Quando os assaltantes ligaram a câmara de filmar nem queriam acreditar no que estavam a ver. Gravado no disco da máquina estava um vídeo de uma violação. A vítima era uma mulher já com idade avançada, que falava inglês com sotaque norte-americano, e o agressor era Christian Brückner, um delinquente alemão conhecido dos dois homens que acabavam de lhe assaltar a casa. Mesmo sendo bandidos, os dois homens acharam importante entregar aquelas imagens à polícia. Assim o fizeram. Pela data, as autoridades perceberam então que o crime estava a ser cometido em Portugal, já que era lá que Christian vivia na altura, em 2005, releva esta sexta-feira uma investigação do jornal alemão "Braunschweiger Zeitung".

Foi relativamente simples chegarem até uma queixa de violação apresentada por uma mulher de 72 anos, na Praia da Luz, Algarve. Ligando os dois pontos foi fácil chegar a uma condenação. Brückner, que já vivia na Alemanha, foi então condenado, em 2019, pelo Tribunal Regional de Braunschweig, a 7 anos de cadeia pelo crime. Isto, a juntar a outros pequenos crimes relacionados com droga, pelos quais também já havia sido condenado.

Mas esta é apenas uma etapa na história criminal do homem que é agora o principal suspeito do rapto e possível assassinato de Madeleine McCann, a 3 de maio de 2007.

Era nesta casa entre Lagos e a Praia da Luz que Christian Brückner vivia na altura do desaparecimento de Maddie
Era nesta casa entre Lagos e a Praia da Luz que Christian Brückner vivia na altura do desaparecimento de Maddie

Christian nasceu em 1976 em Würzburg, na Alemanha. Na altura, o apelido era outro, já que os pais biológicos que o registaram acabaram por entregá-lo a uma instituição. Chrstian foi então adotado pela família Brückner, que lhe deu um novo apelido.

Em 1992, com apenas 16 anos, teve o seu primeiro incidente com a justiça. Esteve envolvido num roubo violento "particularmente grave", de acordo com as autoridades alemãs, e foi condenado e pena de cadeia, mas a pena acabou por ficar suspensa por não ter antecedentes criminais. Apenas dois anos mais tarde, e pela primeira vez, envolveu-se num caso de abuso a uma menor. Christian terá tentado abusar de uma menina de 6 anos num parque infantil, mas foi surpreendido pelos pais da criança, alertados pelo choro da menina. O rapaz fugiu. Pouco tempo depois, novo registo, agora com uma menina de 9 anos. Aí, chegou perto da criança, baixou as calças e mostrou-lhe o pénis. Desta vez, foi apanhado e preso. Como ainda estava em liberdade criminal pelo crime de roubo, acabou por ter mesmo de cumprir dois anos de cadeia. No julgamento, mostrou pela primeira vez uma perturbação de caráter. O juiz perguntou-lhe em que é que estava a pensar quando cometeu o crime contra a criança e a resposta foi simples: "Não estava a pensar em nada".

Quando foi libertado, Christian saiu da região de Würzburg, mas isso não significou que parasse de cometer crimes. Pequenos furtos, agressões a várias pessoas, abusos sexuais, tráfico de droga, distribuição de pornografia infantil, foram muitas as queixas contra o homem. A solução acabou por ser a fuga.

Brückner mudou-se para Portugal em 1995, com 19 anos, e instalou-se na zona de Lagos. Viveu de pequenos biscates, trabalhos menos em cafés, restaurantes e hotéis. Vagueou, viveu na rua, mas a verdade é que não houve, neste período, qualquer queixa contra o alemão. Durante a maior parte do tempo viveu numa pequena moradia entre a Praia da Luz e Lagos, que, segundo alguns moradores contaram ao  "Braunschweiger Zeitung","nunca foi revistada", explica o jornal. Durante a maior parte do tempo, Christian viveria dos rendimentos de pequenos furtos em hotéis, apartamentos turísticos e de vendas de drogas leves.

O interior da casa de Brückner que os vizinhos dizem nunca ter sido revistada
O interior da casa de Brückner que os vizinhos dizem nunca ter sido revistada

É mais ou menos nesta fase que a vida de Christian se terá cruzado com a dos McCann. As autoridades suspeitam que Christian terá tido uma conversa com um cúmplice, que o alertou para a oportunidade de assaltar alguns apartamentos no Ocean Club, na Praia da Luz, que estariam vazios durante umas horas, perto do jantar. É este o telefonema que as autoridades acreditam que servirá para juntar a prova final na condenação de Christian.

O alemão terá então entrado pela janela do apartamento dos McCann com o intuito de o assaltar, e foi então que se apercebeu que lá dentro estava uma menina de 3 anos, o que lhe despertou os instintos pedófilos que o acompanham desde sempre. A polícia alemã acredita que Christian terá então levado Madeleine McCann com o objetivo de abusar sexualmente dela. É também por isso que as autoridades acreditam que, depois de o fazer, o alemão terá assassinado a menina inglesa, então com 3 anos.

Maddie pode ter saído do apartamento à procura dos pais
Madeleine McCann desapareceu em Portugal em maio de 2007 créditos: Pinterest

No dia seguinte, ao desaparecimento da criança, Christian, que tinha em seu nome um carro de marca Jaguar, com matrícula alemã, alterou a morada do registo automóvel, e passou-o para uma morada alemã, o que, agora, mostra ser um comportamento suspeito. Não muito tempo depois, Christian Brückner deixou definitivamente o Algarve e voltou à Alemanha.

Muitos anos mais tarde, Christian terá feito parte de um chat de conversação frequentado por pedófilos e traficantes de pornografia infantil e terá dito aí que sabia o que tinha acontecido com Madeleine. 

Na altura, entre 2012 e 2014, Christian explorava um quiosque na cidade de Brunswick. Mas isso não o pôr à margem do crime. O alemão voltou a cometer pequenos furtos, envolveu-se no tráfico de drogas, e acabou novamente detido. Às acusações dos crimes menores juntou depois, no ano passado, a da violação da cidadã norte-americana. Brückner está atualmente detido na cadeia de Kiel, a cumprir uma pena de 7 anos de prisão.

Tem 43 anos, é loiro, tem 1,82 metros, usa o cabelo rapado, tem os dentes amarelados do tabaco e da droga e as unhas muito roídas. Estará a ser interrogado por estes dias pelas autoridades, que procuram fechar a investigação, provar que foi ele o responsável pelo desaparecimento de Maddie, e perceber o que ele terá feito ao corpo da criança. As autoridades portuguesas estão a ajudar no lado da investigação em território nacional, e as autoridades inglesas estão apenas a fazer a ponte com o casal McCann, para o pôr a par da evolução do caso. Os pais e a polícia inglesa, mantém a esperança em encontrar Madeleine viva, e o caso em Inglaterra continua aberto como o caso de um desaparecimento, e não de um homicídio, tese que a polícia alemã não corrobora, já que, acredita, trata-se de uma investigação de um homicídio.

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