França, 1386. Em plena época medieval, dois homens, que em tempos foram amigos, encontram-se numa arena para disputarem a honra de uma mulher. O motivo? A mulher, Marguerite de Carrouges, acusou um dos homens, Jacques Le Gris, de a ter violado. Numa época em que as disputas eram resolvidas numa arena e em combates, Le Gris e o marido de Marguerite, Jean de Carrouges, defrontam-se num duelo até à morte.

É este o enredo do novo filme de Ridley Scott, “O Último Duelo”, que chega a 28 de outubro às salas de cinema de todo o País. Com Jodie Comer, Matt Damon e Adam Driver nos principais papéis e um guião assinado por Damon, Ben Affleck e Nicole Holofcener, a história acompanha os factos relatados no livro de Eric Jager, “The Last Duel: A True Story of Trial by Combat in Medieval France”, que conta todos os factos que conduziram aquele que foi o último julgamento por combate até à morte em França.

O filme divide-se em três partes onde é apresentada a perspetiva de cada uma das personagens principais. Vemos como se desenrolou todo o processo que conduziu ao duelo dos dois homens pelos olhos de Jean de Carrouges (Matt Damon), de Jacques Le Gris (Adam Driver) e, por fim, no capítulo “A Verdade”, pelos olhos de Marguerite, interpretada por Jodie Comer. Esta última parte, apesar de ser baseada em factos históricos é, segundo os três guionistas, a mais ficcionalizada, e o motivo pelo qual Matt Damon e Ben Affleck convidaram Nicole Holofcener para ajudar a redigir o guião.

“A parte mais pesada da arquitetura deste guião é o terceiro ato, porque o mundo em que aquelas mulheres viviam teve de ser inventado e imaginado”, explicou Matt Damon em entrevista ao “The New York Times”. “Os homens eram muito exigentes e anotavam tudo o que faziam na altura. Mas ninguém falava do que as mulheres andavam a fazer, porque elas nem eram consideradas pessoas. Fizemos a nossa adaptação do livro que lemos [de Eric Jager], mas a parte da Nicole [Holofcener] é um guião original.”

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créditos: © 2021 20th Century Studios. All Rights Reserved.

Numa época em que, tal como explicou Damon, as mulheres eram tidas em pouca consideração, pouco se sabe sobre quem foi, na realidade, Marguerite de Carrouges. Sabe-se, no entanto, que era descendente de uma família nobre da Normandia e que o seu pai, Robert de Thibouville, desafiou ou traiu o rei e que, por isso, a sua reputação estava manchada. Este foi um dos motivos que levou, mais tarde, a que a acusação de Marguerite não fosse levada a sério num primeiro momento.

Marguerite casou em 1380 com Le Carrouge, depois de a sua primeira mulher e filho terem morrido de causas naturais alguns anos antes. No livro de Eric Jager, Marguerite é descrita como uma mulher “jovem, bonita, boa, sensível e modesta”, o que contrasta com a personalidade do marido, que se dizia ser ciumento e violento. Precisamente por pouco se saber sobre esta mulher, grande parte do terceiro ato do guião de Nicole Holofcener é pura ficção.

“A pesquisa que encontrámos mostrou que ela era muito capaz e educada”, disse a autora ao “Los Angeles Times” em entrevista. “Mas, além disso, inventei muito. Dei-lhe uma amiga, que acabou por a trair. Dei-lhe a oportunidade de usar um vestido decotado, como a rainha, pelo qual ela é mais tarde ridicularizada por vestir.”

Sabe-se também que, à época, muitas mulheres, especialmente as que estavam casadas com cavaleiros, ficavam responsáveis pelas terras na ausência dos maridos. Foi precisamente num desses momentos, em janeiro de 1386, tal como escreve a “Smithsonian Mag”, que Jacques Le Gris terá forçado a entrada na casa onde Marguerite estava sozinha com uma empregada. Na altura, a relação de Jean de Carrouges e Jacques Le Gris, que em tempos tinham sido amigos próximos, era de rivalidade.

Segundo os documentos históricos, Marguerite terá ouvido alguém bater à porta e, quando abriu, encontrou Adam Louvel, amigo de Le Gris, que deixou entrar para se aquecer do frio junto da lareira. Louvel acabou a revelar a Marguerite que Jacques a amava, que faria tudo por ela e que gostava que pudessem conversar. Nesse momento, Marguerite percebe que Le Gris está dentro de casa, depois de ter entrado por outra porta. Este começa a agarrá-la e acaba por a violar, numa cena que é contada de uma forma ligeiramente diferente no filme de Ridley Scott.

“O que ela [Marguerite] disse em tribunal, voltou a dizer várias vezes a diferentes grupos de pessoas e, eventualmente, a toda a França, foi que Jacques Le Gris entrou em sua casa com outro homem, Adam Louvel”, explica Matt Damon. “No filme, Louvel entra, mas Le Gris diz-lhe para sair. No testemunho de Marguerite, a violação foi muito mais violenta. Ela foi presa e amordaçada, quase asfixiada até à morte, e Louvel estava no quarto a assistir a tudo.”

No testemunho oficial de Marguerite, tal como se pode ler no “Lapham’s Quartely”, uma revista histórica, a mulher refere que tentou lutar contra os dois homens, até que desistiu por já não ter forças.

“Lutei contra ele [Le Gris] com tanto desespero que teve de gritar a chamar Louvel para voltar e o ajudar”, relatou Marguerite de Carrouge. “Eles prenderam-me e meteram um capucium (um capuz) por cima da minha boca para me silenciarem. Pensei que ia sufocar e rapidamente deixei de conseguir lutar contra eles. Depois, o Le Gris violou-me.

Marguerite conta ainda que, depois da violação, Le Gris lhe terá dito que se contasse alguma coisa a alguém, seria desonrada e o marido a iria matar. Se mantivesse o silêncio, ele faria o mesmo. Chegou, inclusive, a oferecer-lhe dinheiro. Ao que, de acordo com o Smithsonian, Marguerite respondeu: “Eu não quero o seu dinheiro! Quero justiça!”

Dias depois, o marido regressou a casa e soube da história pela própria mulher. Num acesso de raiva, apelou ao rei por vingança tendo, pouco tempo depois, sido decretada a decisão de que a disputa seria resolvida num julgamento por combate até à morte. À época, estes combates eram vistos como uma forma de deixar a resolução nas mãos de Deus. Quem fosse inocente, seria poupado. O culpado, morreria. Só assim seria apurada a verdade.

Contudo, há um pormenor que não pode ficar esquecido. É que, se o marido de Marguerite perdesse o combate, isso seria visto como uma intervenção divina que simbolizava que a mulher estava a mentir e que as acusações contra Le Gris eram falsas. Por isso, e caso esse fosse o desfecho, Marguerite seria queimada viva numa estaca.

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créditos: © 2021 20th Century Studios. All Rights Reserved.

“De um ponto de vista filosófico, ninguém além de Jacques Le Gris, Marguerite e quem estava naquele quarto sabe a verdade”, explicou Eric Jager ao “The Los Angeles Times”. “Mas o mais provável é que ela estivesse a dizer a verdade. A história é detalhada e persuasiva, e Marguerite correu um grande risco ao dizer a verdade numa altura em que as mulheres deveriam manter-se em silêncio em relação a estes assuntos.”

A atriz que deu vida a Marguerite De Carrouges na adaptação para o cinema, Jodie Comer, vencedora de um Emmy pela sua prestação em “Killing Eve”, vai ainda mais longe e explica que, na realidade, Marguerite tinha tudo a perder ao contar a verdade, o que releva uma bravura fora do comum para a época. “Porque é que uma mulher falaria e diria isto quando a sua vida estava em risco? O que é que ela tinha a ganhar com isso? Ela não tinha nada a ganhar, e tudo a perder. Por isso, para mim, não há dúvida de que esta mulher estava a dizer a verdade.”

Quase um ano depois, em dezembro de 1386, a disputa foi então resolvida num duelo entre Jean de Carrouge e Jacques Le Gris, no qual se centra este novo projeto de Ridley Scott, que ainda em 2021 verá também chegar aos cinemas “Casa Gucci”, onde também conta com Adam Driver num dos papéis principais. O filme marca também o primeiro guião assinado em conjunto por Matt Damon e Ben Affleck em 25 anos — o último projeto dos dois atores tinha sido “O Bom Rebelde”, em 1997.

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