A ansiedade é hoje um dos grandes temas de saúde mental que atravessa gerações e contextos, intensificando-se em momentos de maior pressão, como o regresso às rotinas após as férias. Estima-se que milhões de pessoas em todo o mundo convivam diariamente com sintomas de ansiedade, desde inseguranças até crises, e muitas ainda sentem dificuldade em encontrar ferramentas eficazes para recuperar o equilíbrio emocional. Falar sobre o assunto, sobretudo com especialistas que unem experiência pessoal e conhecimento clínico, torna-se essencial para desmistificar e propor soluções práticas.
É exatamente isso que faz a psicóloga Maria Klien, especialista em ansiedade, que vai estar pela Festa do Livro de Belém no dia 25 de setembro para uma sessão de autógrafos a partir das 18 horas. Psicóloga de renome no Brasil e atualmente a viver em Portugal, Maria tem-se tornado uma voz ativa na área da saúde mental, partilhando o seu conhecimento em conferências, cursos e livros, mais precisamente na obra "Guia do Autodomínio - para uma vida com mais autonomia".
Recentemente lançou também um curso online, "Liberdade Emocional", dedicado ao combate à ansiedade, pensado para quem procura autonomia no controlo das próprias emoções. Além disso, é ainda responsável pelo "Dance com as Emoções" na Rádio Marginal, onde alia ciência e música para partilhar dicas práticas que ajudam a viver com menos ansiedade.
Mais do que teoria, Maria Klien fala a partir da sua própria história. Durante muitos anos, viveu refém da ansiedade e do pânico, incapaz de realizar tarefas simples como entrar num elevador. Hoje, transformou essa experiência em força: viaja pelo mundo a dar palestras sobre autodomínio emocional, sobre como transformar a ansiedade numa aliada e ainda sobre o papel da cannabis medicinal, área em que é especialista e defensora do uso responsável e terapêutico. A sua abordagem, que combina vivência pessoal, conhecimento científico e propostas práticas, promete inspirar e ajudar.
Foi precisamente sobre estas questões que a MAGG conversou com Maria Klien. Na entrevista que se segue, a psicóloga partilha como transformou a própria experiência de ansiedade em conhecimento útil para milhares de pessoas, explica de que forma é possível encarar a ansiedade como uma mensagem do corpo em vez de um inimigo e deixa conselhos práticos para enfrentar o regresso às rotinas sem crises.
Maria, sabemos que a Maria passou por anos de ansiedade e ataques de pânico. Como é que essa experiência pessoal moldou a sua abordagem hoje em dia?
Eu sempre digo que o mundo que a gente veio criar e construir é o nosso mundo interno. E quando sobra tempo, se sobrar tempo, a gente pode construir um mundo melhor fora. Então, nesse sentido, o que a gente vê nas experiências da vida é que elas são todas professores, porque elas nos ensinam. Nós somos um grande palácio, não conhecemos todos os quartos, morremos sem nos conhecermos por inteiro. Nós somos uma surpresa para nós mesmos. E nesse sentido, os professores nos ajudam a conhecer partes nossas que nós consideramos sombras, mas que na verdade são aspectos nossos que não devem ser negados.
Então nesse sentido, o que acontece com a mente ansiosa? Quando nós somos ansiosos, nós tendemos a não dar espaço para as emoções que são negativas. Porquê? Porque quando a pessoa está numa ânsia, qual é a parte mais ativa dentro dela? É a parte infantil. Porque nós somos a totalidade das nossas idades. Então, quando a gente está em sofrimento, quem está mais ativa na gente é a nossa criança, que está sempre no universo da fantasia. E no universo da fantasia, se eu começar a chorar, eu não vou conseguir parar. Se eu começar a ter medo, aquele medo vai ser maior do que eu. Então, quando a gente começa a trabalhar a ansiedade, fica tudo mais fácil.
A Maria costumava ter limitações que pareciam impossíveis, como não conseguir entrar num elevador. Qual foi o momento em que percebeu que poderia transformar essas limitações em aprendizagens e compartilhar isso com outras pessoas?
Foi com a fé. A fé não é na espiritualidade, não é só em Deus. A fé é um salto para a vida. Então, quando uma pessoa tem muito medo, o que eu fiz e o que eu descobri é simples: se eu tiver que morrer nesse elevador, eu vou morrer. É uma conversa interna mais madura e de luz, trazendo o nosso ambiente para mais perto. Nós todos temos diálogos sabotadores no nosso corpo, que fazem com que a gente paralise, mas que também ajudam. Se eu não tiver ferramentas para fazer o meu labirinto para um aspecto de sanidade, maturidade, eu seria completamente engasgada, levada.
Eu ia dar voz para isso e, de fato, teria uma crise de ansiedade e isso poderia me paralisar. Só que, quando eu tenho ferramentas, o que eu fiz? Eu trouxe esse meu diálogo doce. Parece uma coisa meio louca, mas funciona muito bem. Então, eu comecei a ter um diálogo interno comigo e aí meu adulto, dentro de mim, ajudou. Nós mesmos temos as ferramentas internas e é por isso que nós trabalhamos. Porque a gente tem a capacidade dentro de nós para nos acalmarmos. Assim como temos a capacidade dentro da gente de nos curar. Se a gente não explorar o mundo, a gente não vai conhecer os nossos factos. E se a gente não conhecer os nossos factos, a gente não vai construir os nossos palácios. No fundo nunca é o elevador, nunca é o avião, nunca é a árvore, nunca é a chuva, nunca é o frio.
É possível transformar a ansiedade num “aliado” e não apenas num obstáculo? Como é que essa mudança de perspectiva funciona na prática?
Compreendendo que todas as emoções, inclusive a ansiedade, são mensagens. Elas estão trazendo uma mensagem. O nosso corpo não nos quer matar. Eu não morro de crise de ansiedade, apesar de eu ter certeza que eu vou morrer. Os sintomas que estão vindo são sintomas que o meu corpo está trazendo para me proteger da morte, ele entendeu que eu estou em perigo então ele está se preparando para lutar. Então o coração acelera para que o sangue seja bem guiado. Porque é que eu fico tonta algumas vezes? Porque todo o sangue vai para as minhas extremidades, então todo o processo é um processo de salvação, não é um processo de morte.
Eu não posso ficar em silêncio. Precisamos contar para nossa mente que a gente está em segurança. Quanto mais eu acho que eu vou morrer, mais o meu corpo me traz os mesmos sentimentos porque ele acredita no que eu estou a dizer. Então a gente tem que trabalhar para quebrar esses ciclos. Como é possível isso? Lembrando que a ansiedade é uma mensagem.
Estamos no fim das férias e muitas pessoas começam a preparar-se para voltar ao trabalho e às aulas. Quais seriam as principais dicas para enfrentar essa transição sem que a ansiedade se torne uma espécie de barreira?
Disciplina. A disciplina é a maior liberdade que a gente pode ter. As pessoas acham que disciplina é escravidão, mas não é, porque a disciplina é um aspecto do nosso adulto. A nossa criança não tem disciplina, mas ela é extremamente importante. A disciplina faz com que você organize a sua agenda. Escrever também é importante, é terapêutico. Fazer prioridades, organizar a sua mente. E sempre deixar um espaço no seu interior para você se olhar. A maior angústia que a gente tem é quando a gente se perde de nós mesmos, a maior angústia do ser humano é a solidão dentro de si.
O exercício também é importante, e não precisam de ser treinos em si, pode ser até o trabalho de lavar uma louça, tomar banho. É um tempo onde você se conforma com você mesmo e que você vai estar olhando para si. Esse tempo pode ser 5 minutos do seu dia. Pode ser uma meditação de 5 minutos. Tudo isso é muito importante. E essa pausa de 5 minutos é importante porque nesse momento você vai precisar escutar. Escutar o seu corpo. E se você precisar de uma pausa, sabe? Faça isso.
A Maria é também uma referência em cannabis medicinal. Existem avanços recentes nestes estudos que a Maria considere promissores na utilização da cannabis no tratamento da ansiedade?
Quanto mais estudos a gente tem mais a gente consegue conhecer os outros canabinoides. Por exemplo, soubemos recentemente que o CBG é um canabinóide que é direcionado para a dor, o CBN é um canabinóide para a insónia. Agora, o verdadeiro avanço é a quebra de tabu. A quebra de tabu faz com que mais pessoas utilizem, e quanto mais pessoas utilizam, mais dados a gente tem. A ciência está se transformando, e muitas coisas que a gente achava que eram assim na medicina mudámos de opinião.
E porquê? Porque a gente colheu dados. Então, isso é que é importante. E como é uma medicina muito segura, essa experiência se torna segura também, pois os efeitos colaterais são muito pequenos. Mas na minha opinião, o maior avanço é a quebra de tabu, que vem através da informação, que é o que eu faço.
A Maria lançou recentemente um livro e um curso online sobre ansiedade. Quais são os seus objetivos?
É esse auto-conhecimento que a gente está fazendo, Quando a gente não se conhece, a gente tem menos capacidade de responder melhor aos assuntos, a ter uma linguagem menos correta para nós mesmos. Então, o meu objetivo é que eu seja o instrumento, e tudo isso são ferramentas que eu criei a partir da minha experiência, a partir da minha consciência. O cérebro sempre escolheu o caminho mais fácil, é um instinto de sobrevivência. Então, nesse sentido, é como se eu estivesse me encaminhando nessa mata e abrindo o caminho.
Ele não é um único caminho, nem estou dizendo que seja o melhor caminho, mas é um caminho que eu já explorei e eu sei que nos traz autonomia. Autonomia é uma palavra de muito poder. Então, o meu objetivo é só isso, é mostrar o caminho que eu já abri nessa mata e que deu certo para mim. O seu corpo é seu melhor amigo, a ansiedade é uma mensagem. Existem ferramentas que ajudam, que dão mais sanidade, mais espaço entre o desafio que há por trás e a sua resposta. Sanidade, honestidade e respeito.
Que hábitos diários ou pequenas atitudes a Maria considera indispensáveis para manter uma mente mais tranquila e resiliente?
A gente pode usar o mundo a nosso favor. Se a gente acorda e faz uma conversa interna, que muitos chamam de oração, outros chamam de meditação, outros chamam de diálogo, não importa o nome, a conversa interna de quando você acorda ajuda, porque está a mentalizar já o cérebro do que vai acontecer. Então, saber acordar é muito importante, da mesma forma que saber adormecer é importante.
Se a gente dorme bem, a gente tem um dia melhor. Além disso, ter atenção à música que você escuta. Atenta aos diálogos que você tem. Se você convive com pessoas que são muito negativas, isso vai afetar o seu palácio. Você está trazendo aquilo para dentro de você. Então, isso tudo, essas são as principais dicas. Saber acordar, saber adormecer e saber ser inteligente nas escolhas dos seus convidados para os seus campos de graça.