"Calma, filha, a mamã não te vai deixar". Ao telefone, conseguimos ouvir o palrar choroso de Victória, apaziguado pelas palavras e pelo colo da mãe. Com apenas 21 meses, a bebé é protagonista de uma odisseia que terminou (para já) esta quinta-feira, 15 de setembro, nas instalações da TVI.

Depois de ter levado a filha, a 20 de agosto, para o que deveria ser uma visita de apenas 24 horas, Renato Lima decidiu ficar com a criança, mesmo não tendo esses direitos parentais. Depois de o caso ter sido divulgado pelo "Dois às 10", o homem entrou em direto no programa, dizendo que ia entregar a bebé à TVI. Na tarde desta quinta-feira, 15, assim o fez. Victória viajou de Queluz de Baixo para a Póvoa de Varzim, tendo sido entregue na casa da mãe, Cathiane Lima.

A MAGG falou com a empresária, dona de uma ourivesaria, que nos fez um relato detalhado sobre o início da relação com Renato, as primeiras agressões, o deteriorar da relação e os acontecimentos que culminaram na subtração da menina.

Primeira agressão aconteceu após perda de um bebé

Cathiane e Renato conheceram-se em março de 2016. "A primeira vez que o Renato me agrediu foi em 2016, quando eu perdi um bebé". A empresária esclarece que teve de realizar uma cesariana de urgência aos quatro meses de gestação, uma vez que o feto estava morto. E explica os motivos que terão levado o então companheiro a bater-lhe. "O Renato tem um grande problema. Ele tem uma autoestima muito baixa", explica, detalhando que os ciúmes, em particular do ex-marido (pai dos seus filhos mais velhos, de 12 e 15 anos) agravavam os comportamentos agressivos de Renato. "Tenho uma relação muito boa com o meu ex-marido, é o meu melhor amigo". Após esta agressão, e depois de ter chamado a polícia, Renato ficou detido "três ou quatro dias", recorda Cathiane, detalhando que o ex-companheiro a terá mantido presa na cozinha.

Questionamos Cathiane sobre os motivos que a fizeram manter a relação após esta agressão. "Eu quase morri nesse aborto, quando aconteceu. Passado um mês e meio, quase morri novamente. O Renato ficou a saber. Eu sei que errei ali um pouquinho, e isso marcou o Renato, isso posso admitir perfeitamente". A empresária recorda que o ex-companheiro terá ficado magoado com uma conversa que aconteceu numa consulta, após terem descoberto que o feto estava morto. "Eu disse 'doutora, eu quero que a senhora faça uma cesariana agora e tire esse bebé morto agora'. Eu acho que o Renato disse qualquer coisa e eu disse para ele ficar calado, que o corpo não era dele. O corpo era meu. Eu vi que aquilo o magoou e achei que o momento de loucura dele tivesse sido por causa disso", conta.

Depois de seis meses de uma mudança de comportamento de Renato, este, recorda a mãe de Victória, voltou a ter comportamentos agressivos. A empresária diz ainda que os filhos mais velhos nunca tiveram uma boa relação com o padrasto. "Eles não gostavam nada dele, tanto que os meus filhos foram parar na CPCJ [Comissões de Proteção de Crianças e Jovens] por causa do Renato", recorda, referindo-se a um vídeo exibido na TVI, em que o ex-companheiro terá tentado agredir um dos seus filhos.

Quando volta a engravidar, a empresária diz que ponderou não levar a gravidez avante. "Foi obra do destino", explica, recordando que o ex-companheiro tinha problemas de fertilidade e que teria de fazer uma cirurgia para conseguir engravidar. Cathiane decidiu terminar a relação com Renato quando estava grávida de três meses. O casal fez um teste de gravidez em março de 2020 e separou-se em maio desse ano. "A participação do Renato na minha gravidez foi zero, foi só de me infernizar a vida". Apesar disso, o ex-companheiro esteve a viver em casa de Cathiane no primeiro mês de vida de Victória. "Eu aí vi que ele não me ia ajudar em nada. A única coisa em que ele ajudava era a dar banho à Victória, mas quando lhe apetecia. Foi quando brigámos novamente, porque eu disse-lhe que estava na hora de ele voltar para casa, que já não gostava dele e que queria seguir com a minha vida".

Após essa conversa, Renato tê-la-á agarrado com força pelo braço, quando estava com a bebé ao colo.  Depois desse episódio, o casal separou-se definitivamente. A empresária nega ainda a versão contada pelo ex-companheiro, que argumenta que só soube da gravidez quando Cathiane já tinha saído de casa.

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Depois dessa rutura, a empresária alega que, de dezembro de 2020 até outubro de 2021, Renato "sumiu". "Ele só mandava mensagens com ameaças mas não tinha qualquer convívio com a Victória". A partir do momento em que a regulação do poder paternal foi efetivada, em maio de 2022, o ex-companheiro cumpriu com todas as visitas, exceto numa ocasião, em que ter-se-á exaltado no estabelecimento de Cathiane, tendo esta impedido que levasse a bebé.

"Para os homens narcisistas, nós somos sempre as putas, as bêbadas e as drogadas"

"Nós temos as nossas discordâncias antigas mas, até àquele dia, tínhamos uma cordialidade normal. Aquela coisa de brigar, do casal, já não tínhamos porque já não estávamos juntos há três anos". Nada fazia prever o que ia acontecer, apesar de alguns "emails para picar" enviados pelo ex-companheiro, alegando que Cathiane tinha relações "com homens casados".

Desde maio, o tribunal havia estipulado que a guarda de Victória ficaria a cargo de Cathiane, tendo Renato direito a uma visita de 24 horas, aos fins-de-semana, de 15 em 15 dias. Antes, de outubro a maio, Renato via a filha em "visitas vigiadas", como recorda a mãe da criança. Após esta decisão do tribunal, Renato enviava um email às sextas-feiras, "a perguntar como está a Victória, se há algumas indicações para o fim de semana", ao qual Cathiane respondia de forma curta e direta, por recomendação da advogada.

No dia 19 de agosto, Renato informou Cathiane que quem iria buscar a bebé seria a namorada."Eu respondi que não, que quem era o pai era ele e que eu não tinha de a entregar a desconhecidos". A empresária garante que a namorada do ex-companheiro não era "da sua confiança" e que essa relação tinha altos e baixos.

No dia seguinte, Cathiane conta que Renato chegou acompanhado pela namorada. "Quando ele veio a criança agarrou-se a mim, não queria ir ao pai. Para a Victória, ele não é o pai, vou ser muito sincera consigo. É uma pessoa que eu acho que não faz mal à Victória mas ela não tem aquela coisa 'é o meu pai'".

Ainda no sábado, 20, Renato envia para Cathiane fotografias da bebé com a namorada. "Parecia que eu ia sentir ciúmes, alguma coisa assim". No dia seguinte, em que Victória deveria voltar para a mãe, Cathiane pede a Renato para entregar a bebé mais tarde, uma vez que tinha passado a noite fora. Após recusa, Cathiane pediu a uma funcionária de confiança para ir para a porta do prédio onde vive, pressentindo que "vinha aí confusão". O reencontro aconteceu na presença dessa funcionária e da filha de 22 anos e também de um dos filhos de Cathiane, que entretanto tinha chegado. "O senhor Renato veio sem a criança e ele alega perante a juíza que, quando chegou a minha casa, viu-me a subir as escadas como se estivesse muito bêbada e que a criança viu tudo. Como é que alguém vem trazer a filha sem a filha?", questiona. "Ele já tinha feito essas alegações anteriormente. Infelizmente, para os homens narcisistas, nós somos sempre as putas, as bêbadas e as drogadas", recorda Cathiane.

Cathiane garante que todos os movimentos deste momento foram captados pelas câmaras de vigilância da sua loja, que fica ao lado do seu prédio. "Ele não tem nenhuma testemunha e eu tenho várias". Na segunda-feira, 22, Renato Lima envia um requerimento, argumentando que só entrega Victória à mãe com uma ordem judicial. "O juiz mandou um documento, a dizer que a argumentação dele não era válida e mesmo que se fosse verdade, no dia seguinte ele era obrigado a entregar [a criança]".

Cathiane revela ainda que o ex-companheiro "vai pingando a pensão" de alimentos a que é obrigado por lei, nunca pagando por inteiro o valor estipulado, 300€ mensais. Questionámos a empresária sobre qual a ocupação atual do ex-companheiro, ao que Cathiane respondeu que Renato "não gosta muito de trabalhar", não sabendo ao certo a sua fonte de rendimento. "Ele tem uma ourivesaria na Trofa, mas está em nome de terceiros. Ele abriu uma imobiliária com outra pessoa mas já fechou, porque essa pessoa diz que ele não gosta de trabalhar", relata, dizendo ainda que o pai da filha tem uma empresa mas que não faz descontos "para não ter o salário penhorado".

Renato Lima e a filha, Victoria, de 21 meses
Renato Lima e a filha, Victoria, de 21 meses

A partir do dia 22, Cathiane deixou de comunicar diretamente com Renato. Inicialmente, através de uma pessoa com quem teve uma relação. "Essa pessoa tentou saber da Victória e tentou passar essas informações para mim". A empresária diz que pediu ao ex-companheiro para ver a filha pessoalmente, mas que este disse que apenas faria uma videochamada. "E que me estava a fazer um grande favor".

A partir de 23 de agosto, Cathiane deixa de saber do paradeiro de Renato e da filha, que terão estado entre Amares e Lisboa. A 8 de setembro, é emitida uma ordem judicial que obriga Renato a devolver a criança à mãe. "Nesse dia vou a Amares, dou o recado ao Renato, que me tinha dito que só entregava a criança com ordem do juiz. Ele diz-me por SMS que tem documentos totalmente diferentes de mim e que os meus documentos são falsos", conta.

A 13 de setembro, Cathiane Lima fala pela primeira vez no programa da TVI "Dois às 10". No dia 15, quinta-feira, Renato decide fazer o contraditório, concedendo uma entrevista ao formato das manhãs da estação de Queluz de Baixo. E é também durante essa emissão que, em direto, afirma que vai entregar a criança na TVI. Nesse dia, envia também um email a Cathiane, reconhecendo a existência da ordem do tribunal e que "está disposto a entregar a miúda", querendo a opinião da ex-companheira. Advertida pela advogada, Cathiane não responde a esse email. "O que é que imaginámos? Ele, na sua loucura — porque eu acho que ele é doido, não tenho problema nenhum em dizer isso — queria vir à minha loja, dar espectáculo, eu ficar com má fama perante os meus clientes... ele queria ainda mais baderna. A minha advogada recomendou-me que a comunicação passasse a ser por advogados".

Na entrevista concedida ao "Dois às 10", Renato Lima alega que a filha estaria subnutrida e que não sabia "o sabor de uma uva". "A Victória tem todas as vacinas pagas por mim. Há dois ou três meses ela estava mais magra porque teve COVID-19, o que é normal. Ela é um bebé prematuro, nasceu com 37 semanas e 2,4 quilos", contrapõe a mãe da bebé, salientando que teve uma "gravidez de risco", tendo estado todo o período de gestação de repouso.

Como está Victória agora? O que vai acontecer?

"Vejo que ela está um bocado insegura", conta-nos a empresária. Diz que a filha está "chorona" mas "bem fisicamente". "Achei-a muito esfomeada ontem, que ia comer este mundo e o próximo. Mas não vou dizer que o pai não lhe deu comida, não vou por aí". Apesar disso, a bebé reconheceu os irmãos, uma das funcionárias da Cathiane e tem-se mostrado faladora e interativa.

Cathiane admite que teme pela própria vida e também pela da filha. "Vamos pedir uma ordem de restrição para ele não chegar nem perto de mim nem da Victória. A minha advogada já vai tratar", revela a empresária.

Com o ex-companheiro livre, a empresária admite que já ponderou vários cenários, como mudar a filha de escola, mudar de casa ou mesmo de cidade. "Estou a pensar o que vou fazer mas é tudo tão recente e há tantos problemas acumulados... o importante agora é suspender as visitas, pedir a parentalidade total, até porque o que ele fez foi muito grave", explica.  Esta quinta-feira, 15 de setembro, Cathiane Lima já fez um pedido de guarda total da filha, algo que, de resto, afirma que Renato nunca se opôs. "Sempre aceitou o que o tribunal e eu quisemos", conclui.

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