Quatro paredes, um teto e uma porta. É este o cenário que compõe a área total do espaço através do qual o humorista Bo Burnham se movimenta no seu novo especial de comédia, "Inside", lançado este domingo, 30 de maio, exclusivamente na Netflix. Paralela à dor da reclusão, a ideia de que, para lá da porta de casa que o separa do mundo exterior, não há vida na cidade deserta e confinada devido aos efeitos da pandemia.

Neste novo especial de comédia, que escreveu, protagonizou, realizou e produziu sozinho, Bo Burnham propõe-se a um exercício de reflexão, que talvez sirva como escape ou catarse de tempos conturbados, sobre as vicissitudes de existir confinado. A forma visceral como o faz despertou a atenção da crítica internacional, que se multiplicou em elogios e recomendações. Não demorou muito até que, em Portugal, também o formato começasse a ser elogiado.

É pelo contexto em que foi criado, e acima de tudo pelo registo com que Burnham se apresenta, que Nuno Markl diz, à MAGG, que "chamar a isto um especial de comédia é muito redutor". E até enganador.

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"Aquilo é uma experiência, uma peça de arte muito imaginativa e que provavelmente ficará para a História como um dos melhores exemplos daquilo que foi a arte da pandemia, porque é disso que se trata: de alguém que está fechado em casa, como todos nós estivemos e que, no caso dele, tem um requinte de malvadez muito específico", explica o radialista.

Nuno Markl refere-se à decisão de Burnham fazer, em meados de 2016, uma pausa na comédia depois de vários anos a sofrer ataques de pânico durante os seus espetáculos. "Quando finalmente se sentiu pronto para voltar [aos palcos], aconteceu isto", referindo-se ao surto da COVID-19, que atravessou fronteiras. O espetáculo, tal como o podemos ver no catálogo da Netflix, é, para Markl, o que permite "perceber o quão imaginativo Burnham é enquanto artista" — não só no conteúdo, mas também na forma.

"Assim que o especial vai avançando, vamos rindo menos e refletindo mais"

"Trata-se de um homem que está a usar a sala de sua casa, cujas luzes controla sozinho, assim como as projeções para ter cenários diferentes em vários momentos. O conteúdo passa por acompanhar o estado crescente de confusão, depressão e desagregação da mente de um artista", continua Nuno Markl.

É que embora "Inside" arranque com aquilo que já se conhece de Bo Burnham, ou seja, boa comédia e sátira através de canções, o radialista salienta que, "à medida que o especial vai avançado, assiste-se à desagregação do artista no meio da pandemia, à angústia de estar sozinho e ao confronto inevitável com os seus problemas".

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créditos: Netflix

"Assim que o especial vai avançando, vamos rindo menos e refletindo mais, entrando numa espécie de catarse juntamente com ele. Como qualquer boa arte, este 'Inside' é uma coisa que nos toca no mais profundo que há em nós e nos faz pensar na nossa vida. Ri-me muito com as piadas, mas também fiquei bastante contagiando pela angústia que lhe vem das entranhas", conclui Markl, que elogia o produto final e a forma como foi editado e realizado para caber em pouco mais de uma hora e 27 minutos.

Para o argumentista Frederico Pombares, o "génio" de Bo Burnham, tal como o descreve à MAGG, explica-se pela conceção da ideia de um "artista que não se aguenta a ele próprio". Se, a isso, juntarmos um contexto pandémico e de confinamento, o resultado "só poderia ser uma coisa boa", explica.

"Os artistas são pessoas carentes de palmas e de público e ele não tem esse feedback imediato"

"[O especial] é uma coisa boa, intensa e, ao mesmo tempo, assustadora, porque nota-se que há ali problemas. Mas aquilo é, claramente, um artista que consegue fazer mil e uma coisas com as quais está extremamente à vontade e que as usa para purgar o que tem na cabeça. Bo Burnham, que celebrou 30 anos durante o espetáculo, faz precisamente isso e fá-lo bem", refere Pombares.

Descrevendo-o como um artista completo, na medida em que canta, toca, realizada, produz e representa, o argumentista diz que a diferença deste "Inside" face aos anteriores trabalhos de Burnham é a "insanidade que surge misturada" nesta receita. "Os artistas são pessoas carentes de palmas e de público e, neste caso, ele não tem esse feedback imediato. Faz sozinho, confiando na qualidade dele próprio, e isso, nota-se, cria algum desespero".

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Para o espectador, o resultado é "magnífico", já que temos acesso a alguém que, "dentro de uma sala, consegue fazer mil e uma coisas" sem qualquer equipa de produção a ajudá-lo ao longo de todo o processo. "Também há um lado muito curioso do artista neste especial em que o vemos ficar refém do próprio espetáculo", diz Frederico Pombares.

"Se é verdade que se, a certa altura, se queixa de estar há muito tempo a prepará-lo, chega um momento em que fica com pena de lhe pôr um fim e o dar como terminado. Isto é muito próprio deste tipo de malta mais criativa que faz disto vida para purgar alguns problemas e algumas carências", conclui.

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