27 de setembro, 2019. Com vários concertos marcados pelo mundo, os Metallica emitem um comunicado a informar de que os espetáculos na Austrália e na Nova Zelândia não iriam acontecer. James Hetfield, o vocalista e frontman do grupo, preparava-se para entrar novamente numa clínica de reabilitação devido ao vício do álcool do qual estava sóbrio há cerca de 15 anos.

"Como muitos de vós provavelmente sabem, há muitos anos que o nosso irmão James luta contra o seu vício. Infelizmente, agora vai ter de participar num novo programa de tratamento para poder voltar a trabalhar na sua recuperação", assinaram em conjunto, pedindo desculpa aos fãs, Lars Ulrich, Kirk Hammett e Robert Trujillo, os restantes membros dos Metallica.

Mas a fragilidade de James Hetfield já era conhecida quando foi exposta, para toda a gente ver, no documentário "Some Kind of Monster", lançado em 2004, sobre um dos momentos mais conturbados da banda.

Naquela altura, Jason Newsted, o baixista que os acompanhava desde 1986 tinha decidido sair e Hetfield preparava-se para, pela primeira vez, lidar com o seu historial de alcoolismo severo entrando numa clínica de reabilitação. Nunca os Metallica estiveram tão perto de terminar como naquele momento.

E os demónios de Hetfield estão presentes nas letras de alguns dos êxitos do grupo que hoje são cantadas por milhões de fãs de todo o mundo. Mais do que catarse em forma de música, tornaram-se numa espécie de entretenimento que enche salas e estádios.

A notícia de que, 15 anos depois, o vocalista tinha sucumbido uma vez mais ao vício, mostrou-nos o que é fácil de esquecer: que os grandes também caem.

O medo de perder a família e o ponto de viragem

Antes da recaída, James Hetfield esteve no podcast de Joe Rogan, em 2016, onde falou sobre o momento em que decidiu pela primeira vez que precisava de ajuda. E a decisão, tomada em 2004 e que pôs o grupo em pausa, foi motivada pelo medo. "A possibilidade de perder a minha família assustou-me. Nunca tinha descido tão baixo na minha vida, e temia que a minha família me pudesse abandonar devido aos comportamentos que trazia para casa da minha vida em digressão."

E continua: "A minha mulher pôs-me na rua e estive, durante algum tempo, a viver por minha conta por aí. Não queria isso. Talvez muito devido à minha adolescência, em que senti que toda a minha família se tinha separado. Quando era miúdo, o meu pai abandonou-me, a minha mãe morreu e tive de viver com o meu irmão. Separá-mo-nos todos e não queria isso."

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Mas até então, James Hetfield insistia em tentar resolver o problema apenas com terapia. Só que cada vez que regressava à estrada, numa altura em que as salas de espetáculos eram demasiado pequenas para uma banda como os Metallica, os problemas regressavam.

"A certa altura, o poder tocar para milhares de pessoas deixou de ser o mais importante. Passou a ser secundário. O mais importante era, quando acabasse o concerto, saber que podíamos ir todos para um bar de strip beber cervejas e viver a vida de rock star. O álcool, as drogas e as mulheres fazem parte da fama de uma estrela de rock e isso consumiu-me."

Terá sido esse contexto, e a recusa do vocalista em assumir o problema, que conduziu a medidas estremas. E a última coisa que se relembra desse período foi de, um dia, chegar a casa e ter as malas à porta. "A minha mulher tomou a decisão certa. Mandou-me à merda e isso assustou-me bastante. Disse-me: 'Acabou-se a terapia e o falar sobre isto. Vais ter de procurar ajuda noutro lado e lidar com isto de outra forma.' E foi o que fiz."

No total, foram sete semanas de isolamento total em que James Hetfield foi confrontado com o vicio do álcool e aprendeu a aceitar-se tal como era.

"Chega a uma altura em que perdes noção daquilo que és e do que é suposto fazeres enquanto pessoa", e por isso teve tempo para pensar na família, na carreira e nas perspectivas de futuro.

Segundo explicou na mesma entrevista, uma das sessões de terapia já em reabilitação focou-se na idealização de uma pessoa bondosa e com bom fundo, "tal como qualquer pessoa o é quando nasce". Depois disso, conta, "foi tentar encontrar novamente esse lado positivo e reconstruir aquilo" que foi perdendo ao longo do caminho.

A nova normalidade e a recaída

O regresso à normalidade foi positivo. A partir de 2004, a banda reinventou-se, voltou aos discos e às longas digressões pelo mundo. E James Hetfield parecia, desde então, estar a aguentar a exigências físicas e psicológicas de fazer parte de um grupo cujo nome já era uma marca — que, como todas as outras, tinha de se vender a si própria.

Com dois novos discos no mercado, um lançado em 2008 e outro em 2016, os Metallica continuavam a esgotar estádios. Mas foi na última digressão, em 2019, que as preocupações sobre o estado de saúde de James Hetfield voltaram a fazer parte das discussões na internet.

James Hetfield. A dura luta com o álcool que quase derrubou o vocalista dos Metallica
A mudança de aparência de James Hetfield em 2019 foi notável e levou à preocupação generalizada dos fãs

O vocalista surgia com uma nova aparência em palco: mais cheio, cansado e com um aparente desgaste físico não habitual. A recaída, confirmada em setembro de 2019, lançava a questão: estão as estrelas de rock destinadas a sofrer num meio pouco aberto a discutir a saúde mental? O consenso é que as coisas estão a mudar e que começa já a haver uma abertura necessária para pôr o bem estar dos músicos acima do dinheiro.

"A indústria da cultura tem sido, até agora, muito pouco complacente. Mas as coisas estão mudar. Há mais pessoas a falar, há mais consciencialização e começam já a ser criados vários grupos de apoio para músicos que os procurem", explica Katerina Georgiou, terapeuta especializada no apoio a músicos em digressão, à revista "Loudersound".

E segundo Georgiou, é nessa experiência de partilha que deve recair a ajuda e a abertura para se assumir o problema. "É muito fácil para um músico sentir-se isolado e sozinho nesta trajetória descendente. Mas quando se apercebe de que não é uma experiência isolada, pode ser transformador.Quando se apercebe de que não é só ele, mas sim os colegas de banda, os roadies ou os engenheiros de som a passar por processos semelhantes, é importante apoiar-se nessa rede."

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E é essa rede que, neste momento, está a funcionar em redor de James Hetfield. Assumindo o problema, dando-lhe espaço para recuperar, cancelando os concertos e dar-lhe todo o apoio necessário para que não sinta que está a desiludir a família, os colegas de banda e, mais importante ainda, os fãs.

Quatro meses depois da recaída, James Hetfield apareceu em público para um evento sobre carros desportivos. Embora não tenha respondido a questões sobre o futuro dos Metallica, e se tenha mostrado com uma disposição e um estado de espírito mais positivo, a banda tem vários concertos agendados para 2020 que só não deverão acontecer devido ao surto de COVID-19 no mundo.

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