O show, repleto de glamour e grandes nomes da indústria de televisão e cinema, arrancou com uma lufada de ar fresco. A mais recente gala dos Globos de Ouro, que aconteceu esta segunda-feira, 6 de janeiro, foi conduzida pelo humorista Ricky Gervais que lançou o aviso: "Esta é a última vez que vou apresentar a cerimónia." E porque as despedidas são para serem celebradas em grande, Gervais não poupou nas palavras e atirou-se a todos. E isso é refrescante, especialmente numa altura em que os Emmys e os Óscares decorreram sem apresentador e parece ser cada vez mais parece difícil encontrar alguém que nos faça rir sem filtros.

O monólogo de abertura foi político, ácido e cheio de farpas. "Se ganharem um prémio esta noite, não o usem como uma plataforma política para fazer um discurso também ele político. Vocês não estão em posição alguma de lecionar o público sobre o que quer que seja porque não sabem nada sobre o mundo real. Muitos de vós passaram menos tempo na escola do que a Greta Thunberg. Por isso, se ganharem, aceitem o vosso pequeno prémio, agradeçam ao vosso agente e ao vosso deus e pirem-se. Ok?", começou.

Na plateia, as reações dividiram-se entre palmas e alguma perplexidade. Mas nem por isso Gervais tirou o pé do acelerador, atirando-se a alguns dos nomeados, mas também sem deixar passar o falhanço nas bilheteiras do filme "Cats" que, nas últimas semanas, deixou de ser considerado pela Universal como um dos filmes candidatos para os Óscares.

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"O mundo pôde ver James Corden como um gordo maricas. Ele também esteve no filme 'Cats', mas esse ninguém viu. Está toda a gente a ver Netflix. Este programa deveria ser só eu a a aparecer e a dizer: 'A Netflix ganha tudo, boa noite'. Mas não, temos de prolongar isto por três horas."

E continua, preparando uma piada sobre Jeffrey Epstein: "No tempo que estão a ver este programa poderiam estar a ver 'Afterlife'. É uma série sobre um homem que se quer suicidar depois de a mulher morrer de cancro. É bem mais engraçada do que isto. Spoiler alert: há uma segunda temporada a caminho, o que significa que ele não se matou. Tal como Jeffrey Epstein. Desculpem, sei que era vosso amigo."

Ricky Gervais foi igual a si próprio na forma como desconstruiu a aparente hipocrisia da indústria televisiva, cinematográfica e mediática dos EUA. E fê-lo porque, nas palavras do próprio, "não tem nada a perder".

E isso notou-se piada atrás de piada — especialmente quando disse que 2019 tinha sido um bom ano para o cinema pedófilo por ter trazido à atenção do público filmes como "Leaving Neverland", "Surviving R. Kelly" e "The Two Popes", sobre a troca de poder no Vaticano (e onde o escândalo da pedofilia dentro da Igreja é brevemente mencionado).

No entanto, e a termos de apontar um único defeito, seria ao facto de ter a sua prestação não ter sido mais longa. É que embora o humorista tenha surgido por diversas vezes entre a entrega de prémios nas várias categorias, as suas participações foram perdendo o gás e pecaram por ser muito curtas.

Não é difícil perceber porquê: havia muita produção para premiar, discursos para ouvir e momentos embaraçosos à espera de acontecer. E ainda que a cerimónia tenha decorrido sem grande aparato, destacamos alguns momentos que fizeram da noite uma gala minimamente interessante.

A primeira surpresa da noite começou com Russell Crowe a vencer na categoria de Melhor Ator Principal em Minissérie pelo seu papel em "The Loudest Voice".

A série não só não foi bem recebida pela crítica, como não era a vencedora esperada. Ainda assim, o discurso do ator, que não conseguiu estar presente devido aos incêndios na Austrália, foi talvez o momento mais impactante da noite.

"Não se deixem enganar. A tragédia que se está a desenrolar na Austrália tem como base as alterações climáticas. Precisamos de agir com base na ciência e movimentar toda a nossa força de trabalho global para as energias renováveis, respeitando o nosso planeta pelo lugar único e surpreendente que é", escreveu o ator num discurso que foi lido em palco pela atriz Jennifer Aniston.

Mas não foi o único discurso em tom de alerta. Quando Michelle Williams subiu ao palco para receber o prémio de Melhor Atriz Principal em Minissérie por "Fosse/Verdon", falou sobre o poder de escolha num meio tipicamente intolerante.

"Quando pões isto [o Globo de Ouro] na mão de alguém estás a reconhecer as escolhas que ele faz enquanto ator. Momento a momento, cena a cena e dia a dia. Mas também estás a reconhecer as escolhas que ele faz enquanto pessoa. A educação que escolhem, o treino que procuram, as horas que dedicam a algo.

E continuou: "Estou grata pelo reconhecimento das escolhas que fiz e por viver um momento da nossa sociedade em que a escolha existe. Porque, enquanto mulheres e meninas, há coisas que podem acontecer aos nossos corpos que não são uma escolha nossa."

Mas também Brad Pitt, que venceu o Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator Secundário pelo papel em "Era Uma Vez... em Hollywood", aproveitou a parte final do seu discurso para alertar para a necessidade de sermos mais amigáveis e tolerantes como os outros.

"Se amanhã tiverem a oportunidade de serem gentis com alguém, não a deixem passar ao lado. Acho que estamos a precisar disso", desabafou.

Joaquin Phoenix, que venceu na categoria de Melhor Ator em Filme de Drama pelo filme "Joker", num discurso completamente desconexo, fruto talvez do nervosismo, pediu que se tomassem mais ações além do voto.

"É ótimo que tantas pessoas tenham enviado mensagens positivas para a Austrália, mas a verdade é que temos de fazer mais do que isso. Espero que, no futuro, possamos estar mais unidos e trazer mudanças. É ótimo votar, mas às vezes temos de assumir essa responsabilidade sobre nós e fazer mudanças e sacrifícios nas nossas vidas. Não temos de viajar em jatos privados para vir a Palm Springs [na Califórnia] receber os prémios", concluiu.

Houve um ou dois elementos trapalhões em palco, como quando Elton John não conseguiu ler o teleponto devido aos óculos extravagantes que levava ou quando Sofia Vergara se enganou a ler a sua parte do guião. Mas, no geral, os momentos memoráveis ficaram-se por aí e a cerimónia decorreu sem polémicas.

O filme "Joker", que sempre que era mencionado na sala recebia palmas e gritos, venceu na categoria de Melhor Ator e de Melhor Banda Sonora. "Era Uma Vez... em Hollywood" também venceu em várias categorias, incluindo a de Melhor Argumento, que levou Margot Robbie a chamar Quentin Tarantino ao palco com uma ternura e um carinho contagiantes.

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Uma das surpresas da noite, nas categorias de cinema, foi a atriz Awkwafina ter ganho o seu primeiro Globo de Ouro de sempre pela sua prestação no filme "A Despedida" — que se estreia em Portugal já esta quinta-feira, 9 de janeiro. Já a estatueta de Melhor Filme de Drama foi atribuído a "1917", que estreia-se nos cinemas portugueses a 23 de janeiro.

Na televisão, "Fleabag", à boleia das vitórias nos Emmys, conquistou quase tudo o que havia para conquistar e "Succession" ganhou, pela primeira vez, o Globo de Ouro de Melhor Série de Drama. Em todas as categorias, seja de televisão ou cinema, a Netflix levou apenas um prémio para casa enquanto a HBO levou quatro.

Estas são os vencedores da 77.ª cerimónia dos Globos de Ouro.

Cinema

Melhor Filme de Drama

  • "1917"

Melhor Filme de Comédia ou Musical

  • “Era Uma Vez… em Hollywood”

Melhor Filme Internacional

  • "Parasitas"

Melhor Realizador

  • Sam Mendes ("1917")

Melhor Argumento

  • Quentin Tarantino (“Era Uma Vez… em Hollywood”)

Melhor Atriz Principal em Filme de Drama

  • Renée Zellweger (“Judy”)

Melhor Ator Principal em Filme de Drama

  • Joaquin Phoenix (“Joker”)
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Melhor Atriz Principal em Filme de Comédia ou Musical

  • Awkwafina (“A Despedida”)

Melhor Ator Principal em Filme de Comédia ou Musical

  • Taron Egerton (“Rocketman”)

Melhor Atriz Secundária (qualquer categoria)

  • Laura Dern (“Marriage Story”)

Melhor Ator Secundário (qualquer categoria)

  • Brad Pitt (“Era Uma Vez… em Hollywood”)

Melhor Filme de Animação

  • “Missing Link”

Melhor Banda Sonora

  • Hildur Guonadottir (“Joker”)

Televisão

Melhor Série de Comédia ou Musical

  • "Fleabag”

Melhor Série de Drama

  • “Succession”

Melhor Ator Principal em Série de Drama

  • Brian Cox (“Succession”)

Melhor Atriz Principal em Série de Drama

  • Olivia Colman (“The Crown”)

Melhor Atriz Principal em Série de Comédia ou Musical

  • Phoebe Waller-Bridge (“Fleabag”)
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Melhor Ator Principal em Série de Comédia ou Musical

  • Ramy Youssef (“Ramy”)

Melhor Minissérie

  • “Chernobyl”

Melhor Ator Principal em Minissérie

  • Russell Crowe (“The Loudest Voice”)

Melhor Atriz Principal em Minissérie

  • Michelle Williams (“Fosse/Verdon”)

Melhor Atriz Secundária em Minissérie

  • Patricia Arquette (“The Act”)

Melhor Ator Secundário em Minissérie

  • Stellan Skarsgard (“Chernobyl”)

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