Os problemas não são novos, mas só agora parecem ter obrigado a uma reação firme por parte da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA, na sigla original), responsável pela organização e atribuição dos Globos de Ouro.

É que só nos últimos dias, Netflix e Amazon anunciaram que deixariam de trabalhar com a HFPA, Tom Cruise fez saber que iria devolver as estatuetas que tinha em casa, Scarlett Johansson acusou a organização de sexismo e a NBC, o canal que transmitia a cerimónia dos Globos de Ouro há vários anos, cancelou a emissão de 2022.

Mas para que se entenda o que originou esta reação da indústria, é preciso recuar até 21 de fevereiro deste ano. A uma semana da 78.ª gala dos Globos de Ouro, a menos vista dos últimos 13 anos, o "Los Angeles Time" publicou uma reportagem em que várias fontes ligadas à industria do entretenimento acusaram a associação de perpetuar uma "cultura de corrupção", permitindo que vários membros tenham, até hoje, recebido quantias avultadas de dinheiro sem que a sua origem fosse conhecida. Por entre as acusações, distinguiam-se as de tráfico de influências e de dificuldade de acesso a novos membros na HFPA.

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A reportagem evidencia ainda, aliás, que num quadro composto por 87 membros, não há quaisquer registos de um único elemento negro. A reação oficial por parte da HFPA deu-se durante a cerimónia de entrega dos Globos de Ouro.

"Ainda que, durante esta noite, estejamos a celebrar o trabalho de vários artistas espalhados pelo mundo, reconhecemos que nós próprios temos algum trabalho para fazer. Tal como no cinema e na televisão, a inclusão de pessoas negras é vital e, por isso, temos de ter jornalistas negros na nossa organização. Temos de ser capazes de garantir que todos aqueles que vêm de comunidades sub-representadas também têm um lugar à mesa", ouviu-se num discurso partilhado entre Helen Hoehne, Meher Tatna e Ali Star, o topo da hierarquia que sustém a associação.

Amazon, Netflix juntas no boicote à HFPA

O estrago, no entanto, estava feito. Na sexta-feira, 7 de maio, Ted Sarandos, CEO da Netflix, protagonizou o início do tsunami quando, numa carta aberta enviada à HFPA, anunciou que a Netflix iria "cessar todas as atividades" com a organização até que "fossem registadas mudanças significativas" no que toca à demografia do grupo e à facilidade de acesso por parte de jornalistas.

A carta foi enviada depois de a HFPA ter votado numa reforma generalizada da organização, que previa a expansão da associação em cerca de 50% nos próximos 18 meses. O facto de pelo menos 10% dos membros não terem apoiado o novo plano, não votando ou abstendo-se, levou a que o CEO da Netflix decidisse quebrar todas as ligações com a HFPA, ainda que, para já, de forma temporária, escreve o "The Hollywood Reporter".

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No mesmo dia, a Amazon seguiu a mesma trajetória, anunciando que já não trabalhava com a HFPA desde a divulgação da reportagem do "Los Angeles Times" e que a situação seria para se manter até que fossem registadas "mudanças sinceras e significativas".

Esta segunda-feira, 10, a pressão continuou, desta vez protagonizada por alguns dos atores de maior renome da indústria. Em protesto contra a HFPA, Tom Cruise decidiu devolver os três Globos de Ouro que tinha recebido pela sua prestação em "Born on the Fourth of July", "Jerry Maguire" e "Magnolia", enquanto Melhor Ator em Série Dramática, Melhor Ator em Série de Comédia e Melhor Ator Secundário, respetivamente.

Johansson acusa HFPA de sexismo e NBC cancela emissão de 2022

Já a atriz Scarlett Johansson acusou a HFPA de sexismo. "A HFPA é uma organização que foi legitimada por pessoas como Harvey Weinstein. De um ator que se encontre a promover um filme, espera-se que participe na temporada de prémios e em conferências de imprensa. No passado, isto quase sempre significava ser confrontada com perguntas sexistas e comentários de certos membros da HFPA que roçavam o assédio sexual. É por esta razão que eu recusei, ao longo de vários anos, participar nestas conferências de imprensa", lê-se no comunicado enviado pela atriz, citado pela "Deadline".

"A menos que haja uma reforma fundamental, creio que é altura de darmos um passo atrás em relação à HFPA e concentramo-nos na força dos nossos sindicatos e da nossa indústria como um todo", conclui.

A Scarlett Johansson e Tom Cruise juntou-se Mark Ruffalo, que fala numa mudança "pouco corajosa" da associação. "Enquanto recém-premiado nos Globos de Ouro, não consigo sentir-me orgulhoso ou feliz por me ter sido atribuído este prémio", escreveu num comunicado divulgado nas suas plataformas oficiais.

Também na segunda-feira, a NBC, que há vários anos transmitia a gala em direto e em exclusivo, fez saber que não iria ser a casa da emissão de 2022.

"Continuamos a acreditar que a HFPA está empenhada numa reforma significativa. Acreditamos, no entanto, que uma mudança desta magnitude leva tempo e, por isso, sentimos que a HFPA precisa deste período para poder trabalhar e fazer as coisas bem. Por isso, a NBC não vai transmitir os Globos de Ouro em 2022", escreveu em comunicado, citado pela CNN.

Após o boicote conjunto dos várias empresas, estúdios e atores, a HFPA reagiu oficialmente divulgando um plano detalhado de como espera mudar o paradigma atual: com o anúncio, até ao início de agosto, de um novo comité de diretores; com a inclusão de um responsável que garanta a entrada de jornalistas negros na organização; e com a possibilidade de haver, pelo menos, 20 novos membros, e todos eles espalhados pelo EUA (e não apenas residentes no estado da Califórnia).

Até agora, a Disney é a única empresa em silêncio face às relações que mantém com a HFPA.

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