A morte de George Floyd às mãos da polícia americana tem levantado uma onda de indignação por todo mundo, encabeçado pelo movimento Black Lives Matter. A par dos protestos e manifestações, várias estátuas em diferentes países têm sido alvo de vandalização — seja através de mensagens escritas com tinta, ou através dos esforços para retirá-las do local e deitar para dentro de água. Algumas figuras foram decapitadas, como é o caso do monumento em homenagem a Cristóvão Colombo, nos Estados Unidos. Há inclusivamente, estátuas sinalizadas e a serem retiradas dos locais, por serem potenciais alvos.

Esta onda chegou a Portugal na quinta-feira, 11 de junho, com a vandalização da estátua de Padre António Vieira, no Bairro Alto. O famoso autor de o "Sermão de Santo António aos Peixes" junta-se então a outras figuras, como o Rei Leopoldo II, Winston Churchill ou Edward Colston.

Mas ainda que esta onda esteja a atingir estátuas e monumentos em todo o mundo, cada um dos protagonistas tem a sua história: uns eram comerciantes de escravos, outros eram reis tiranos e outros missionários responsáveis por pregar a palavra de Deus. Mas todos viveram numa época em que o mundo era dominado por um imperialismo e colonialismo, onde se legitimava a supremacia branca e a opressão de outros povos.

Conheça as suas histórias.

Rei Leopoldo II, Bélgica

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Foi o segundo rei dos Belgas, entre 1865 e 1909, data da sua morte. É conhecido como o rei "construtor" por ter mandado edificar vários projetos públicos, como as estufas reais nos terrenos do Castelo Laeken, a Torre Japonesa, o Pavilhão Chinês, o Parc du Cinquantenaire, a estação de comboios da Antuérpia ou o Saint-Jean-Cap-Ferrat, atualmente um jardim botânico, na Riviera Francesa.

Apesar de tudo, sempre foi uma figura altamente controversa e, por isso, várias estátuas em sua homenagem foram vandalizadas na sequência da corrente de protestos do Black L ives Matter, que tem estado a atravessar vários países do mundo — no Parque do Museu de África, em Tervuren, o seu busto foi grafitado, assim como outra estátua em Bruxelas, e também em Ekeren.

Em causa está o regime colonialista e imperialista de Leopoldo na atual Republica Democrática do Congo: o homem terá acumulado uma imensa fortuna pessoal por via da exploração do marfim, diamantes e, sobretudo, borracha neste país africano, escravizando a população, submetendo-a a grande violência.

Estima-se que o homem terá reduzido a população congorsa a metade, na sequência de fome, de doenças e de cansaço. Não há números precisos de perdas de vida, sendo que as estimativas variam entre 1 e 15 milhões de mortes. O homem estabeleceu ainda metas de produção, permeadas por uma imensa crueldade: quem não as cumprir as metas de produção por ela estabelecidas em cada um dos seus distritos, via um dos seus membros amputados. Se tentasse fugir, quem sofria o castigo era a mulher ou filhos. Muitos nativos trabalharam até à morte.

Edward Colston, Bristol, Inglaterra

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Não foi a primeira vez que a estátua do inglês Edward Colston foi vandalizada: o primeiro episódio aconteceu em 1999, depois de, na University of West England, a professora Madge Dresser ter falado sobre o passado deste homem como comerciante de escravos. No dia seguinte, a figura, que se localiza em Bristol — "a cidade a que ele chamava casa", como diz a "BBC" — surgia com um grafitti em que se podia ler "comerciante de escravos". Quase 20 anos depois, retoma-se a reivindicação: a propósito do Black Lives Matter, a estátua foi atirada à água no porto de Bristol.

Edward Colston foi, efetivamente, um traficante de escravos, nascido em 1636. O homem considerado também um filantropo, era membro do parlamento inglês, tendo contribuído para a construção de vários edifícios em Bristol, desde escolas, a hospitais e igrejas — sendo, por isso, homenageado em várias ruas desta zona de Londres. Foi também fundador de várias instituições de caridade que permanecem em funcionamento até hoje. O financiamento de todas estas infraestruturas terá sido possível pelo seu papel na exploração de escravos, a sua maior fonte de riqueza. O homem terá integrado em 1680 o Royal African Company, uma corporação britânica que se focava sobretudo no comércio transatlântico de escravos africanos, explorando também recursos naturais deste continente, como ouro, prata e marfim.

Durante o seu envolvimento com esta corporação, estima-se que tenha transportado cerca de 84 mil pessoas africanas — homens, mulheres, crianças — de África para a América, estimando-se que 19 mil tenham morrido devido às condições dos navios em que viajavam.

Estátuas de Cristovão Colombo, Estados Unidos 

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A figura italiana associada à "descoberta" da América, através da chegada às Bahamas, em 1492, já vinha a ser questionada há alguns anos, tanto que, em 2017, a comemoração do "Columbus Day" era posta em causa porque, afinal, este homem terá sido também responsável pelo alegado genocídio da comunidade indígena que habitava este país pela altura em que os europeus lá chegaram. Por isso, começou-se a substituir este homenagem por outra: ao invés de se celebrar o navegador genovês, celebram-se a vida das pessoas que sofreram com a sua chegada, decisão que foi votada a favor em 20 cidades americanas.

Cristovão Colombo viveu de 1451 a 1506 e foi o navegador responsável por liderar a frota que levou a Europa à América, a mando dos reis católicos de Espanha, em 1492. Esta chegada terá aberto as portas à colonização do território pelos Europeus, nos séculos seguintes e terá impulsionado o comércio atlântico de escravos.

Vários historiadores já vieram dizer que esta figura terá incitado a repressão cultural e genocídio dos povos indígenas. Um documento descoberto por Isabel Aguirre, em Espanha, em 2006, e referente a 1500, descreve o homem como um tirano.

Com 46 páginas, este registo inclui 23 testemunhos que foram utilizados como prova no julgamento que, nesta data, terá motivado o regresso do navegador e de dois irmãos à península, na condição de prisioneiros. Em causa estaria a aplicação de castigos cruéis tanto em nativos como em colonos. Foi considerado o "mais importante texto sobre as colónia encontrado nos últimos cem anos", disse a historiadora Consuelo Varela, do Conselho Superior de Investigações Científicas, citada pela "RTP".

Por simbolizar o colonialismo, o imperialismo e a repressão, várias estátuas do navegador foram vandalizadas: no estado de Virginia, nos Estados Unidos, foi atirada a um lago, em Richmond; e em Boston, no estado de Massachussets, foi decapitada,

Robert Milligan, Londres, Reino Unido

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Robert Milligan foi um comerciante de escravos: era "dono" de 526 pessoas nas duas plantações que tinha na Jamaica, até ter morrido, em 1809, com 63 anos. Este negócio já estava no seio familiar do homem, antes de este ter nascido: a sua família era dona de barcos de escravos, de uma plantação de açúcar na mesma ilha e fez fortuna com este comércio de 1807 e 1833, até à data da abolição da escravatura. Robert Milligan foi a figura que chefiou a construção das Docas das Índias Ocidentais, cujo objetivo passava por estabelecer o monopólio da importação de Londres de produtos como açúcar, rum e café, fruto do trabalho de escravos.

A sua estátua no Museum of London Docklands, cujas zonas envolventes incluem edifícios e ruas construídas com os lucros da escravatura. A estátua foi retirada do local, após uma petição, com o museu a reconhecer o seu simbolismo, a 9 de junho. "O Museu de Londres reconhece que o monumento é parte de um problema em curso na história sobre uma lavagem branca que ignora a dor de todos os que ainda estão a lidar com os remanescentes dos crimes que Milligan cometeu contra a humanidade."

Winston Churchill, Londres e Praga

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créditos: Tim Buss 2014timnbuss@gmail.com

É uma das figuras mais importantes do Reino Unido. O antigo primeiro-ministro inglês é considerado um herói pela sua atuação na Segunda Guerra Mundial, a sua resistência ao regime nazi de Hitler, um grande estratega político que foi capaz de antever os acontecimentos que acabariam por assombrar o mundo nos anos seguintes — mais concretamente, pelo discurso em que usou a famosa expressão Cortina de Ferro, que veio a revelar-se uma metáfora para descrever a Guerra Fria, que pôs os Estados Unidos e a Rússia de lados opostos, a competirem e a exercerem influência sobre o resto do mundo, durante décadas.

Apesar de tudo, Winston Churchill era também defensor do imperialismo inglês e da supremacia branca, de acordo com o que vários historiadores já vieram dizer. Considerava que este domínio era positivo par as raças que descrevia como "primitivas", tendo feito declarações controversas sobre índios de vários países, aborígenes australianos e ainda indianos.

Henry A. Wallace, vice-presidente dos Estados Unidos na gestão do presidente Franklin D. Roosevelt, escreveu no seu diário: "Ele [Churchill] questionou os motivos por que deveria pedir desculpa pela superioridade anglo-saxónica, disse que éramos superiores, que tínhamos a herança comum que tinha sido trabalhada ao longo de séculos em Inglaterra e aperfeiçoada na nossa [americana] constituição."

Churchill "realmente não considerava que os negros fossem tão capazes ou tão eficientes quanto os brancos", diz um artigo do "New York Times" dedicado ao antigo primeiro-ministro inglês.

Por isto, a estátua de Winston Churchill, no Parliment Square, foi vandalizada: com uma lata de tinta spray escreveram "ele era um racista". Entretanto, a estátua teve de ser protegida para evitar novos atos de vandalismo. Também em Praga, na Republica Checa, a estátua que homenageia o político inglês foi vítima de vandalismo.

Padre António Vieira, Lisboa

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Na quinta-feira, 11 de junho, foi a vez de a estátua de Padre António Viera, localizada no Largo da Trindade Coelho, no Bairro Alto, ser vandalizada, com a palavra "descolonização" escrita na base do monumento, a cara da figura pintada a vermelho e com corações no peito das crianças indígenas que estão à sua volta.

Padre António Vieira nasceu em 1608, em Lisboa, mas foi no Brasil que se destacou como missionário, onde pregava o cristianismo, tendo-se tornado muito famoso pelos seus sermões. Apesar de ser conhecido pela defesa dos direitos dos povos indígenas no Brasil e pela defesa dos judeus, também já várias vezes, na atualidade, o missionário, membro da Companhia de Jesus, foi acusado de apoiar e alimentar a escravidão dos povos africanos.

Esta tese está especialmente mergulhada em controvérsia, criando dois lados muito distintos na barricada: uns evidenciam o racismo através do estudo do significado contido nos seus sermões; outros, não negando estes factos, contextualizam-no, tendo em conta a época.

"O padre Antônio Vieira atribuía o comércio de escravos a um grande milagre de Nossa Senhora do Rosário porque, segundo ele, tirados da barbárie e do paganismo na África, os cativos teriam a graça de serem salvos pelo catolicismo no Brasil", escreveu Laurentino Gomes, jornalista brasileiro, autor dos três volumes do livro "Escravidão", fazendo referência a um dos seus sermões, onde está também clara a comparação dos sacrifícios dos escravos aos de Cristo:

"Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado:Imitatoribus Christi crucifixi  (...) A Paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós mal-tratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isto se compõe a vossa imitação, que, se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio."

Por outro lado, há quem condene esta tese de que Padre António Vieira era racista, pelo menos, porque a conotação atual atribuída a esta característica não existia no tempo em que ele viveu.  É o que diz João Pedro Marques, historiador e romancista, numa crónica publicada no jornal "Observador", onde defende que, apesar de o missionário ficar "arrepiado" com as desigualdades e maus tratos, acreditava que havia por detrás destas injustiças um "propósito divino oculto".

"Assim, quando Vieira explicava aos escravos negros que deviam entender e aceitar o estado de escravidão, não estava a ser hipócrita, nem a desrespeitar os valores cristãos, nem, obviamente, a ser um sádico escravista. Na verdade, e em concreto, Vieira arrepiava-se com a dureza e iniquidade do tratamento infligido aos escravos. Entristecia-se com a visão dos navios que chegavam de África carregados de centenas de negros. Revoltava-se com o contraste entre a humildade do pobre escravo africano e a soberba e opulência do seu senhor", pode ler-se no extenso texto de 2018.

"Mas esses sentimentos eram amortecidos pela convicção profunda de que essa situação, aparentemente iníqua, obedecia a um propósito divino oculto. Vieira era um homem de Seiscentos, um homem da Igreja, que vivia num mundo regido pela Vontade de Deus. Acreditava que todas as coisas tinham uma razão de ser no âmbito dessa Vontade. Acreditava firme e sinceramente na dualidade corpo/alma, e achava, à maneira de Séneca e de outros filósofos (que Vieira explicitamente cita), que o que interessava verdadeiramente era a libertação e a salvação das almas, não a dos corpos. A importância do estado de escravidão era, por isso, muito relativa. Vieira não tinha a nossa noção moderna de escravatura nem, acrescente-se, a nossa noção de liberdade."

Entretanto, a Câmara Municipal de Lisboa condenou o ato de vandalismo e procedeu à limpeza do monumento. "Todos os atos de vandalismo contra o património coletivo da cidade são inadmissíveis", escreveu no Facebook.

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