Quando Pedro Miguel Queirós pega na caneta para escrever, passa a ser Raul Minh'alma, o heterónimo que usa em contexto profissional e que serviu para assinar seis livros de diferentes géneros. Primeiro, começou pela poesia; depois tentou o romance e percebeu que ainda não tinha experiência o suficiente para se "instalar", palavras suas, num género a que haveria de voltar mais tarde. Continuou a carreira apostando em livros de pensamentos soltos, organizados por capítulos, como "Larga Quem Não te Agarra", uma coletânea de 500 textos, que fizeram dele um dos autores mais vendidos em Portugal, em 2017.

O livro seguinte, "Foi Sem Querer Que Te Quis", marcou o regresso de Minh'alma ao romance e fez dele o autor mais vendido em Portugal em 2019. Agora tem um novo trabalho chamado "Durante a Queda Aprendi a Voar", editado pela Manuscrito, e que, diz o próprio, aposta numa componente de superação e autoajuda. O título, que é sempre dado a liberdades criativas de um escritor, pode não ser biográfico — até porque o próprio diz não escrever sobre si —, mas a história de Pedro Miguel Queirós, a pessoa por detrás de Raul, é igualmente feita de quedas e voos.

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A morte do pai, aos 12 anos, arrancou-lhe das mãos uma infância que hoje reconhece ser típica das crianças. Enquanto os outros brincavam, Pedro tinha de trabalhar com a mãe para ajudar no sustento da casa. Talvez por isso não lhe seja estranho ouvir pessoas dizer que, depois de lerem os seus livros, denotam uma "alma velha" em Raul. "Obviamente que a minha infância teve muita influência nisso, muito devido às peripécias que me foram acontecendo", diz em entrevista à MAGG.

No entanto, garante que não foi uma "vida difícil". "Não passei fome, por exemplo. Não tinha abundância, mas não tinha fome. Não tinha a roupa que queria, mas tinha a roupa dos meus irmãos mais velhos. Tudo isso mostrou-me que tinha de trabalhar, talvez o dobro daquilo que os outros trabalhavam, para ter o que queria", continua.

E Pedro Miguel Queirós foi trabalhando diariamente. E ainda hoje o faz, escrevendo arduamente e gerindo as suas redes sociais de forma constante e regular para que não se esqueçam dele. "Todos os dias preocupo-me com escrever e em publicar nem que seja uma frase nas minhas redes. Sinto que se não o fizer durante um dia ou dois, ninguém se lembrará de mim ao terceiro dia. Gosto de ter esta pressão positiva que me obrigue a manter em movimento e a inovar sempre, de livro para livro. Porque se me acomodo, o público percebe e começo a morrer."

Em entrevista à MAGG a propósito do seu novo livro, o escritor fala ainda como olha para o seu sucesso, tentando encontrar explicações possíveis para o fenómeno, e não tem dúvidas de que a crítica literária nunca o premiará pelo seu trabalho, muito devido ao tipo de histórias que conta e que o público identifica como serem de amor.

O escritor, no entanto, prefere o termo "histórias de desenvolvimento pessoal" em que o amor serve apenas para agarrar o leitor como mecanismo narrativo.

Embora tenha sido uma desilusão amorosa que o levou a começar a escrever, já afirmou não escrever sobre si. É mesmo assim?
Uso as personagens para, de certa forma, transmitir, talvez, os meus pontos de vista ou as minhas ideias. Normalmente costumo construir uma personagem, que pode ser um sábio, por um exemplo, e que uso como uma espécie de marioneta e como veículo principal para não falar na primeira pessoa e não me armar em sábio. Essa personagem fala com as outras da história, mas, na verdade, dirige-se ao leitor. Nesse sentido, talvez se possa dizer que na forma de pensar dessas pessoas está a minha forma de ver o mundo porque não consigo pôr as minhas personagens a dizer coisas com as quais não concorde. Concedo que aí, sim, possam estar traços do Pedro. Em termos de personalidade, não há nenhuma personagem que tenha criado e que se assemelhe a mim.

Raul Minh'alma.

Há muito esta ideia, quase romantizada, de que o autor é expurga demónios através da escrita. Não põe a sua personalidade nas personagens porque não olha para a escrita como uma catarse?
De todo. A escrita é feita sempre a pensar no leitor, na humanidade e até numa consciência global. Não é a pensar em mim ou na minha forma de ser. Quando uma pessoa pega num livro, no fundo só quer saber mais sobre ela mesma.

Será sempre assim?
Mesmo que ela não saiba disso ou não tenha consciência dessa vontade, acredito que quando alguém pega num livro, fá-lo porque quer saber mais sobre si e não sobre quem o escreveu. A não ser que se trate de uma biografia, mas aí já sabe exatamente ao que vai. Mas gosto que cada pessoa que pegue nos meus livros chegue ao final e se conheça ainda mais sem se aperceber disso. É por isso que o meu foco está sempre no leitor e nunca em mim.

A escrita como catarse nunca se colocou?
Talvez no início, durante a fase da desilusão amorosa, para desabafar. Talvez seja por aí que começamos todos a escrever. Aconteceu no meu primeiro ou no meu segundo livro, mas a partir daí comecei a focar-me nos outros, que precisam mais do que eu.

O público feminino e as histórias de amor

Consegue identificar qual o público que, nas suas palavras, precisa de o ler e que acompanha os seus trabalhos?
Mais de 90% do meu público é feminino. Seria um erro, de ponto de vista de marketing, pensar noutro público. Independentemente disso, o livro é para toda a gente que quiser encontrar em si uma força maior porque todos nós passámos por fases menos boas da nossa vida. E este livro em concreto ["Durante a Queda Aprendi a Voar", o seu mais recente trabalho] não está focado para nenhum género e, portanto, é dedicado a pessoas que queiram reencontrar-se. Mas estando catalogado como romance, à partida será lido e mais comprado pelo público feminino, embora fizesse também sentido a muitos homens que, à partida, o vão descartar por ter esse rótulo de que o romance é mais dedicado a mulheres. Não é algo que alimente, ainda assim.

Tenho dúvidas de que o romance, enquanto género, seja pensado para mulheres...
O romance romântico, digo. Com histórias de amor.

Mas já disse que não escreve sobre amor e sim sobre relacionamentos. É ou não tudo a mesma coisa?
Tenho sempre uma história de amor, mas acredito que, acima de tudo, os meus livros são sobre desenvolvimento pessoal. Não são só histórias de amor e elas estão lá porque fazem parte da vida, mas também porque criam uma trama. A história de amor serve para entreter o leitor, mas lá pelo meio tenho sempre uma personagem com um problema qualquer e que precisa de o resolver. No final da narrativa, se calhar o leitor ficou a conhecer uma história de amor, mas aprendeu sobre uma série de coisas novas.

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Já disse que, mais do que escritor, prefere identificar-se como um criador de personagens e de universos fictícios. Porquê?
Não fico ofendido se me disserem que não sou um escritor, mas sim um contador de histórias porque o meu foco é na história. Não pretendo que cada frase soe poética ou que fique no ouvido. Foco-me, sim, na mensagem que estou a passar com o meu livro. Por isso não posso escrever qualquer história que saiba de antemão que vai vender muito se não acreditar nela, ou que passe uma mensagem que considero ser errada.

Costumo dar muito este exemplo: imagine uma história em que, num casal, uma pessoa desaparece da vida da outra e passados 20 anos a que foi deixada continua à espera que o parceiro regresse. Se este regressar e depois ficarem felizes para sempre, a mensagem que estaria a passar ao meu público é que seria aceitável desperdiçar uma vida inteira à espera que quem abandona porque acaba sempre por compensar. Não conseguiria escrever uma coisa dessas. Acredito que o grande propósito da literatura é deixar este mundo um pouco melhor.

Ainda agora disse que não está preocupado em escrever frases que soem poéticas ou que fiquem no ouvido, mas a verdade é que as suas publicações no Facebook, por exemplo, têm muitas reações e são apenas compostas por frases publicadas sem contexto, quase como dizeres.
As minhas publicações no Facebook são dentro do mesmo registo daquilo que se encontra nos meus livros. Defendem as mesmas ideias e as mesmas temáticas. Este último livro é sobre superação e as publicações nas redes sociais vão muito nesse sentido. O estilo de escrita é o mesmo, portanto, mas se alguém estiver a julgar ou a avaliar a minha escrita por aquilo que vê nas redes sociais, é um engano porque a maioria das publicações não são excertos dos livro. É uma amostra daquilo que as pessoas podem encontrar, mas quem quiser, de facto, conhecer ou julgar com propriedade, tem de comprar o livro.

Faz questão de separar o seu nome real, do heterónimo que usa para escrever. Mas tendo sido o autor mais vendido em 2019, de certo que já lhe terão chamado Pedro em contexto profissional. É cada vez mais difícil fazer essa distinção?
Quando estou em contexto profissional e me perguntam por que nome prefiro se tratado, digo sempre Raul porque aí estou a trabalhar, seja numa apresentação ou numa entrevista.

Mas é mais difícil fazer essa distinção e em algum momento, devido à exposição, as duas identidades passaram a coabitar em conflito?
Diria que há ali uma zona de interseção entre ambas as identidades, mas o Raul é sempre o exemplo do Pedro. Ou seja, se posso criar algo gratuitamente, não criarei alguém que seja pior do que eu, mas sim algo que, na minha imaginação, seja o mais próximo de uma perfeição idealizada. O Pedro da realidade tem muito mais inércia.

Da morte do pai ao sucesso de vendas

O Raul é o que o Pedro sempre quis ser, é isso?
É a versão melhorada e aperfeiçoada. Ou a versão boa, digamos, do Pedro. Mais otimista, segura e romântica, talvez. Há uma pequena interseção, mas não posso considerar que coabitem em conflito ou que sejam, sequer, a mesma identidade. O Pedro não é uma pessoa tão otimista porque acontecem-lhe coisas e a minha própria personalidade é mais pessimista, insegura ou mais ansiosa. O Raul não transparece isso porque as mensagens que ele passa têm de ser diferentes, mostrando-me e, especialmente, aos leitores, outro caminho. Esse positivismo tem de ser fundamental na identidade do Raul Minh'alma...

Especialmente durante tempos pandémicos?
Ainda mais, sim. Tenho-me segurado a ele como balão de oxigénio para que isso passe para a escrita. Claro que não posso transmitir ideias que sejam completamente irrealistas ou distantes das pessoas que me leem e, para isso, parto de um ponto real para posteriormente passar à mensagem de positivismo. O facto de estarmos muito mal durante algum tempo não significa que fiquemos assim para sempre. Nesse sentido, pretendo que as pessoas que me leem peguem naquela realidade menos positiva e pela qual estão a passar, tornando-a em algo menos mau.

A morte do seu pai [quando Raul tinha 12 anos] obrigou-o a crescer muito rápido e a ter de trabalhar com a sua família em criança. A infância que não teve pesa-lhe na escrita?
Sim, claro. Costumo ouvir muitas vezes que o Raul parece ter uma alma antiga... Obviamente que a minha infância teve muita influência nisso, muito devido às peripécias que me foram acontecendo. Ainda assim não foi, de todo, uma vida difícil. Não passei fome, por exemplo. Não tinha abundância, mas não tinha fome. Não tinha a roupa que queria, mas tinha a roupa dos meus irmãos mais velhos. Tudo isso mostrou-me que tinha de trabalhar, talvez o dobro daquilo que os outros trabalhavam, para ter o que queria. Mas isso também me deu valores, como a humildade e a noção da importância do trabalho, da poupança e do esforço. Aprendi muito.

A explicação para o sucesso de vendas pode estar nessa perseverança?
Na minha primeira sessão de autógrafos não tive uma única pessoa a ir ter comigo. Na segunda, tive uma. De repente, as pessoas começaram a conhecer, mas ainda hoje há quem não faça ideia, mesmo dentro do meio literário, de quem sou. É engraçado visto que fui o autor mais vendido no ano passado. Isto mostra-me que, diariamente, tenho de continuar a trabalhar.

Para ser mais conhecido?
Para ser mais reconhecido pelas coisas que fui conseguindo alcançar ano após ano. Não acredito que tenha sido por sorte, porque calhou ou porque se alinharam um conjunto de situações. Foi decorrente do meu trabalho diário. Houve um progresso na minha escrita, não só porque comecei a escrever um conjunto de pensamentos e que depois evoluiu para o género do romance. São estratégias.

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Percebi que para chegar às pessoas era através de outro estilo de escrita, e foi nessa fase em que deixei de escrever para mim, focando-me apenas nos outros e não falando para o meu ego. Acho que só assim é que este percurso faz sentido. Há lugar para todos e espero que continue a haver lugar para mim. Não há nenhum segredo especial a não ser ter persistência e trabalhar muito. E não é um chavão porque, de facto, faço isso. Todos os dias preocupo-me com escrever e em publicar nem que seja uma frase nas minhas redes. Sinto que se não o fizer durante um dia ou dois, ninguém se lembrará de mim ao terceiro dia.

Essa ideia de que se esqueçam de si assusta-o?
[Depois de uma longa pausa] Sim... talvez. Não sei se o termo certo é "assustar", mas é algo que gosto de ter presente para não abrandar.

Para não facilitar?
E para não me sentar à sombra da bananeira, como se costuma dizer. Gosto de ter esta pressão positiva que me obrigue a manter em movimento e a inovar sempre, de livro para livro. Porque se me acomodo, o público percebe e começo a morrer. Quero continuar a trabalhar diariamente.

Interessa-lhe mais o reconhecimento da crítica literária ou do público?
Se tivesse de escolher um, seria o do público. Até porque sei que terei de fazer muito para a crítica se render ao que faço. O meu estilo de escrita nunca será premiado pela crítica. Isso é claro, mas já sabia disso antes. Mas sabia também que o meu foco eram as pessoas e a humanidade. Por isso é que não posso escrever qualquer história, porque estou preso aos meus próprios valores.

Tendo começado na poesia, passando para as pequenas histórias fechadas em capítulos e agora estando no romance, está à procura da fórmula que venda melhor ou que mais lhe dê gosto escrever?
Tratou-se de um processo gradual. Fui explorando até me instalar no género do romance, que era sempre o meu destino. Eu próprio percebia isso quando as pessoas compravam alguns dos meus livros e esperavam um romance, quando não o era. Quando se pensa num livro, pensa-se automaticamente num romance ou numa história e não em textos soltos ou em poesia... E embora tenha começado na poesia, o livro seguinte foi logo um romance.

Raul Minh'alma.

Mas depois voltou aos chamados textos soltos.
Senti que ainda não dominava o género e que precisaria de voltar atrás, e fiz textos um pouco maiores. Mas mesmo nessa altura o objetivo seria sempre regressar ao romance, embora já soubesse que seria sempre o que mais teria sucesso porque é esse o género que mais está instalado na cabeça das pessoas quando pensam em livros.

Já disse que considera a sua escrita como sendo focada em desenvolvimento pessoal e, por isso, suponho que receba desabafos e pedidos de conselhos de quem o lê. A responsabilidade é maior?
Tento fugir disso e não ser essa pessoa, um ouvinte, tentando explicar às pessoas que sou só um escritor. Adoro conversar com as pessoas e transmitir-lhes, através das páginas que escrevo, muito daquilo que tive de aprender através da minha experiência. Sou muito abordado por pessoas que me pedem conselhos, mas é ingrato e até um pouco injusto para mim.

Porque não é psicólogo.
Nem conselheiro, sou só um escritor. Às vezes leio muitos desabafos e tenho pena de não poder responder a toda gente, mas peço também que as pessoas compreendam que eu próprio não tenho energia vital para responder a tantas solicitações de pessoas que se calhar precisam de uma palavra e de um aconchego que se calhar não encontram no seu seio familiar ou de amigos. E procurem em mim porque reconhecem algum valor e alguma credibilidade. Agradeço imenso, mas não posso assumir esse papel.

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