Esta semana, a Rafaela Simões escreveu sobre as várias formas de rentabilizar o alimento. Antes disso, e ainda a discutir a melhor forma de apresentar o tema, falou-nos entusiasmada das soluções que já tinha encontrado durante as suas pesquisas. Usar as borras do café como esfoliante, ok. Aos talos dos brócolos usados para os caldos também ninguém fez cara feia. E até as cascas de batata em forma de snack salgado nos fez querer, em grupo, mergulhá-las imediatamente num pote de ketchup.

Agora, quando a Rafaela fala em comer cascas de banana, oh meus amigos. A expressão na cara de quem a ouvia foi semelhante àquela que fazemos perante um vídeo com títulos como "o maior ponto negro do mundo". O nojo e a curiosidade misturam-se. E se há quem, como eu, até pede por uma receita, há quem se chegue à frente e assuma: “Cascas de banana? Desculpem mas há limites".

A minha questão é: há limites para quê exatamente? É que, quando o assunto é comida, Portugal sofre do síndrome do estômago irrequieto.

Comemos língua de vaca, moelas e patas de galinha, caracóis, coelho, perninhas de rãs, ovas de peixe e nem vamos falar do que fica por aproveitar do porco. Não vamos falar porque não existe. Focinho, orelhas, unhas (what?), tudo. Do sangue fazemos morcelas, da pele frita fazemos torresmos. Se for a parte mais espessa, courato — bem aviado no meio de duas fatias de pão a fazer subir el colesterol (não o do amor, infelizmente, esse só a Ana Malhoa).

Mas depois, ai jesus que na China comem cérebro de macaco ou na Tailândia fritam grilos. Pessoal, nós comemos aquilo por onde passa o cocó do porco, ok? I rest my case.

Crónica. Não vai conseguir acabar com o plástico da noite para o dia, ok?
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E atenção que não digo isto com nojo. Cresci a ver a minha avó a matar galinhas à minha frente, a ver os perus a andar já com a cabeça pendurada e também eu comi muita morcela. Tripas é que não. Desculpem, mas há limites.

Não acho que devamos todos cortar com a carne — na verdade até acho, mas isso são outros quinhentos. Acho sim é que não devemos negar à partida uma ciência que se desconhece. E quem diz uma ciência diz uma casca de banana, que segundo a Bela Gil, pode ser transformada em almôndegas, e que até o Continente diz que pode ser ingrediente de bolo.

Este desenrascanço português há que ser resgatado. Qual Macgyver, é voltar a pegar no canivete suíço para cortar a rama da cenoura e os talos da couve flor e com esses "restos" fazer um salteado. É comprar um punhado de amêndoas e, com ele, conseguir fazer um litro de bebida vegetal — basta triturar com água e uma tâmara e, depois, coar. No final, perceber que o que sobra da amêndoa ainda pode ser aproveitado como ingrediente de uns biscoitos.

Com este frasco de avelãs fiz bebida vegetal e uma sobremesa

É comprar um quilo de grão e com ele fazer toda uma refeição — sobremesa incluída. Sabia que se bater a água do grão ela transforma-se numa espécie de claras em castelo, vulgo aquafaba? Já o fiz, misturei com chocolate negro derretido e dei a provar sem dizer nada sobre os ingredientes. Depois de ouvir as colheres baterem na tigela já vazia, é que revelei: "Sabem com o que fiz a mousse? Com água de cozer grão". Os olhos arregalaram-se, num misto de surpresa e de vontade de cuspir o que tinham acabado de levar à boca. "Eu sabia que isto, vindo de ti, não teria açúcar. Agora grão!?". Mas era exatamente grão, ou melhor, a água escorrida, depois de ter usado o resto para um húmus de entrada e um caril para prato principal.

A cozinha é um laboratório e vale tudo na mistura química para que o resultado do desperdício seja noves fora zero. E se somos todos muito moderninhos para comer peixe cru, comida em tigelas e sumos em frascos, também temos que o ser para comer a banana, guardar a casca bem lavada, cortá-la aos bocadinhos, temperar e levar à frigideira. É isso ou deitar fora. E deitar fora é verbo que não conjugo. Desculpem, mas há limites.

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