João Ferreira (nome fictício) é traficante de droga há dois anos. Claro que tem consciência plena de que isso é proibido em Portugal. Conhece bem a lei. Sabe que o consumo não entra na categoria dos crimes, mas segundo a legislação, transportar uma quantidade equivalente ao consumo médio individual de 10 dias é considerado contra-ordenação, e passa a ser um crime se for superior a essa quantidade.

Mas João diz ter encontrado nesta atividade a solução para o seu problema. Dois meses depois de ter ingressado na faculdade, os pais disseram-lhe que não tinham como lhe pagar os estudos. Às escondidas da família, aceitou este trabalho e aqui conta-nos como faz o tráfico de estupefacientes.

O que faz ao certo?
Trabalho como traficante de droga. Sou o meio entre quem arranja e quem recebe. Todas as semanas, eu e um grupo de quatro homens, vamos a casa do “fornecedor”, onde ele arranja as quantidades que os nossos compradores pediram, mais uma certa quantidade para vender durante essa semana.

Há quanto tempo trafica droga?
Comecei há 2 anos quando percebi que os meus pais não me conseguiam pagar a faculdade. Conhecia um rapaz da minha faculdade que já o fazia há 6 anos, ele sabia a situação em que eu estava e ofereceu-me um “trabalho” como o dele. Eu disse que não estava confortável em fazê-lo, mas também sabia (do que falavam) que era uma maneira fácil de arranjar dinheiro; aceitei, pois precisava.

O dinheiro vai todo para si?
Nos primeiros meses não ia, mas depois passou a ser todo para mim. Ao início tinha um acordo com o “fornecedor” em que, do total, ele recebia 60 por cento e eu 40. Por muito dinheiro que fosse, acabava por não ser o suficiente para eu poder fazer a minha vida, entre pagar os estudos, a renda, a comida, entre outras coisas. Com o dinheiro que consegui poupar dessa altura, comprava logo por inteiro essas quantidades e depois vendia, com preço inflacionado de modo a obter lucro. Como não tinha assim tanto dinheiro, comecei por comprar pouco, e fui aumentando todos os meses. Neste momento o meu lucro passou a ser de 100%. Se gastava 100€ em comprar o produto, fazia 200€ na venda.

Como foi a primeira vez que vendeu?
Depois de aceitar o trabalho, tive uns dias apenas a ver e a aprender como funcionava. Fui buscar a droga com o rapaz que me estava a “ensinar” e no dia a seguir fomos para a rua. Ele chamava as pessoas, perguntava se queriam; se fosse o caso, íamos buscar onde a tínhamos escondido e fazíamos a troca. Poucos dias depois ele disse que era a minha vez de começar. Custou-me nas primeiras semanas, mas saber que estava a ganhar muito dinheiro em pouco tempo, deixou-me feliz.

Alguma vez foi apanhado pela policia?
Já. Várias vezes, até. Mas em nenhuma me descobriram nada. Houve uma vez que estava sozinho, mais à frente estava o meu grupo de amigos, e estávamos à espera de arranjar pessoas a quem vender. Nenhum de nós reparou e dois policias vieram falar comigo, perguntaram-me o que estava ali a fazer, que já tinham reparado que estava sentado há muito tempo no mesmo sítio a observar quem passava e a meter conversa. Eu perguntei se havia problema, não estava a fazer nada de mal. Quando dei por mim, os meus amigos já tinham desaparecido. Os policias pediram-me para ver a minha mochila e eu deixei. Não encontraram nada e foram embora. O que eles não sabem é que nós não transportamos a droga connosco, deixamo-la sempre perto do sítio onde estamos e quando nos pedem, vamos até lá buscar.

Ao contrário das bebidas alcoólicas ou do tabaco, a droga não tem idade de consumo, tão pouco a venda é legal. Portanto, perguntar a idade não é algo que faça, até porque ficaria a perder nas vendas."

Alguma vez teve de ir à esquadra?
Sim, mais do que uma, mas se nos apanharem com pouco, não podem fazer nada porque não há qualquer prova de que estamos a fazer trafico. Passei algumas horas na esquadra e depois mandaram-me embora.

Como se sente ao contribuir para a destruição da vida de alguém?
Isso é relativo. O sentir-me bem ou não, acaba por não ser uma escolha que eu tenha, porque preciso do dinheiro. Se me sinto bem em vender? Se calhar não. Mas esse problema não passa só por mim, passa por quem compra também. As pessoas sabem os malefícios da droga e compram na mesma. Ou seja, independentemente da maneira como eu me sinta, a responsabilidade desse ato passa também pelo comprador.

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Trafica mesmo porque precisa ou porque gosta?
Do meu grupo, três de nós traficamos porque precisamos. Um para pagar um empréstimo, outro para ter dinheiro para sustentar a família, e eu, para pagar estudos. Eu não gosto de traficar, porque acaba por ser chato ter de esperar por quem compre, ter o compromisso de o fazer e ser algo ilegal. Mas o outro que trabalha connosco diz que gosta porque acaba por fumar uma parte do que vende, sem pagar nada.

Só vende ou também consome?
Primeira regra do négocio: "Não consumas o teu produto".

É dinheiro fácil?
É dinheiro fácil, mas é difícil arranjá-lo. Pressupõe que todas as semanas eu tenha de ir buscar o que vendo, que me encontre com os compradores e que, na maior parte das vezes, tenha de passar horas nas ruas a tentar arranjar pessoas que queiram comprar. As horas que gasto neste processo todo são muitas, mas acabam por ter retorno, porque numa noite boa consigo fazer sem problema mais de 200€.

Vende a crianças?
Quando vendo, obviamente não peço o bilhete de identidade, nem nada que se pareça. Acredito que já tenha vendido a várias pessoas menores de 18 anos, até porque os sítios onde andamos a vender são frequentados por essa faixa etária. Ao contrário das bebidas alcoólicas ou do tabaco, a droga não tem idade de consumo, tão pouco a venda é legal. Portanto perguntar a idade não é algo que faça, até porque ficaria a perder nas vendas.

Durante uma semana andei a vender menos por mais. Acaba por ser fácil enganar as pessoas, dava quase sempre a desculpa de 'esta é melhor, vem de Espanha', entre outras desculpas do mesmo tipo."

Quanto vende em quanto tempo?
Isso é relativo. Há dias e sítios melhores para vender. Numa noite normal, no centro de Lisboa, o máximo que fiz foi 300€. Enquanto que se for a uma festa ou até um festival, como o NOS Alive, em que vendi tudo o que levei, consegui fazer 320€ no espaço de 3 horas, ou em em discotecas já cheguei a fazer 500€.

Como passa pela segurança de festivais com droga?
Não há grande ciência para isso, até porque na maior parte das vezes os seguranças não confirmam efetivamente o que temos dentro da mala ou do casaco. Já entrei em festivais com um maço de tabaco que no interior levava cigarros com erva enrolados. No SuperBock entrei no recinto depois de um polícia me ver a mochila, dentro dela tinha um saco de erva. Depois de ver disse que não podia entrar porque tinha algo na mochila que não era permitido. Quando lhe perguntei o que era, respondeu, enquanto tirava de dentro da mochila: “Este desodorizante vai ter de ficar comigo”.

Em média, e descontando o que paga ao fornecedor, com quanto é que fica por mês?
Com uns 600 a 800 euros.

Já alguma pediu mais dinheiro do que valia aquilo que estava a vender?
Várias vezes. No início do ano tive de pagar a inscrição e uma prestação na minha faculdade, mas não tinha dinheiro suficiente para tudo. Então durante uma semana andei a vender menos por mais. Acaba por ser fácil enganar as pessoas, dava quase sempre a desculpa de “esta é melhor, vem de Espanha”, entre outras desculpas do mesmo tipo.

Já alguma vez vendeu algo que não eram drogas como se fossem?
Sim, em festivais. E não só. Existem vários turistas que procuram divertir-se das maneiras mais estranhas. Recentemente vendi paracetamol, que num supermercado custa cerca de 1€, por valores como 10€ dizendo ser ecstasy.

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Procura vender em locais mais escondidos?
Normalmente costumo falar com as pessoas em locais públicos, caso queiram comprar, vou ao sítio onde deixei e faço aí a venda. Mas mesmo esses sítios acabam por não ser escondidos, porque isso dá mais nas vistas.

Em que situações é mais fácil a venda?
Festas, sem dúvida. Há pessoas de todas as idades, querem divertir-se e talvez vejam na droga essa solução. Consigo fazer dinheiro e arranjar compradores facilmente.

Como os outros, é um trabalho em que me dedico, como as outras pessoas aos seus. Mas ao mesmo tempo, não é como os outros porque, para além de ser ilegal, não há impostos."

Costuma andar com grandes quantidades para vender na rua?
Depende. Do dia da semana, se me vou encontrar com alguém que já me tenha pedido, entre aquilo que me conseguiram arranjar para vender. Levo sempre dois tipos de drogas, sendo que erva é sempre uma das opções. A outra varia entre polén, haxixe e MD. O normal de quantidade que levo para venda por noite, depende também do tipo de droga que levo e para onde vou, mas é o equivalente a 200, 300 euros. E caso me peçam algo que não tenho, tento sempre que comprem aos que estão comigo.

Só vende as chamadas "drogas mais leves"?
Nunca quis envolver-me com as pessoas das drogas mais pesadas, por isso não vendo esse tipo de drogas. E queria envolver-me pouco no negócio, ou seja, queria fazer apenas o necessário para ganhar o dinheiro que precisava. Não vejo que vender outro tipo de drogas me desse mais até porque as pessoas consomem mais drogas leves.

Em geral, quem são os seus compradores? 
Jovens entre os 20 e os 25 anos, principalmente estudantes universitários e mais raparigas do que rapazes: 60 a 70% são do sexo feminino.

De onde é que os seus pais acham que lhe vem o dinheiro?
Trabalhei um mês num café e os meus pais pensam que eu ainda lá estou empregado.

Como comunica com as pessoas com quem já tem contacto?
Normalmente enviam-me mensagem por telemóvel a perguntar se podem falar comigo durante X minutos (equivale à quantidade em euros que querem), num X sítio, a X horas. É uma maneira fácil de saber o que querem, onde e a que horas, sem dar a entender do que se trata.

O que odeia mais no seu trabalho?
Ser um trabalho de risco. Por ser ilegal, por ter contacto com pessoas que podem ter problemas com drogas, entre outras coisas. Detesto o tempo todo que tenho de gastar para arranjar as coisas, encontrar-me com os compradores, e maior parte das noites ir sozinho para a rua “procurar por quem queira”. O tempo é muito pouco para tudo o que tenho de fazer, tanto no trabalho como a nível pessoal.

Acha que é um trabalho como aos outros?
É um trabalho que exige tempo, paciência e vontade. Como os outros, é um trabalho em que me dedico, como as outras pessoas aos seus. Mas ao mesmo tempo, não é como os outros porque, para além de ser ilegal, não há impostos.

Era capaz de ter este trabalho para sempre?
Por um lado sim, por outro não. Já trabalhei em lojas de roupa e em cafés, o que acaba por ser um trabalho mais honesto. A facilidade e rapidez com que se ganha neste tipo de vendas é incomparável aos outros. Não é uma questão materialista, mas sim de necessidade. Talvez mais tarde, se tudo correr bem. Espero ter o curso que me vai permitir ter um emprego na minha área de estudo, o que pode não me beneficiar a níveis monetários, mas sim a níveis profissionais.

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