O hospital Dona Estefânia, em Lisboa, tem 14 criança internadas, infetadas com a COVID-19, confirmou na conferência de imprensa de terça-feira, 26 de maio, a diretora-geral da saúde, Graça Freitas — que ressalvou o facto de que este conjunto de doentes não representa casos exclusivamente desta cidade: três são do Alentejo e um outro é dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa). Duas destas crianças estão internadas na Unidade de Cuidados Intensivos, ambas com doenças crónicas associadas, uma renal e outra hermatológica.

Sobre a conjuntura destes internamentos, Joana Martins, médica especialista da Unidade de Cuidados Intensivos do Dona Estefânia, explica à MAGG que, quando os doentes não apresentam um estado clínico que obrigue ao internamento nesta unidade, estes ficam na enfermaria da Unidade de Infecciologia.

Nos dois locais, os quartos onde ficam a ser tratadas e a recuperar são iguais:  são as chamadas salas de pressão negativa, que servem para prevenir situações de contaminação cruzada e propagação da doença, através de um sistema de ventilação que faz com que o ar circule para dentro da sala — e não para fora dela. Ao abrir-se a porta, é como se este ar fosse, automaticamente, sugado para o interior do espaço a que esta dá acesso.

Por este motivo, as crianças e os acompanhantes que estão circunscritos a estes espaços, podem estar sem máscara de protecção. Mesmo tossindo ou espirrando, as gotículas não têm como sair daquele espaço. Sempre que um médico ou enfermeiro entra e sai, veste-se com o equipamento de protecção individual, tendo de passar por uma antecâmara antes de entrar. 

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No caso de doentes imunodeprimidos (que não estão contaminados pela COVID-19) — como doentes oncológicos, por exemplo, que têm defesas imunitárias mais débeis — o fluxo funciona de forma inversa: ficam internados nas salas de pressão positiva, que mantém puro o ar que circula nos quartos, de modo a que estes pacientes não sejam infetados por doenças que possam correr nos hospitais. Seja na sala de pressão negativa, seja na sala de pressão positiva, o objetivo passa por "regular o risco de transmissão de infecções", diz a médica.

No caso dos doentes que estão internados na unidade de infecciologia, as salas de pressão negativa têm capacidade para entre uma a quatro crianças, estando acompanhadas pelos seus cuidadores. Os cuidadores, explica a médica, são sempre previamente testados ao novo coronavírus, podendo permanecer junto dos filhos (caso sejam país), quer o exame tenha dado positivo ou negativo — neste último caso, esta situação dá-se mediante a assinatura de um termo de responsabilidade que dá conta de que o indivíduo está consciente do risco de contágio a que fica submetido.

Além de um espaço nesta enfermaria para os casos de COVID-19 positivo, existe também uma zona reservada para os casos de COVID-19 negativos. Aqui os cuidadores que testem positivo já não podem entrar na sala, sob o risco de infetarem terceiros.

Em momento algum, as crianças e os respetivos cuidadores podem sair da sala de pressão negativa, até que haja a confirmação de que o vírus foi eliminado. Por isso, o hospital providência também cama e refeições aos pais das crianças infetadas.

Na enfermaria de infecciologia é comum estarem mais do que um doente por quarto, acompanhados pelos respetivos cuidadores. Joana Martins explica que na sala aqui há televisão e há brinquedos para os miúdos se poderem entreter, caso consigam — até porque "astenia e cansaço extremo" foram as palavras que Maria João Brito, responsável pela Unidade de infecciologia, usou para descrever os efeitos que a doença causa nas crianças, pode ver-se numa reportagem do "Expresso".

Livros são proibidos. "Não há livros não porque não são podem de serem desinfetados. Todos os brinquedos têm de ser passíveis de ser higienizados", acrescenta Joana Martins.

Os médicos e enfermeiros entram sempre equipados, mas através do vidro da tal antecâmara que dá acesso ao quarto, as crianças conseguem assistir ao momento em que os especialistas vestem o equipamento, acabando por ver a cara de quem os trata.

Apesar de enclausurados, aqui pais e crianças podem conversar entre si. "Na Unidade de Cuidados Intensivos é diferente", diz Joana Martins. Com quadros clínico mais agravados, as crianças, muitas vezes ligadas a ventiladores, passam a grande parte do tempo a dormir. Só há uma por quarto, acompanhada pelo seu cuidador. "Custa ver mais a solidão dos pais. Só têm a companhia do filho, do médico e do enfermeiro. Na enfermaria de infecciologia estão mais acompanhados, conversam, veem televisão."

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