Estão trinta e sete graus em Lisboa. Assim por extenso, que é para ser mais dramático. Atravessámos a cidade com os phones a tocar a playlist que Inês Meneses escolheu para a última edição do seu "Fala com Ela" na Radar. E, de repente, Elton John, David Bowie e The XX fazem descer um pouco a temperatura. É isso ou a voz da Inês, melodiosa que só ela, a dar aquele resquício de sensualidade até quando está a pedir uma dourada na peixaria.

Abre-nos a porta de casa e, claro, o gira discos está ligado. João Gilberto é a banda sonora do dia, até porque na vida desta radialista, cada momento tem a sua.

Nas paredes estão Amália, Paula Rego, Zé Pedro dos Xutos, a foto de uma malagueta, um galo de Barcelos, fotografias de viagem, de família e de Nova Iorque. A casa respira histórias ou não desse abrigo a alguém que não vive sem elas.

Ouve-as dos entrevistados do "Fala com Ela", programa que levou agora consigo para a Antena 1, dos muitos questionários que publicou no "Expresso" e das conversas que tem com quem lhe parece interessante. É que, normalmente, é dessas conversas que nascem mais histórias, tipo boneca russa.

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Algumas dessas frases soltas que publicava no Facebook foram agora compiladas em livro pela Contraponto e o "Caderno de Encargos Sentimentais" passou a ser de todos. Não há regra para o ler, até porque não houve regra na escrita. "Como dizia hoje a alguém: somos ricos quando escolhemos aquilo que queremos fazer", escreveu um dia. E Inês é milionária.

O confinamento foi um teste ao amor, ao qual passou com nota 20. E ainda que já saia para comer fora e já tenha dado alguns abraços, é em casa que recebe os convidados. "Agora, tocam-me à campainha e, de repente, é o Herman José". Desta vez, com menos piadas geniais mas — prometemos — a mesma vontade de conversar, é a MAGG quem lhe bate à porta para uma conversa sobre o amor, ou se quisermos usar aquelas "palavras avelhotadas", como lhes chama, a estima.

Quem fala muito de amor, fá-lo porque ama muito ou porque sente falta dele?
Eu faço o programa com o Júlio Machado Vaz [“O Amor é”] há doze anos.

À procura da resposta?
Não, eu sei o que é o amor. Todos nós sabemos, ainda que para cada pessoa seja diferente. No outro dia usei uma palavra que não usava há muito tempo, uma daquelas palavras avelhotadas mas que têm toda a razão de ser: estima. Estimar é amar. Pode ser com um objeto, com um livro que adores, com as pessoas.

Todos somos um e outro, somos o que faz mal e somos a vítima. A vida é circular, o amor é circular. Às vezes és tu que sofres, outras vezes és tu que fazes sofrer, ninguém está a salvo. A não ser que alguém não queira viver, aí não ama.

Falávamos há pouco de como a vida mudou por causa da pandemia. O amor também mudou?
Já começava a haver um caminho traçado que ditava que as pessoas se dessem menos, se amassem menos. Mas espero que dê a volta e que a falta de toque nos dê vontade de amar. Espero que as pessoas escolham viver.

Como viveu a quarentena?
Vivi com o meu namorado [o músico Tozé Brito] intensamente, demo-nos muito bem. Isto pode soar a privilegio, mas foi um tempo maravilhoso. Coincidiu com a saída da Radar e, de repente, fui obrigada a tirar umas férias como não tinha, sei lá, desde os 16 anos. Para mim, para o Tozé e para a minha filha, a Maria Inês, foi muito bom. Divertimo-nos muito a ver filmes, a ouvir música, a cozinhar.

Inês Meneses
O livro "Caderno de Encargos Sentimentais" tem prefácio de Valter Hugo Mãe (9,90€)

Foi um teste ao amor?
Foi. As pessoas estão muito pouco habituadas a passar dias inteiros juntas e é por isso que acontecem muitas separações durante as férias ou em viagem. Mas para nós foi bom. Dormíamos imenso, até me lembro daquela sensação fabulosa de acordar tarde, fazer uma refeição às cinco da tarde e, de repente, já era hora de ver as notícias e, sem dar conta, o dia tinha passado. O não ter nada que fazer foi muito bom.

Escreve no livro: “A música foi o meu salva vidas”. Também o foi nos últimos meses?
Claro. O Tozé é mais velho do que eu e temos por hábito eu mostrar-lhe algumas bandas mais contemporâneas e ele mostra-me as que ele gosta. Claro que coincidimos quando está a dar João Gilberto ou Chet Baker, mas há coisas que eu ouço e que ele diz que não é música.

Há uma banda sonora para cada momento da sua vida?
Sim, desde muito criança. O meu irmão é mais velho e deu-me a conhecer muita música. Ouvíamos cassetes e programas de rádio. O meu pai era fascinado pela Amália e sempre se ouviu muita música lá em casa.

E como se sente no papel de DJ?
Ai, adoro. Sendo que eu nunca digo que ia tocar música. Eu digo vou passar música, que é uma coisa meio anos 80, é como dizer teledisco [risos]. Agora durante a pandemia, descobri o Spotify e tenho feito playlists. Já fiz 36 e hoje vou fazer mais uma.

São temáticas?
Não. Partem sempre de uma música e construo a partir daí. Por exemplo, quando fui fazer a última emissão, espera lá, eu quando digo “a última emissão” soa a Eunice Muñoz a dizer “a última emissão” numa cena dramática [risos]. Mas quando foi essa última emissão na Radar, a única música que tinha pensado passar foi mesmo a última [da banda sonora de "Six Feet Under"], o resto surgiu na hora.

E uma pessoa que faz tantas perguntas, como se sente no papel de entrevistada?
Adoro. O que eu gosto é de conversar e, por isso, tanto me faz estar aqui ou aí.

Mas o ímpeto é sempre perguntar?
Claro, a pergunta é o motor da vida. A vida é uma questão contínua e, por isso, temos que querer saber o que está para além da porta, o que é que nos espera daqui a pouco, como é que vai ser o dia amanhã. A vida é uma eterna pergunta e eu sou fascinada por isso.

Essa curiosidade pode deixar os outros desconfortáveis?
Eu tenho um limite e percebo com quem estou. Se percebo que a pessoa tem barreiras, eu não vou para além do que acho decente e digno.

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Como é a sua prática de escrita?
Todo este livro resulta de coisas que eu fui escrevendo no Facebook, mas normalmente escrevo na hora, muitas vezes no telemóvel. Mas o que eu gosto é de estar numa situação e, daí, construir uma pequena história. Muitos pensamentos nasceram aqui sentada a almoçar ou quando ia almoçar sozinha a um restaurante. Ver o que se passa à volta é muito inspirador.

E como é que se lê este livro?
Não há regras. Também não tive regras para o escrever. Isto foram anos de pensamentos escritos no Facebook. Qualquer página que abra faz sentido.

E fazem-lhe todas sentido agora?
Sim, sem dúvida, revejo-me em tudo. O meu maior medo era reler e pensar: “E se eu não me revejo?”, “E se eu não sou a mesma?”. Mas bate tudo certo e as minhas pernas, que estavam prestes a tremer, já não tremeram. Era eu a mesma.

Escreve os pensamentos no telemóvel. É muito agarrada a ele?
Sim…

Diz isso com um ar frustrado.
Sim, acho que nenhum de nós gostava de ser tanto. Se estou a ver um filme, deixo-o afastado durante muito tempo. Portanto, é grave, mas a gravidade não é assim tanta. Mas a verdade é que acordas e o mundo está aqui todo.

E então “para onde ia a solidão quando não tínhamos telemóveis e iPads” [frase com que abre o livro]?
Ia para as conversas, para os cafés. E, sem sabermos, a coisa com a pandemia piorou, até parece uma maldição. Vamos lá ver que seres humanos vamos ser depois disto. Será que vamos ter interesse em sair para estar com os outros? Eu acho que sim.

Há coisas que não se apagam em quatro meses.
Claro que não. Tenho ido jantar fora e já dei muitos abraços. Quero viver sem ser em paranóia, sem ser numa bolha. Temos que enfrentar isto. Quando saio à rua desinfeto as mãos 15 vezes, estou de máscaras, lavo as mãos não sei quantas vezes. Não posso fazer mais.

E usa o telemóvel também para ouvir música?
Ouço música em todo o lado. Telemóvel, gira discos, na cozinha, no quarto. Nem sou daquelas mega cuidadosas com os discos, os meus têm dedadas. Malta, isto é para gozar.

Gosta de música e de palavras e consegue viver dessas duas paixões. É uma privilegiada?
Muito, sobretudo nesta altura, por não ter perdido trabalho. Faço o que gosto e isso é um prazer. É que eu adoro as coisas todas que faço. Adoro estar aqui, adoro as pessoas que vou conhecendo e raramente entrevistei alguém que considerasse um estafermo, até porque também convido quem gosto, nisso estou bem defendida.

Agora, é verdade que as pessoas acreditam que ganhamos muito dinheiro. Não é verdade, ganha-se muito mal. É por isso que eu amo rádio e quero fazer rádio até ao fim da minha vida, mas não quero que a minha filha seja uma radialista.

Apesar de ter nascido em Lisboa, cresceu em Vila do Conde. Ainda volta lá muitas vezes?
Agora menos por motivos óbvios. Mas adoro ir ao Porto e a Vila do Conde e rever os amigos de que tenho há trinta anos.

Inês Meneses
"Tenho a sorte de as pessoas serem muito elogiosas comigo"

Há coisas de lá que vieram consigo?
Eu, na verdade, sou lisboeta, porque nasci cá e só depois é que os meus pais foram para o norte. E se fizermos as contas já vivo cá há mais anos do que os que vivi lá. Se me dizem que sou do norte, ok eu sou do norte. Se me dizem que sou lisboeta, ok eu sou lisboeta. Sou de onde puxarem. Mas o que eu acho que ficou do norte foi o humor, que é muito mais direto e mordaz e quase ofensivo.

Lembro-me de há uns tempos receber um músico do norte no "Fala com Ela", que não sabia bem ao que vinha. Eu faço a minha introdução, como faço sempre e ele vira-se: “Ui – com aquele 'ui' bem típico lá de cima – isto parece coisa de psicóloga” [risos]. E eu pensei que ninguém de Lisboa diria aquilo daquela forma. Aquilo veio-lhe à cabeça e ele disse. Ou como aquela amiga que entra na minha antiga casa e diz: “Ui, tu tens tão pouca mobília”. É tão genuíno, adoro. Lisboa é muito mais fiteira. Não é por acaso que havia aquela coisa do “Lisboa não sejas francesa”, e a verdade é que sempre foi mais chique. Lisboa é muito mais cosmopolita, ainda que o Porto agora esteja também ao rubro. Mas vais a alguns sítios em Portugal e pensas: "Ui, isto também é Portugal."

Foi em Vila do Conde que começou a fazer rádio. Já voltou a ouvir as suas primeiras emissões?
Não, mas adorava. Nunca me tinha lembrado disso, mas seria giro ver que pessoa era, que voz tinha.

Essa voz é trabalhada?
Não, mas com o tempo ficou mais doce. Lembro-me de o meu irmão (o jornalista João Paulo Meneses) me dizer que eu era muito séria, e foi aí que comecei a sorrir mais com a voz. Mas se aos 16 anos o meu irmão me disse que eu tinha uma voz boa para rádio, algo que não me ocorreria, é porque ele já via algo em mim.

Já foi reconhecida pela voz?
Muitas vezes. Apesar de não ser muito conhecida, sou bastante abordada na rua. Mas são coisas que me escapam, porque, para mim, a minha escala é sempre pequena.

E como reage?
Reajo com graça. Habituei-me a movimentar-me em nichos, então para mim é sempre uma surpresa. Então agora, quando estou com o Tozé [Brito] e alguém se aproxima eu acho sempre que é para falar com ele, mas depois chegam e dizem: “Ai, eu adoro o ‘Fala com Ela’”.

Tenho a sorte de as pessoas serem muito elogiosas comigo. Mas eu também escolho aquilo que quero ouvir, escolho os comentários que quero ler, escolho as pessoas que quero perto de mim. Se percebes que alguém não te faz bem ou que não te traz boa energia, fica pelo caminho. Tenho a certeza que também já fiquei pelo caminho de alguém.

O meu campeonato não é ser a Madre Teresa, que pelos vistos também tinha imensos defeitos. Mas era magra, a sortuda.

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