Há quem defenda que o Dia Internacional da Mulher (ou simplesmente Dia da Mulher), que se celebra esta quinta-feira, dia 8 de março, é importante devido à chamada de atenção para vários temas que ainda dividem homens e mulheres, como a desigualdade salarial, por exemplo.

Por outro lado, com cada vez mais marcas a associarem-se a este dia com descontos ou ofertas especiais para mulheres, esta data pode ter ganho uma dimensão comercial e banal, como o Dia dos Namorados.

“O Dia Internacional da Mulher é celebrado em muitos países. É um dia onde as mulheres são celebradas pelas suas conquistas, independentemente da sua nacionalidade, etnia, cultura, tendências políticas ou contexto sócio-económico. É também uma ocasião para relembrar lutas passadas e, mais importante, um dia para percebermos as oportunidades e potencial das futuras gerações de mulheres.”

Acredito que este dia tem importância como tomada de consciência."

Esta é a descrição do Dia Internacional da Mulher, que se pode ler no site oficial das Nações Unidas. Celebrado oficialmente a 8 de março a partir do ano de 1975, este dia surgiu no início do século XX, no contexto da Segunda Revolução Industrial e da Primeira Guerra Mundial, quando ocorre a incorporação de mão-de-obra feminina no operariado.

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“O Dia da Mulher foi uma referência da História. É o marco simbólico comemorativo de direitos que as mulheres alcançaram no passado, e que, supostamente, já seriam dados adquiridos nos nossos dias. Mas não são e estão longe de ser. Continuamos a debater-nos por um lugar ex aequo ao lado dos homens”, conta à MAGG Carla Lopes, fundadora do projeto de empreendedorismo social Mulheres à Obra, uma plataforma de partilha e cooperação entre mulheres.

No âmbito do Dia Internacional da Mulher, a Emirates destaca o papel importante desempenhado pelas suas colaboradoras.

Neste vídeo, é possível vermos os bastidores daquele que é o trabalho desempenhado pelas mulheres em todas atividades-chave realizadas para a preparação do voo EK 225, com partida do Dubai para São Francisco (no total, foram 75 mulheres a contribuir para este voo da Emirates). O avião A38 foi comandado pela Piloto Patricia Bischoff, do Canadá, e pela Comandante Rebecca Lougheed, do Reino Unido, com a tripulação de cabine liderada pela Comissário de Bordo Weronica Formela, da Polónia.

Além da tripulação de voo, todas as funções, desde o início até à partida do voo, foram inteiramente asseguradas por uma equipa constituída exclusivamente por mulheres.

Carla Lopes considera esta dia "uma fachada". "É um presente’ que nos foi dado para nos calar e remeter ao nosso, receio bem, eterno papel secundário”. Já Paula Cosme Pinto, ativista e cronista da coluna do Expresso “A Vida de Saltos Altos”, considera que este dia continua a ser necessário, mas não como uma data de celebração.

“Acredito que este dia tem importância como tomada de consciência para a desigualdade histórica que afeta as mulheres até aos dias de hoje, mundo fora, mesmo nos países ditos desenvolvidos”, afirma a cronista.

O tema da igualdade de género é hoje comum e muito presente, mas, para Paula Cosme Pinto, esta ideia ainda é uma utopia e há que começar pela mudança de mentalidades e jogos de privilégios. “Da violência doméstica à disparidade salarial, do tráfico humano ao casamento infantil, da mutilação genital à objetificação do corpo feminino, da privação de liberdade individual aos direitos de cidadania, há muito, mesmo muito para ser feito”, afirma.

“Esta data só me faria sentido se, a cada dia 8 de março, conquistássemos mais um direito, até os conquistarmos todos.”

“Para mim, faz sentido comemorar o Dia da Mulher, é um dia em que celebramos as conquistas passadas mas também as contínuas, do nosso do dia-a-dia”, afirma à MAGG Sara Rodrigues, antropóloga.

“As mulheres ainda enfrentam as chamadas duplas, triplas, eu chamo-lhes múltiplas jornadas. Temos de ser excelentes profissionais, mães, mulheres, cuidadoras e já agora, se formos bonitas também ajuda. Este dia continuará a fazer sentido enquanto uma mulher for considerada má profissional por engravidar ou péssima mãe porque trabalha imenso”.

Os ‘donos do mundo’ continuam a ser maioritariamente homens."

Carla Lopes discorda: “A existência deste dia não me faz qualquer sentido, porque o simples facto de ele ainda existir só demonstra que a luta continua. Demonstra que, no contexto social-económico-laboral do século XXI, com tantos progressos no campo da tecnologia, medicina, etc., ainda há tanto por alcançar para um dia-a-dia com direitos iguais. Muitos desses direitos ainda estão por ser integralmente aplicados em tantas entidades patronais e nas próprias nações e sociedades pelo mundo fora”.

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Na opinião da fundadora do projeto Mulheres à Obra, a existência do Dia da Mulher demonstra que, no resto do ano, o mundo continua a ser paternalista. “Os donos do mundo continuam a ser maioritariamente homens. Esta data só me faria sentido se, a cada dia 8 de março, conquistássemos mais um direito, até os conquistarmos todos. Porque, para sermos iguais, o dia 8 de março deveria ser mais um dia na vida de Homens e Mulheres”.

O que é preciso (ainda) mudar

“Estamos longe de viver num mundo igualitário e, se durante muitos anos essa norma quanto às formas de estar e dos estereótipos dos papéis associados a cada género foi aceite, hoje é cada vez mais gritante a necessidade de mudança”, refere Paula Cosme Pinto.

Na opinião da cronista, existe um problema à escala global, que tem por base uma cultura misógina profundamente enraizada, que tem de ser assumido e perceber que este é um problema que afeta homens e mulheres.

“Se a necessidade de igualdade de tratamento, oportunidades respeito e dignidade não é por si só um facto totalmente válido para esse clique acontecer, então pensemos em números: um mundo mais par é um mundo mais equilibrado e justo, e todas as estatísticas e grandes estudos mostram-nos que esse equilíbrio é essencial para e evolução, principalmente a económica.”

As portuguesas com mais de 65 anos ganham menos 43,4 por cento do que os homens — estes foram dados revelados pelas investigadoras Sandra Palma Saleiro e Catarina Sales de Oliveira, no livro "Desigualdades Sociais – Portugal e a Europa", lançado no passado dia 7 de março.

“Enquanto mulheres e homens não forem vistos como pares enquanto cidadãos, seja em Portugal ou na Arábia Saudita, cada um com os seus respetivos desafios, então este dia será necessário. Quando ele deixar de existir significa que a igualdade é uma realidade”, conclui Paula Cosme Pinto.

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