Marlene Cruz, mais conhecida como chef Marlene, nunca planeou tornar-se uma figura pública nem sonhou com a participação num dos programas de culinária mais exigentes do País. Começou por cozinhar em casa, por gosto e por amor, e acabou por conquistar milhares de seguidores no Instagram – e um lugar no MasterChef Portugal 2025.
Nascida em Angola e a viver em Portugal há cerca de uma década, estudou Comunicação Social e chegou a fazer castings para ser pivot de informação, no entanto, foi na cozinha que encontrou uma paixão. Os pratos simples, rápidos e cheios de sabor tornaram-se a sua assinatura, primeiro nas redes sociais e depois na televisão.
A paixão pela culinária nasceu cedo, em casa, aos "12, 13 anos", quando ainda vivia no continente africano. "Já era uma miúda muito curiosa", começa por dizer a chef à MAGG. "A minha irmã mais velha gostava muito de cozinhar e eu estava sempre com ela na cozinha. Foi dali onde ganhei o bichinho pela cozinha", continua, acrescentando que cresceu a fazer competições de bolos com as vizinhas do prédio.
Em 2015, decidiu vir para Portugal, por causa da educação dos filhos – Paula, Carolina, Aníbal e Gonçalo –, e diz que "caiu de paraquedas" no País, fazendo com que a adaptação fosse tudo menos fácil. "Uma coisa é vir de férias, outra coisa é ficar para viver. É bem diferente", admite, dizendo que o "marido ficou em Angola a trabalhar", pelo que a mudança ainda foi mais "radical". Entretanto, depois de uma pausa na carreira profissional durante 10 anos para cuidar deles, foi agora em busca dos seus sonhos.
Afinal, para Marlene Cruz, cozinhar vai além de preparar comida. "Quando vou para a cozinha, se não for com alma e entrega, nem vale a pena fazer. Cozinha é sinónimo de amor, não há outra expressão", frisa. Para ela, cada prato é uma forma de demonstrar cuidado e carinho pelas pessoas que a rodeiam, a par de se assumir como uma expressão de dedicação e prazer.
Quando às suas criações, não hesita em descrevê-las como sendo simples e sem complicações. “Tenho a capacidade de tornar um prato simples em extraordinário”, realça. A chef reforça que a beleza está no empratamento e nos detalhes, como um arroz bem cozinhado ou uma carne no ponto certo.
Do curso às redes sociais foi um saltinho
A entrada de Marlene na gastronomia em Portugal aconteceu quase por acaso. Um dia, uma amiga foi almoçar à sua casa e provou um arroz de coelho feito por ela, que foi altamente elogiado pela mesma, depois da degustação. No entanto, esse elogio veio acompanhado de um desafio, conta-nos a chef.
"Tu cozinhas tão bem, por que é que não vais para a Associação Cozinheiros Profissionais de Portugal (ACPP)?", diz a chef, replicando as palavras da amiga. Posteriormente, foi informar-se, porque percebeu que saber cozinhar não é o mesmo que dominar técnicas, e decidiu arriscar.
Ligou para a escola, mas já não havia vagas e o curso seguinte só arrancaria dali a seis meses. Esperou, com ansiedade, até conseguir entrar e foi ali que tudo mudou. Frequentou a formação da Associação de Cozinheiros Profissionais de Portugal durante um ano, entre 2016 e 2017, onde aprendeu técnicas, consolidou conhecimentos e deu os primeiros passos formais numa carreira que viria a transformar a sua vida.
Foi nesta formação que a chef Marlene foi criada, quando sem que se apercebesse, tendo começado a sua identidade a ganhar forma. No início limitava-se a publicar imagens dos pratos que fazia, sem grandes explicações ou histórias associadas, algo que mudou quando foi reconhecida pela primeira vez na rua, quando alguém elogiou os conteúdos que fazia e deixou uma "crítica construtiva" – o facto de não publicar mais e de explicar passo a passo as receitas.
A observação ficou a ecoar e pouco tempo depois começou, de forma espontânea, a partilhar momentos simples, como um almoço com os filhos. Quando as visualizações dispararam e as mensagens começaram a chegar, Marlene Cruz percebeu que os seguidores não procuravam apenas receitas. Foi aí que a comunicação tornou-se uma parte essencial do seu percurso e, quase 10 anos depois, está a caminho dos 200 mil seguidores.
Mas a página vai muito além da cozinha, explica. "É também motivacional. Muitas pessoas dizem-me que gostam do meu ‘bom dia’, que as minhas publicações as inspiram logo de manhã", afirma, dizendo que não fala só sobre receitas, mas sobre o dia a dia, boas práticas e motivação e que é por isso que continua a conquistar seguidores em Angola e em Portugal, que se sentem próximos dela.
O percurso atribulado (mas gratificante) no MasterChef Portugal
Um pouco à semelhança de tudo o que lhe tem acontecido neste ramo, a entrada no MasterChef Portugal não estava nos planos de Marlene Cruz, algo que nunca levou a sério, mas que lhe foi sugerido por uma seguidora. No entanto, embora achasse que não seria aceite por já ter formação em cozinha, avançou sem grandes expectativas e preencheu o formulário, sempre com a ideia de que o “não” era garantido. Entretanto foi contactada e ficou sem palavras.
“Não estava nada à espera que me fossem contactar. Eles estavam a ligar e eu não atendia porque pensava que era uma burla", afiança, dizendo que lá acabou por ceder. "Mas decidi atender e era da produção. Eu nem queria acreditar que de um formulário que eu preenchi sem esperança alguma vez fossem afinal ligar. Fiquei sem reação”, continua.
Marlene Cruz entrou na edição do MasterChef Portugal 2025 e tornou-se um das grandes destaques da edição, com grande presença nas redes sociais. A entrada no programa de culinária acabou por ser muito mais marcante do que alguma vez imaginou. Ainda assim, só agora, com algum distanciamento, consegue olhar para a experiência com outros olhos.
Durante o programa, sentiu que a pressão constante acabou por roubar-lhe o sorriso, devido ao facto de ser "muito exigente" e não gostar de falhar, algo que o público rapidamente notou. “As pessoas diziam-me: ‘Chef Marlene, você é tão simpática, mas no programa estava sempre de cara fechada’. A verdade é que sou descontraída, leve e de trato fácil, mas ali percebi que não lido bem com pressão", explica.
Foi nas provas de eliminação que a experiência se tornou, efetivamente, mais pesada, tanto que perguntou "se não podia desistir porque não estava a aguentar mais". "Cheguei, durante o programa, a ir para o hospital por causa da ansiedade”, revela. No entanto, quando a edição do formato foi para o ar, ficou surpreendida com o reconhecimento que dele adveio.
“Estava cheia de ansiedade e, de repente, vejo que o público estava a torcer por mim. Não estava a perceber nada. Para mim, eu não tinha feito nada bem. Agora é que estou a desfrutar. Se me perguntassem há uns tempos como via a minha passagem no MasterChef, não diria isto”, acrescentou. Ainda assim, diz que nunca perdeu o gosto pela cozinha no processo e que conseguiu dar a conhecer o seu trabalho, algo que é "impagável".
O que vem a seguir para a chef Marlene?
Depois de participar no MasterChef, Marlene ganhou consciência de que a cozinha, como qualquer área, está em constante evolução e que também ela precisa de continuar a ganhar mais conhecimentos. Por isso, vai tirar uma formação de arte da culinária na École Ducasse, em Paris, durante dois meses. À MAGG, revelou que as próximas etapas na carreira profissional passam por ter o seu próprio espaço, algo que nem sempre foi assim.
A chef chegou a abrir um restaurante, mas a pandemia obrigou-a a fechar, gerando uma despesa de 50 mil euros. “Fiz obras, investi no local e não consegui fazer nada”, recordou. Hoje, sente-se pronta e capaz de enfrentar um novo desafio. "Vou ficar ainda melhor após a minha formação e agradeço também ao programa. Sai com muita força, garra e energia para este mercado", admite.
O futuro espaço vai refletir totalmente a personalidade da Chef Marlene. “O nosso espaço tem muito a ver com a nossa pessoa. O meu vai identificar-se muito comigo. Quero algo amoroso. Quero que conheçam o espaço da Marlene, que ele fale muito sobre mim", explica. O menu será um reflexo da sua trajetória e das suas influências, a par de juntar técnicas que vai aprender em França e trazer algumas memórias da sua infância vividas em Angola.
Quando olha para trás, não esconde o orgulho que sente com o que caminho que trilhou. “Estou muito feliz e orgulhosa do meu percurso porque cheguei pelo meu mérito, pela pessoa que sou”, reitera. Para ela, este reconhecimento tem um sabor especial num mundo cada vez mais exigente. "É muito bom sentir que consigo traçar o meu caminho sem prejudicar ninguém, fazendo as coisas à minha maneira e com integridade", remata.
À MAGG, Marlene Cruz partilhou três receitas que refletem a sua filosofia: simples, saborosas e cheias de sabor. Não se preocupe que não precisa de ter muita experiência. Cada prato é pensado para ser rápido, sem complicações, mas cheio de personalidade porque, para Marlene, cozinhar é acima de tudo um ato de amor.
Bacalhau desconstruído com batata jovem, legumes salteados e ovo cozido
Ingredientes
Para o bacalhau:
4 lombos de bacalhau demolhado
Água q.b.
1 folha de louro
Pimenta preta q.b.
Para os acompanhamentos:
600 g de batata jovem com casca
1 brócolo (em floretes)
2 cenouras (em palitos ou rodelas)
4 ovos
Sal q.b.
Azeite q.b.
Para o refogado aromático:
1 cebola grande cortada em meia-lua
2 dentes de alho picados
2 folhas de louro
Azeite q.b.
Pimenta preta moída na hora q.b.
80 ml de vinho branco
Preparação
Coza as batatas em água e sal até ficarem macias e escorra. De seguida, coza os brócolos em água com sal durante 2 a 3 minutos. Retire a água e salteie em azeite. Depois, junte ao azeite as cenouras e salteie até ficarem macias, mas ainda com textura. Coza os ovos durante 10 minutos e descasque. Para o bacalhau, leve um tacho com água ao lume e tempere com louro e pimenta preta.
Quando a água começar a ferver, desligue o lume, coloque o bacalhau, deixe repousar cerca de 8 minutos e corte em lascas. Numa frigideira larga, refogue a cebola e o alho em azeite com louro e pimenta preta até ficar translúcida. Adicione o vinho branco. Por fim, junte o bacalhau em lascas ao refogado.
Massa tubo com natas e trufas
Ingredientes
- 250 g de massa tubo (penne ou similar)
Água q.b.
Sal q.b.
1 fio de azeite
1 cebola média, picada
2 dentes de alho, picados
200 ml de natas
Trufa em pó q.b.
Água da cozedura da massa q.b.
Pimenta preta moída na hora q.b.
Trufas laminadas (ou raladas) para finalizar
Preparação
Leve ao lume um tacho com água e sal. Assim que começar a ferver, adicione a massa tubo e cozinhe até ficar al dente. Quando estiver pronto, guarde um pouco da água da cozedura. Numa frigideira larga, aqueça um fio de azeite e refogue a cebola até ficar translúcida, sem deixar ganhar cor. Junte o alho picado e deixe cozinhar por alguns segundos, até libertar o aroma.
Depois, adicione as natas e a trufa em pó, e mexa até obter um molho cremoso e perfumado. Acrescente aos poucos a água da cozedura da massa, ajustando a textura do molho. Deixe cozinhar por cerca de 5 minutos, em lume médio/baixo. De seguida, tempere com sal e pimenta preta moída. Junte a massa ao molho, envolva bem e deixe cozinhar por mais 1 minuto. Termine ao adicionar as trufas por cima e sirva de imediato.
Carne estufada em vinho tinto com molho aveludado e legumes
Ingredientes
800 g de carne de novilho para estufar (em cubos)
3 dentes de alho picados
2 tomates maduros sem pele
1 c. chá de tomilho seco (ou 2 raminhos frescos)
Sal q.b.
Pimenta preta moída na hora q.b.
250 ml de vinho tinto
Para refogado e molho:
2 tomates maduros sem picados sem pele.
2 c. sopa de azeite
1 cebola grande picada
2 dentes de alho picados
1 cenoura média em cubinhos
1 talo de aipo em cubinhos
2 tomates maduros picados (ou 200 g de tomate em cubos)
1 folha de louro
200 ml de vinho tinto (para refrescar)
300 ml de água quente ou caldo de carne (opcional, se necessário)
Para finalizar:
1 c. sopa de amido de milho (maizena)
2 c. sopa de água fria (para dissolver a maizena)
150 g de bimis (ou brócolos)
1 curgete média em meias-luas
Azeite q.b. (opcional)
Preparação
Comece por temperar a carne com alho, tomilho, sal e pimenta preta, e regue com o vinho tinto. Envolva bem e deixe marinar durante 30 minutos ou até 12h no frigorífico. Depois, aqueça o azeite num tacho e sele a carne em lume alto até ganhar cor. Retire e guarde. Para o refogado, no mesmo tacho, adicione a cebola e refogue até ficar translúcida.
Junte o alho, o aipo e a cenoura, e cozinhe até amolecerem ligeiramente. Adicione o tomate e o louro. De seguida, refresque com o vinho tinto e deixe o álcool evaporar por 5 minutos e volte a colocar a carne no tacho. Se necessário, adicione um pouco de água quente ou caldo. Cozinhe em lume baixo, com tampa, por 45 a 60 minutos, até a carne ficar macia.
Depois, retire a carne e passe o molho por um passador se desejar que fique mais fino. Volte a colocar a carne no molho. Dissolva a maizena na água fria e adicione ao tacho, mexendo até engrossar. Por fim, deixe cozinhar por mais 5 minutos e adicione os bimis e a curgete. Acompanhe com arroz branco.