Henry e Pablo vivem juntos há 30 anos enquanto casal homossexual nos subúrbios de Londres. Como que travada a fundo nos carris, a vida rotineira fica em suspenso quando ambos adoecem de forma misteriosa e em simultâneo. O diagnóstico? Tudo e o seu contrário: cancro, tuberculose, pneumonia ou psitacose — a doença pulmonar mais conhecida como a febre dos papagaios. Estamos em 1981 e, naquele contexto, ninguém sabe identificar o problema, exceto o espectador que vê a série com um distanciamento de 40 anos, mas que, por não ter voz ativa, limita-se a assistir, impotente, ao desfecho trágico.

Isolado numa ala hospitalar, Henry, imunodeprimido e com várias manchas a assaltar-lhe o corpo frágil, recebe a visita do amigo Colin. De repente, todo aquele cenário nos parece estranhamente familiar já que o jovem é obrigado a vestir uma bata, a pôr uma máscara e a manter algum distanciamento físico do amigo que vai definhando numa cama de hospital.

Aqui a epidemia não é a da COVID-19, mas a da Sida que assolou Londres no início dos anos 80 e que serve de mote para a história de "It's a Sin", a nova série disponível na HBO e criada por Russell T. Davies, o mesmo que idealizou e escreveu "Years and Years". A crise sanitária que viajou entre fronteiras, sabemos agora, é-lhe muito próxima.

"Há coisas que não posso dizer aqui. Homens cujos nomes não me atrevo a revelar. O primeiro homem com quem tive sexo. O homem que amei durante três meses em 1988. O amigo hilariante com quem passei uma semana louca em Glasgow. Agora estão todos mortos. E todos eles morreram vítimas da Sida. Mas não posso dizer os nomes deles porque as famílias disseram que eles tinham morrido de cancro ou de pneumonia e ainda hoje mantêm essa história. O estigma e o medo sobre o HIV era tão grande que uma família muitas vezes sujeitava-se a décadas de luto sem nunca revelar o que realmente tinha acontecido", escreve o argumentista no seu texto publicado no jornal britânico "The Guardian".

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"Há rapazes a cujos funerais não fui. Cartas que não escrevi. Pais que não vi. No final do ano passado, esbarrei com o pai de um bom amigo que tinha morrido em 1992. Conversámos e durante todo esse tempo pensei em como pedir-lhe desculpa por não ter ido ao funeral. Mas apercebi-me de que pouco importava, porque ninguém foi. A vergonha tinha sido tão grande que só tinham aparecido 25 pessoas para lamentar a morte, aos 28 anos, de um rapaz encantador", escreve.

E continua: "Apesar disso, e comparativamente a outros casos, essa família teve a sorte de ter tido um funeral. Nessa altura, havia agentes funerários que se recusavam a aceitar e a trabalhar os corpos. Assim como os crematórios que os rejeitavam por não querer arriscar-se a infetar os seus trabalhadores. Alguns dos funerais mais solitários aconteceram à noite, para que ninguém os conseguisse ver."

É através desta perspetiva, de um homem que se viu obrigado a viver no meio "do terror, da raiva e da pura incredulidade", que nasce aquela que provavelmente será uma das melhores séries de 2021 — dando voz a todos os que perderam a batalha para a doença e às famílias que ainda hoje vivem em silêncio.

Em "It's a Sin", o foco está num grupo de amigos que, cada um à sua maneira, começa por libertar-se das famílias castradoras que os impedem de ser quem verdadeiramente são. É de um berço comum, o da intolerância, que estes amigos acabam por ver uns nos outros a família que nunca tiveram. Passam a viver juntos e juntos abraçam os excessos da noite londrina à medida que, do outro lado do mundo, começam a chegar notícias dos EUA sobre uma doença devastadora.

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Ainda que o primeiro episódio sirva para estabelecer a origem das personagens principais e dar ritmo à problemática principal, é nos capítulos seguintes que vemos de que forma é que a vida de cada um destes amigos começa a ser afetada pela epidemia do HIV no país.

Tal como em "Years and Years", o tom de "It's a Sin" deambula entre o drama e a leveza cómica, porque só assim possível sentir as dores das personagens quando se vêm de frente com a tragédia e o preconceito de que são vítimas.

Inteiramente disponível na HBO, a série é composta por cinco episódios e conta com um elenco maioritariamente LGTBTQ com nomes como Olly AlexanderNathaniel CurtisOmari DouglasLydia WestShaun Dooley e Callum Scott Howells.

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