Tinha seis anos quando um dia chega a casa e vê na cozinha um saco de compras com as iniciais A.N. A mãe chamava-se Anka, por isso tudo certo, mas o N. não era a primeira letra do seu atual sobrenome. Foi aí que começaram as perguntas.

"A minha mãe respirou fundo, como quem vai começar a contar uma longa história, mas só me disse: 'Eva, tu tiveste dois pais e um deles morreu na guerra'". Eva, percebendo ali que o padrasto com quem vivia não era o seu verdadeiro pai, ouviu, reteve a informação e, a partir daí foi uma espécie de esponja para todas as histórias que a mãe foi contando ao longo dos anos.

E que histórias. É que Eva Clarke não só é uma sobrevivente do Holocausto, como já nasceu uma sobrevivente. A sua mãe deu à luz em condições inimagináveis, a bordo de um comboio que a levava para a morte certa.

Para assinalar os 75 anos sobre a libertação do último campo de concentração Nazi pelas tropas norte-americanas — o complexo de Mauthausen, um dos maiores campos de trabalho forçado —, que aconteceu a 5 de maio de 1945, a MAGG falou com Eva, mas também com Wendy Holden, a autora do livro "Os Bebés de Auschwitz", no qual conta a história de três bebés vieram à vida num ambiente no qual se respirava morte.

Como é possível dar a luz naquelas condições?

Não era, mas Anka Kauderová conseguiu o impossível.

Tinha 27 anos quando se voluntariou para seguir o marido, enviado para Auschwitz. Isto pensando que apenas seriam recolocados noutro guetto.

Mas, de repente, estava de cabelo rapado e completamente nua em frente a um grupo de soldados. Um deles aproxima-se e pergunta: "Está de esperanças, minha senhora?". Anka estava grávida, mas ainda não se notava. E, por sorte, passou no teste que os nazis faziam em caso de dúvida: apertar as mamas para ver se saía leite. Se saísse, todas essas mulheres eram imediatamente mortas.

Tal como é descrita no livro, Anka era uma mulher "de uma beleza esmagadora", fluente em alemão, francês e inglês, com noções de espanhol, italiano e russo. Adorava música clássica, tocava piano e praticava ténis e remo. Mas ali, era só mais uma das muitas mulheres a vestir trapos, a dormir sobre cimento e a comer uma "água oleosa à qual chamavam sopa", servida numa panela suja e sem talheres.

A barriga foi crescendo, escondida nas roupas sujas e largas que lhe deram no dia em que chegou. Tentou nunca desmaiar de fome para não mostrar fraqueza em frente aos guardas.

Morreu o último sobrevivente dos primeiros transportes para Auschwitz
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Sobreviveu a Auschwitz, mas daí vinha outra privação: a escravidão numa fábrica de trabalhos forçados nos arredores da cidade alemã de Dresden. A viagem até lá demorava duas noites e três dias, fechados em vagões de mercadorias com pouca comida ou água. "Estávamos dementes de sede. É inimaginável. O pior de tudo — entre a fome, o frio e a sede — é a sede. O resto é suportável", escreve Wendy no livro, citando aquilo que ouviu de Anka.

Em turnos de doze a catorze horas, intercalavam o trabalho forçado numa fábrica de peças de avião com as pequenas pausas para comer o impensável. "Água azeda e negra com um pedaço de pão de manhã e uma sopa malcheirosa com beterraba, raízes ou abóbora, que comiam no chão ou onde encontrassem um espaço (...) À noite eram-lhes servido 400 gramas de pão e café", descreve Wendy no livro.

Na primavera de 1945, os alemães começaram a recuar e a evacuar campos de concentração e de trabalho escravo. Anka, assim como outras centenas de prisioneiros, foram enfiados em comboios, desta vez de transporte de carvão, abertos e, obviamente, imundos. Não receberam comida e quase nenhuma água durante as três semanas de viagem que ainda nem sequer tinha destino. Na prática, os nazis ainda não sabiam o que fazer aos sobreviventes.

Depois destes dias de horror, a hora chegou e Anka entrou em trabalho de parto. Tentou tapar os gritos que lhe queriam sair mas, curiosamente, um guarda deu-lhe autorização. "Podes continuar a gritar", disse-lhe. E, no meio de fezes e de mulheres moribundas, Eva nasceu rapidamente, talvez pelo seu tamanho: pesava pouco mais de um quilo e "o braço dela era da grossura de um dedo mindinho". "Estava tão feliz quanto era possível. Eu era a pessoa mais feliz do mundo", relata Hanka.

Enrolou o bebé em jornal e fez do seu corpo uma incubadora para um ser a precisar de cuidados redobrados. Chegados a Mauthausen, o campo de concentração onde tudo começou, foi levada para a enfermaria, onde teve, pela primeira vez, uma noite de sono descansado.

Assim que os americanos começaram a chegar, Hanka e a bebé Eva passaram a ser um fenómeno. "Fui filmada para documentários cinematográficos. Uma mulher de 35 quilos de peso com um bebé de um quilo e meio vivo. Nunca tinham visto nada assim num lugar daqueles".

Histórias de horror

Durante muitos anos, Eva achava que tinha sido a única criança a nascer naquelas circunstâncias, mas depois conheceu Hana, que nasceu na mesa de uma fábrica onde a mãe, Priska, na altura com 31 quilos, trabalhava. E também Mark, que nasceu também num comboio a caminho de um campo de concentração, no qual seguia a sua mãe, Rachel.

"Na altura em que nos encontramos, as mães deles já tinha  morrido. Então, eles viajaram até Inglaterra para conhecer a minha, que se virou para eles e disse: "Vocês são todos meus filhos", conta Eva à MAGG.

Eva, Mark e Hana, os três
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Ter uma mãe como Anka é uma herança pesada, mas Eva não se lembra de alguma vez a mãe se martirizar com o que aconteceu. "Aliás, ela nunca quis ser conhecida como 'a sobrevivente de Auschwitz', ela preferia ser reconhecida enquanto mulher, mãe, avó e até bisavó". E também nunca evitou falar sobre o tema. "Uma vez esteve um jornalista cá em casa que reparou na estante que a minha mãe tinha cheia de biografias de nazis. Perguntou-lhe o porquê de guardar esses livros e ela disse: Porque estou a tentar encontrar uma resposta para o que aconteceu", conta Eva, arrematando, "mas todos sabemos que não há uma resposta".

Morreu aos 96 anos, apenas seis meses antes de a escritora Wendy Holsen ter esbarrado com o obituário de uma mulher que tinha dado à luz num campo de concentração, mas no seu caso o bebé foi assassinado.

Esta era, aliás, uma prática comum. Josef Menguele, conhecido como "O Anjo da Morte", era perito em experiências desumanas feitas, segundo ele, em nome da ciência. Wendy relata no livro o episódio em que Josef decidiu que queria saber quanto tempo um recém nascido durava sem comer. Ordenou que os seios da mãe fossem apertados para que não desse de mamar e, durante oito dias, a mãe ardia em febre com o leite acumulado, deitada e imóvel ao pé do bebé, que definhava a cada dia. Quando estava prestes a morrer, a mãe injetou-lhe morfina dada por um médico-prisioneiro, acelerando assim a sua morte.

"As histórias que encontrei foram além do que poda imaginar", admite Wendy à MAGG, principalmente quando o assunto era Josef Menguele. "Ele era médico e, de repente, tinha ali todo o material cirúrgico disponível e centenas de pessoas que iam morrer de qualquer forma e que ele podia usar como objeto de estudo", refere. "Mas e se a guerra não tivesse acontecido? De que forma este homem iria espalhar este horror que estava dentro dele?".

São perguntas como estas para as quais Wendy não tem resposta, mas não é por isso que deixa de as procurar. "Chegamos a um ponto de viragem, no qual os últimos sobreviventes estão a morrer", lembra. Recentemente, escreveu um livro sobre a vida de Zuzana Ružicková, que sobreviveu a três campos de concentração, e que morreu cinco dias depois da entrevista. "A família disse-me que ela esperou por mim para morrer".

Manter a memória viva

Por ter sido jornalista, repórter de guerra e por ter tido um pai a lutar na guerra da Birmânia, Wendy sempre teve o tema dos conflitos como um dos seus preferidos. "Mas o meu foco sempre foi encontrar as boas histórias no meio do horror, encontrar a humanidade no meio da desumanidade", refere. Principalmente quando as protagonistas são mulheres. "A guerra foi uma coisa horrível, mas levou-as a uma transformação que não teria acontecido sem um acontecimento dessa dimensão", considera.

Mas Wendy não estava à procura de Eva. "Nunca tinha pensado que, no meio daquele horror, tinham nascido crianças e ainda mais que tinham sobrevivido", recorda.

Mas quando encontrou  a história de Eva Clarke, contactou-a imediatamente e, para surpresa de ambas, viviam a uma hora de distância, em Inglaterra. Marcaram um encontro e Wendy perguntou se lhe dava autorização para escrever a sua história. “Tenho estado à tua espera nos últimos 70 anos”, respondeu-lhe Eva.

A escritora Wendy Holsen e Eva Clarke

Desde aí, nunca mais se largaram, entre apresentações do livro ou conversas em escolas, para miúdos que ficam fascinados com a história que Eva conta sem se cansar. "Podemos ver os filmes que quisermos, ler os livros, ir a museus. Mas não há nada tão poderoso como estar sentada ao lado de uma sobrevivente do Holocausto que fala, respira, ri e também chora às vezes", garante Wendy.

Numa dessas conversas com miúdos, um deles, com 13 anos, faz a Eva a pergunta que nunca esqueceu. "Perguntou-me o que é eu diria a Hitler se tivesse a oportunidade de falar com ele", recorda. "Eu disse-lhe: 'Porquê?' e o miúdo achava que eu estava a perguntar o porquê daquela pergunta, mas não. O que eu diria a Hitler era exatamente: "Porquê?".

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