É numa espécie de cantinho, a média luz e numa mesa pequena que Paula Lobato de Faria traz as histórias do passado para o presente. Mesmo durante o dia chega a ligar as luzes, sempre baixas, para que qualquer luz maior não interfira entre si e a sua fonte criativa.

Foi neste ambiente que escreveu "Tundavala", o romance sobre os últimos anos da ditadura e sobre a liberdade (ou falta dela) das mulheres, que chegou às livrarias a 7 de dezembro. Encontrámo-nos com Paula, para uma conversa intensa e inspiradora, mas com o tempo contado porque de seguida tinha de voltar para os seus alunos para dar uma aula na área de Direito da Saúde que leciona na Universidade Nova de Lisboa.

Não gosta de fotografias, razão pela qual o momento da recolha da foto foi um dilema. Qual o melhor ângulo, será que os olhos tinham ficado fechados, onde colocar as mãos? Mas ao fim de alguns flashes, o fotojornalista da MAGG acertou no enquadramento e Paula ficou satisfeita.

O livro Tundavala é da editora Clube do Autor (P.V.P 17€)

O que ainda não a satisfez foram os dois livros que já lançou: "Imaculada" e "Tundavala". São apenas dois da saga que vai continuar uma linha temporal até depois do 25 de abril, cujos próximos personagens vão aproximar-se mais da escritora. "Até aqui não tiveram nada a ver comigo enquanto pessoa", diz à MAGG.

Tundavala fica em Angola, mas ocupa as estantes das livrarias portuguesas como um espelho dos tempos vividos pela mãe de Paula Lobato de Faria. É de certa forma um retrato de uma história que a autora só veio a descobrir por volta dos seus 20 anos.

Não nos podemos alongar em pormenores, porque as semelhanças entre a história da mãe da autora e a narrativa do livro podem levar a que façamos algum spoiler.

A escrita deste livro é como um refúgio de um período que marcou a sua vida: a morte de um dos dois filhos. O que é que se passou?
Aconteceu em 2016 quando o Vicente, na altura com 24 anos, sofreu uma paragem cardiorrespiratória durante um jogo de futebol com os amigos. O facto de ter sido reanimado tarde fez com que entrasse em morte cerebral, acabando por morrer dias mais tarde no Hospital Santa Maria.

Padre Paulo Duarte. "Eu também sofro, eu também me zango, e até já me zanguei com Deus"
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Já no fim do livro diz: "Quer queiramos quer não, todos nos encontramos mais cedo ou mais tarde à beira do precipício". É apenas narrativa ou é mesmo a forma como vê a vida e a nossa passagem?
Acho que de facto estamos sempre à beira do precipício. Mas podemos nunca cair nele. Quando caímos é completamente inesperado, é uma sensação de que de repente toda a nossa vida, tudo aquilo que construímos, pode desaparecer. Eu tenho mesmo esta noção. Mas isto pode não acontecer a toda a gente. Porque, aliás, a dada altura, digo uma frase em que um dos personagens diz: "Há vidas que são como relógios suíços". E de facto acho é que é muito díspar, é uma tômbola.

E como é que fugimos?
Não podemos. Ou seja, há algumas situações que a experiência, a literatura, a ciência, nos dizem que são de evitar. Por exemplo, namorar com pessoas comprometidas. Não leva a bom porto estatisticamente. Mas às vezes há pessoas que fazem tudo certo e de repente cai-lhes tudo em cima, a vida desaba completamente.

Foi essa mensagem que tentou levar para este livro? 
O que me levou a escrever este livro, foi também o que me levou a escrever a "Imaculada". É narrar um Portugal esquecido que neste momento corre o risco de se perder completamente. E não é o Portugal onde eu vivi. É o Portugal onde viveram pessoas antes de mim. O primeiro livro começa a narrativa de uma história que tem a ver com uma mulher, como muitas naquela altura, que não eram donas do seu destino. Casavam obrigadas, não sabiam absolutamente nada do que se passava em termos políticos no País, não conversavam com elas como seres adultos. Depois quando escrevi o primeiro livro tive a ideia de fazer uma saga onde acompanhasse alguns personagens, e outros que vão aparecendo, através da Historia de Portugal. Um passado não muito longínquo, mas que está a ficar esquecido.

Porque é que acha que a história do País está a ficar para trás?
Porque é impossível as novas gerações saberem o que é que se passou. As pessoas que nasceram no final do século XIX deram alguma memória às que nasceram no principio do século XX e quem nasceu no meio deste século teve a memória dos avós, etc, que neste momento está a perder-se. Se nós não falarmos sobre o 25 de abril, passa a ser um testemunho apenas através das revistas e dos livros e não vivo.

Foi por isso que decidiu escrever este livro?
Ao escrever o "Tundavala", posso dizer que para além de dar a conhecer o que me fascina, estou a dar a conhecer uma realidade que eu não conhecia. A minha família não foi para África, não vivi o facto de ter um familiar que morreu na guerra e sei que houve um sofrimento enorme. Portanto, este foi um livro em que eu tive de investigar imenso.

Porquê "Tundavala" e não outra região de Angola?
Tundavala aparece como um lugar místico, ou seja, é um lugar que é considerado um pouco mágico e é onde um dos personagens vai encontrar-se, digamos, com os pais que ali morreram. Depois porque era um sitio muito bonito e porque é um abismo. Vivemos todos à beira do abismo e é um bocadinho essa a ideia: um abismo muito bonito e mágico. Achei que a fenda da Tundavala completava o tipo de local que eu pretendia usar numa parte ou duas do livro.

Onde é que escreve os seus livros?
Em casa, normalmente quando tenho férias ou fins de semana para não sentir que estou em pressão de trabalho ou que estou a tirar tempo aos meus alunos, porque dou muita importância às minhas aulas. Tenho de saber que vou ficar algum tempo em frente do computador, ou então a ler e a pesquisar livros sobre o assunto. E eu podia escrever na sala, mas gosto de escrever no escritório, onde tenho uma espécie de cantinho, onde a pessoa parece que tem uma certa proteção.

Quando começou o "Tundavala"?
Quando a minha mãe me contou uma história da vida dela que me fez pensar que as pessoas nos anos 50 não eram donas do seu destino, sobretudo as mulheres. E aquilo fez-me muita confusão. Eu pensei: 'Que horror que deve ser a pessoa estar apaixonada por alguém e ela por nos e não podermos casar porque a família não concorda.

Foi essa a história que a sua mãe contou?
A história da minha era um bocadinho de uma paixão que ela tinha tido, que eu não sabia, e que tinha sido de certo modo descartada pela família. Na altura eu tinha 20 e poucos anos e tocou-me imenso.

Fala muito das liberdades das mulheres. Revê-se nessas mulheres?
Não, não tenho nada a ver com elas. Eu já sou de uma geração que vive tudo. Sou uma filha do 25 de abril. Fazíamos tudo. Eu fiz tudo o que os meus filhos fizeram. A escrita é ligeiramente conservadora e às vezes não dá bem ideia de quem eu sou. Mas também não quero.

Mas conservadora em que sentido?
Talvez não arrisco muito. Sinto que sou capaz de arriscar mais. Eu vou-me identificar mais com as próximas personagens da saga.

Escrever sobre o passado acabou por ser um refugio do presente? 
Eu andei sempre a fugir até ser escritora. Licenciei-me em Direito, sou professora universitária na Universidade Nova, e no fundo o Direito é uma perfeita armadura, porque uma pessoa não é a lei. Há um contributo pouco subjetivo quando se está a interpretar a lei. É algo que é feito com uma técnica. Não sei até que ponto não me escondi um bocadinho atrás da jurista. Estou a questionar-me neste momento se de facto não me estarei a refugiar-me no passado. Mas eu tenho intenção de escrever no presente. Acho que tem a ver com esta minha intenção de escrever uma saga e como tal eu tenho que ir aos poucos. Tenho muita vontade de entrar na parte contemporânea, se bem que é mais difícil de interpretar a realidade. Mas pode ser uma escrita diferente.

Os livros também a ajudaram a lidar com a morte do seu filho?
Quando o meu filho Vicente morreu, esta tragédia em que do nada houve um episódio que não se esperava, é a razão pela qual eu digo que estamos sempre à beira do precipício. Nunca na vida imaginei que me pudesse acontecer algo tão terrível. Até porque a minha irmã também perdeu um filho já em 1990 e pensei que estatisticamente já não pudesse acontecer. Mas por causa de não haver um desfibrilador no campo de futebol, o Vicente foi reanimado tarde e ficou em morte cerebral. Eu senti que, para continuar a viver, tinha obrigatoriamente de fazer algo de que eu gostasse muito e que me desse uma sensação de ser eu, de grande identificação.

E isso estava nos livros?
Sim. De facto quando eu escrevo, sinto que estou a fazer algo que é uma alquimia incrível. E eu adoro ler também. No meu primeiro livro digo que os livros já me salvaram a vida varias vezes. E eu sinto que já me salvaram não só em termos de auto-conhecimento, por exemplo, ajudar nas crises de ansiedade, mas também me salvaram a vida, porque quando o Vicente morreu eu tinha de estar sempre a ler. Quando tudo aconteceu, lembro-me que tinha saído há pouco tempo uma quadrilogia da Elena Ferrante
e só de pensar que eu tinha quatro livros para ler, foi uma espécie de sensação de alívio. Eu pensei: "Enquanto estiver a ler estes livros eu vou sobreviver". Na altura era uma questão de sobrevivência.

Fez uma referência nas redes sociais sobre o facto de o seu livro estar ao lado de outro, também recente, da autoria de Isabel Allende. O que é que isso representou para si?
Fiquei muito emocionada. Eu nunca tinha lido Isabel Allende até o meu filho morrer. E depois quando acontece isto, eu leio a Allende, a "Paula", em que a filha dela morreu com 29 anos. O meu filho tinha 24. E quando ela percebeu que era muito grave, fez a mesma coisa que eu: deitar-se para o chão. Eu também me deitei para o chão quando cheguei ao hospital e percebi que era muito grave. E eu senti-me tão acompanhada por ela naquele livro. Ela era uma escritora como eu queria ser, tinha perdido uma filha e estava a ajudar-me a perceber o percurso que tinha de fazer, o meu luto. Quando vejo de repente, numa montra da Bertrand na Avenida de Roma, o meu livro ao lado do da Isabel Allende foi quase como se me estivesse a dizer qualquer coisa. Algo como "Paula, estás a conseguir. Estou aqui ao teu lado a ajudar-te. Sou uma escritora afável e que, no fundo, não te conheço, mas estou aqui". Foi uma coisa muito estranha, simbólica. Como dizia o meu pai: "Se não é verdade, é bem conseguido".

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