Aquela que é a maior detentora de conteúdo pornográfico no mundo, a Pornhub, procedeu à eliminação de 75% dos vídeos alojados no seu site. Nesse dia, havia cerca de 2.9 milhões de vídeos disponíveis quando, no dia anterior, esse número rondava os 8.8 milhões. A decisão foi tomada depois de uma investigação do "The New York Times" ter denunciado o facto de muitos desses vídeos terem tido origem em situações de violência e abusos sexuais, geralmente com menores, e em contexto não consensual.

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Na sua habitual coluna de opinião, Nicholas Kristof publicou um texto que, sabemos agora, viria a ter um impacto histórico na indústria. "As Crianças do Pornhub" é o título de uma peça que conta com vários testemunhos, inclusive o de Serena K. Fleites que, com 14 anos, viu a sua vida mudar por completo quando o rapaz por quem se apaixonou lhe traiu a confiança uma e outra vez.

Durante a relação, o rapaz pediu-lhe por diversas vezes que ela lhe enviasse um vídeo em que estivesse nua. Serena acedeu, até que o rapaz lhe pediu outro vídeo. E outro. E mais outro. Ao jornal americano, a mulher recorda que, na altura, se sentiu nervosa, mas, ao mesmo tempo, apreciada e lisonjeada. Até começar reparar em olhares estranhos vindos dos seus colegas da escola.

"Uma vida inteira pode mudar apenas por um pequeno erro"

O rapaz por quem se tinha apaixonado tinha divulgado os vídeos com outros colegas, rapazes, e alguns deles acabaram por ser publicados no Pornhub. "De repente, as pessoas começaram a enviar-me mensagens a dizer que se não lhes enviasse um vídeo [semelhante àqueles que tinha enviado anteriormente enquanto esteve numa relação], eles enviariam aqueles que tinham à minha mãe", recorda.

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O rapaz foi suspenso, mas Serena Fleites começou a faltar às aulas por não conseguir lidar com a vergonha. Afinal, os vídeos estavam inteiramente disponíveis no Pornhub — o que permitiu que, mesmo depois de a rapariga ter mudado de escola, os vídeos continuassem a circular e a chegar a novos colegas. Em poucos meses, Fleites tentou suicidar-se por duas vezes, fugiu de casa e vive agora na rua, dentro do carro, e há um ano sem tocar em drogas pesadas.

"Foi uma coisa tão pequena que fiz enquanto adolescente e que se tornou nesta coisa maior. Uma vida inteira pode mudar apenas por um pequeno erro", desabafa. Mas não é o único exemplo usado por Kristof na coluna de opinião, que recorda o caso de uma mãe que encontrou, no Pornhub, 58 vídeos vídeos que envolviam a sua filha desaparecida há vários anos; ou o de uma mulher, hoje com 23 anos, vítima de tráfico sexual desde os nove e cujos abusos foram registados e publicados no site de pornografia.

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Para o seu artigo, Nicholas Kristof contactou ainda o governo do Canadá, local onde a empresa está sediada, com o intuito de perceber de que forma é que um governo, que se categoriza como feminista, era capaz de permitir que um aglomerado se aproveitasse deste tipo de conteúdo para fazer dinheiro. Em poucas horas, o estrago estava feito.

A investigação levou a que as empresas Visa e MasterCard terminassem as suas relações com o site, um ano depois de a PayPal ter seguido o mesmo caminho. No olho do furacão estava, claro, a Pornhub que reagiu à investigação com a decisão de proibir, pela primeira vez na história da plataforma, a publicação de vídeos de utilizadores não confirmados e identificados — que correspondiam a uma grande fatia dos vídeos alojados no site.

Empresa nega acusações, mas muda as regras

Isto implicaria, claro, a remoção total deste tipo de conteúdos e que já foi efetuada em todo o serviço. Além disso, a empresa anunciou ainda que a partir de agora estará desativada a opção de descarregar um vídeo diretamente do site, o que anteriormente terá permitido que os vídeos, mesmo que removidos uma vezes, pudessem continuar a circular na internet e até noutras plataformas detidas pelo mesmo grupo da Pornhub.

Ainda que a empresa diga que as decisões são tomadas com base numa investigação independente que começou a ser feita em abril, a verdade é que as medidas foram postas em prática um dia depois da peça do "The New York Times" que acusa a plataforma de lucrar com vídeos que mostram situações de violação e violência extrema a envolver menores.

No mesmo comunicado, a empresa nega que haja um problema sistémico no que toca à divulgação de vídeos de violação e de abusos de menores e diz que a investigação do jornal é "irresponsável e falsa".

Nicholas Kristof, o autor da peça no jornal americano, olha para este conjunto de medidas com algum ceticismo. "A eficiência de algumas destas medidas vai depender, em grande parte, do quão responsável a Pornhub será a implementá-las. Até agora, [a empresa] ainda não ganhou, de todo, a minha confiança, mas estes passos parecem ser significantes. Além disso, tudo isto vai depender muito da decisão de investigar, e remover, conteúdo anterior que já faz parte da plataforma", escreveu na sua página de Twitter.

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