas sei que acabada essa semana vou andar pela Nova Guiné. É um entusiasmo, uma motivação que não tem nada que ver com um confinamento em que estamos preocupados e não se sabe em que é que vai dar", refere Inês.

Apesar de ficarem sempre alojados no veleiro durante a volta ao mundo, este é apenas o meio para chegarem às ilhas e destinos desejados (de fazer inveja a quem os acompanha pelo Instagram). "É como se fosse uma autocaravana, mas num barco", diz a mãe de família, mas não descarta a hipótese de dormirem fora. Uma das alternativas é dormir, por exemplo, numa cabana na Gâmbia, um dos locais por onde vão passar, ou em qualquer lugar afastado da costa nos países onde vão parar o veleiro e onde os alojamentos são baratos. Inês fala até em alugar um carro durante essas estadias e partir à descoberta. No fundo, nem tudo se vai resumir ao veleiro.

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"O meu objetivo desta viagem é viajar. Só não fomos de avião dar a volta ao mundo porque o João tem o sonho do barco", diz. O gosto por viajar é de Inês e o gosto por veleiros é de João que faz vela desde os 18 anos e sempre teve o sonho de ter uma família grande — já cumprido — e viajar num barco pelo mundo.

Além disso, o avião teria um impacto ambiental bem mais negativo, ao passo que isso não acontece com este veleiro sustentável, que enfatiza a expressão de "dar a volta ao mundo". Tem painéis solares, uma dessalinizadora que transforma a água do mar em água potável, e vão pescar. Tudo em linha com um consumo consciente. A par da sustentabilidade, Inês quer ainda implementar um projeto social em viagem, ‘Letters of Love’ (Cartas de Amor). A ideia é que em cada comunidade a que chegam, vão com os miúdos às escolas e incentivem os alunos a escrever cartas para crianças hospitalizadas.

Porquê Wind Family?

Da simbiose destes gostos, resultou a compra do veleiro, com juros de um dia fazerem uma volta ao mundo. "Há cerca de uns 6 anos estávamos a juntar dinheiro e ainda não sabíamos bem para quê. Se seria para uma casa, por exemplo. E esta conversa [da volta ao mundo] vinha sempre. Pensávamos 'mas como é que conseguimos? Como é que deixamos de trabalhar?'", conta Inês Saldanha Pisco. Compraram então o veleiro com o dinheiro que juntaram e começaram a preparar a vida a pensar na viagem, que será suportada com rendimentos que vão conseguir ao alugar a própria casa.

Até porque nem é preciso muito dinheiro numa viagem destas. Não shoppings onde gastar dinheiro, não há supermercados para perder a cabeça e comprar uma série de guloseimas, é tudo muito e tão simples, como comprar umas frutas na rua e um peixe no porto onde o barco fica atracado.

Wind Family, como se intitulam no Instagram e no blogue, surgiu há dois anos durante um almoço destinado a decidir que nome atribuiriam ao sonho de dar a volta ao mundo, agora prestes a concretizar. Os miúdos queriam que incluísse a palavra família, "nós traumatizamos as crianças com a importância da família", brinca Inês, e a esta palavra juntaram o vento que caracteriza a aventura. "É um bocadinho como eu me sinto, acho que vai ser uma aventura assim, ao sabor do vento".

"Se disser a qualquer pessoa que fui para a Índia de mochila às costas tinha a Alice um ano e meio, a maioria das pessoas fica chocada".

Mas o espírito aventureiro já vem desde há muito tempo. "Sempre viajámos depois de ter a primeira filha. Se disser a qualquer pessoa que fui para a Índia de mochila às costas tinha a Alice um ano e meio, a maioria das pessoas fica chocada. 'Mas porquê a Índia, porque não foste para a Europa?'. Mas é assim que gostamos de viajar. Era assim que viajávamos antes dos filhos e não nos fez sentido começar a viajar de outra forma só por ter filhos", conta Inês.

Entre os genes que passam de pais para filhos, Inês e João incluíram também no ADN o bichinho das viagens aventureiras. "Os miúdos viajam há muito tempo. Vibram mais quando digo que vamos a Marrocos, do que se for à Disney. Ficam muito abertos a este género de aventuras", conta a mãe de quatro filhos.

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Contudo, apesar de andarem sempre em alto mar nesta volta ao mundo, não deixam em terra a educação. Alice e Manel, os mais velhos, vão aprendendo através do ensino doméstico, cujo processo é idêntico ao do regular: em vez de inscrever os filhos na escola em São Pedro do Estoril, como era habitual, Inês selecionou a opção de ensino doméstico e até idealiza que os filhos frequentem as escolas dos locais por onde vão passar para terem contacto com outras línguas e fazer novas amizades.

"Somos os primeiros a ter interesse, não queremos aqui nenhum miúdo analfabeto. Portanto, eu, enquanto mãe, e o João, enquanto pai, queremos é que os miúdos sejam inteligentes e temos a certeza absoluta de que isso nunca vai ficar para trás", diz, acrescentando que o facto de João ser professor de fotografia faz com que tenha uma grande noção de várias matérias.

Outro acompanhamento importante, além da educação, é a saúde, garantida por uma equipa médica com quem Inês e João vão estar sempre em contacto. Dessa fazem parte uma pediatra, duas enfermeiras, e a equipa de uma farmácia com quem Inês está sempre em contacto no WhatsApp.

A poesia que inspira a volta ao mundo

Em várias publicações, quer no Instagram, quer no blogue, Inês coloca nas descrições poemas de vários autores, incluindo o ilustre Fernando Pessoa, que diz que a inspiram.

"Essencialmente os poetas inspiram-me a acreditar que isto é possível, a acreditar que vai tudo correr bem e estou destinada a fazer isto com a minha família, porque sinto mesmo isso", refere, motivada, recordando que passou por uma primeira gravidez onde sofreu de pré eclâmpsia — que se manifesta através da elevação da pressão arterial e eliminação de proteínas na urina — e na qual lhe disseram que nunca mais poderia engravidar.

Contudo, após ter passado por mais quatro pré eclâmpsias, Inês e o marido conseguiram ter os quatro filhos que sempre quiseram, com quem vão agora viajar, prova de que tudo "é possível". "Se pusermos os medos à frente das vantagens, os medos vão sempre ganhar", remata Inês.

Mas depois de atingido o auge, a volta ao mundo, o que é que se segue? O contrário do que seria de esperar. "A seguir a esta viagem tenho muito a ideia de voltar, comprar um terreno grande e ter uma vida muito pacata com os miúdos numa quintinha", responde Inês, afirmando que não está a fugir de nada, tem uma vida fantástica, e que a própria ideia de trocar uma coisa tão segura por uma tão insegura é algo que a assusta, mas não se deixa vencer pelo medo.

"Sei lá eu se não me apaixono por Madagáscar e quero lá ficar uns anos? Não sei", diz Inês, que tem apenas a certeza de que quando os filhos estiverem crescidos quer fazer uma viagem de mochila às costas com o marido. "Não acredito que deixe de viajar depois disto", conclui.

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