A palavra "enxaqueca" designa simultaneamente uma doença e o nome das crises que ocorrem nessa doença.  Apesar de ser uma patologia que afeta cada vez mais pessoas, continua a ser bastante desvalorizada pela população em geral, que não percebe as implicações práticas que a mesma tem na vida dos doentes.

Este sábado, 12 de setembro, assinala-se o Dia Europeu de Ação Contra a Enxaqueca e a  MiGRA Portugal — Associação de Doentes com Enxaqueca e Cefaleia — em conjunto com a Sociedade Portuguesa de Neurologia e a Sociedade Portuguesa de Cefaleias decidiram lançar a campanha “Temporariamente Fora de Serviço – Por motivo de enxaqueca" que tem como objetivo principal sensibilizar as pessoas para uma maior compreensão desta patologia cujo diagnostico é muitas vezes complicado de ser feito.

Não há dados que comprovem que a patologia esteja a aumentar, o que acontece é que, nos últimos anos  os médicos têm estado mais alerta para este tipo de casos que se estima que afetem 15% da população nacional. "Estamos a falar de cerca de um milhão e meio de pessoas que sofrem desta doença aqui em Portugal", garante à MAGG Raquel Gil-Gouveia, neurologista do Centro de Cefaleias do Hospital da Luz.

Mas o que diferencia uma enxaqueca de uma dor de cabeça dita "normal"?

A neurologista Raquel Gil-Gouveia explica que as dores de cabeça se podem dividir em dois grandes grupos. As secundárias ocorrem normalmente na sequência de um traumatismo e muitas vezes o tratamento consiste em tratar a causa da dor em si. Contudo, as dores de cabeça mais comuns são as que designamos de "cefaleias primárias". É neste grupo que se inserem as enxaquecas e as dores de cabeça designadas "normais", mas que, na verdade, se chamam "cefaleias de tensão".

"A cefaleia de tensão é até mais frequente do que a enxaqueca, mas não costuma ser tão disruptiva porque é uma dor mais ligeira e é muito prevalecente ao longo da vida", explica a especialista Raquel Gil-Gouveia. "A enxaqueca, se não for tratada, é muito incapacitante impedindo mesmo as pessoas de funcionar, coisa que a cefaleia de tensão não faz.", acrescenta.

Dores de cabeça muito fortes, náuseas, vómitos e visão turva são alguns dos principais sintomas desta patologia que deixa muita gente incapacitada e sensível a coisas tão simples como o som ou as luzes. As crises de enxaqueca podem durar entre quatro a 72 horas, mas não começam de repente. No dia anterior os doentes já têm alguns sintomas "estão mais desconcentrados, mais irritadiços, mais cansados"  podendo ainda ter alterações a nível intestinal.

Também depois da crise é comum passarem pela fase de "ressaca", o que faz com que todo este cenário possa durar entre cinco a seis dias. Muitas vezes, o descanso e o isolamento social chegam para  atenuar a dor. Contudo, a maior parte dos doentes não tem a flexibilidade de poder fazê-lo durante o horário de trabalho o que faz com que tenham de recorrer a medicação para interromper a crise.

"Por cada homem há três mulheres com enxaqueca"

Apesar de ser uma doença que pode afetar pessoas de qualquer faixa etária, acaba por ter mais expressão na fase mais ativa da vida, entre os 20 e os 40 anos de idade, e atinge mais mulheres do que homens. Esta é uma doença de base genética, que afeta muito mais o sexo feminino sendo que, na fase em que as mulheres estão menstruadas, as crises são mais recorrentes.

"Se há uma pessoa com enxaqueca, toda a família tem mais risco de vir a ter. Sobretudo os elementos femininos.", garante Raquel Gil-Gouveia. "Se uma mulher tem enxaqueca e tem uma filha, essa filha tem mais risco de vir a ter enxaqueca do que não vir a ter", acrescenta.

Madalena Plácido é uma dessas mulheres. Começou a ter crises de enxaquecas aos 10 anos e vive com esse problema até hoje. Na altura, era demasiado nova para perceber o que estava a acontecer, mas o facto de os pais também sofrerem desta patologia, e da mãe trabalhar na área da saúde,  fez com que o diagnóstico fosse feito rapidamente.

Madalena Plácido
créditos: Madalena Plácido

"No início, as crises eram mais espaçadas, mas por volta dos 16/17 anos comecei a ter crises mais intensas e a fazer medicação de prevenção.", revela a jovem de 27 anos à MAGG, garantindo que os primeiros sintomas foram "muito assustadores".

Madalena é farmacêutica, trabalha numa consultora na área da saúde e, ao contrário da maioria dos doentes, tem a sorte de ter um patrão que tem conhecimento da patologia e que, por isso, é bastante compreensivo com a situação. Aos 26 anos, Madalena Plácido decidiu abraçar um novo projeto para ajudar outros doentes que sofrem de enxaquecas e que não têm a mesma sorte de contactar com pessoas que sabem realmente o quão incapacitante a mesma pode ser.

A 12 de setembro de 2019 nasce a MiGRA — Associação de Doentes com Enxaqueca e Cefaleia — que tem como principal objetivo representar e promover os interesses e direitos de doentes com enxaqueca e cefaleias. " Existem muitos doentes que nem sequer são diagnosticados e que estão perdidos porque não sabem o que têm", confessa Madalena à MAGG.

No âmbito da campanha “Temporariamente Fora de Serviço – Por motivo de enxaqueca” foi realizado esta sexta-feira, dia 11 de setembro, um Webinar intitulado de "Enxaqueca e o impacto na produtividade" que se dirigiu tanto aos trabalhadores como às empresas e que teve como principal objetivo encontrar estratégias e adaptações que podem ser feitas a nível laboral apara ajudar estes doentes.

Legislação não contempla patologia

"Não há uma legislação específica para a enxaqueca e eu acho que devia haver", afirma Raquel Gil-Gouveia. O facto de ser uma doença bastante incapacitante nos momento em que está ativa, faz com que, muitas vezes, os doentes tenham de faltar ao trabalho. Contudo o sistema ainda não está apto para ajudar as pessoas que se encontram nesta situação.

"O que acontece é que quando as pessoas têm uma crise muito séria — daquelas de vomitar e não querer sair do buraco, não conseguem ir para o centro de saúde pedir uma baixa — só quando já se encontram melhores é que vão", revela a neurologista. A acrescentar a isto, é necessário que o médico de família tenha conhecimento do caso para que seja possível fazer um diagnóstico correto e "o que acontece na maioria das vezes é que as pessoas só recorrem ao médico quando a crise já passou" tornando-se difícil, avaliar a veracidade do caso. "O que acaba por acontecer é que as pessoas acabam por pedir dias de férias nestes dias", acrescenta a especialista em cefaleias.

Madalena refere que a flexibilidade horária poderá representar uma medida decisiva na vida dos doentes que, nos dias em que têm a crise, teriam a possibilidade de se dirigir mais tarde para o trabalho e compensar essas horas. "Infelizmente, há muitas entidade patronais e muitas pessoas que ainda não compreendem e que associam a enxaqueca a uma dor de cabeça simples", afirma Madalena Plácido.

O objetivo da campanha é alertar para o facto de esta doença ser temporariamente incapacitante. "O doente quando está com crise vai ter uma maior dificuldade em termos de produtividade, em termos de concentração... Há algumas vezes em que efetivamente precisa de faltar ao trabalho, mas quando o doente não está com crise consegue produzir de forma igual ou superior ao resto das pessoas.", explica a jovem de 27 anos.

O facto de estarem habituados a lidar com a dor faz destes doentes pessoas mais resilientes. "A nível pessoal e familiar estamos habituados a compensar o tempo que a enxaqueca nos rouba. Houve uma altura em que tinha crises mais de 15 dias por mês. Nessa altura senti que estava a viver em part-time", assume Madalena Plácido.

"Quem sofre deste tipo de doença chega a sentir que metade da vida lhe é roubada e vive constantemente com a perspetiva de tentar compensar o tempo perdido."  Coisas tão simples como uma luz fundida ou uma tonalidade menos indicada pode desencadear uma crise. O mito de que é "apenas uma dor de cabeça" faz com que os doentes se sintam desvalorizados e incompreendidos.

A MiGRA construiu uma comunidade que já conta com vários associados que são acompanhados de uma forma muito próxima. "É muito importante para que os doentes se sintam seguros e não se sintam sozinhos. A depressão e a ansiedade é muito prevalecente nestes doentes... não estarem sozinhos ajuda muito nesse sentido de evitar que se entre num estado depressivo.", afirma a presidente da associação. A MiGRA não garante um acompanhamento médico, mas, para além de todo o apoio, fornece todo o tipo de informação fidedigna e creditada pelos profissionais de saúde.  "Dar essa informação aos doentes é muito importante pois só se os doentes conhecerem a sua própria doença é que vão conseguir geri-la melhor", assume Madalena.

"Imprevisível": é assim o dia a dia das pessoas que sofrem de enxaquecas e cefaleias e que têm muitas vezes de alterar os planos em função das crises que não sabem quando podem ou não acontecer. O pior é quando as mesmas aparecem nas fases mais importantes da vida como o aniversário dos filhos, o dia em que têm um compromisso importante de trabalho ou até mesmo no dia do casamento.

Este sábado, 12 de setembro, será realizado no Facebook da MiGRA, às 19h, um direto que pretende salientar estratégias para gerir melhor a doença, tanto a nível pessoal como familiar "uma conversa de doentes para doentes". Durante a próxima semana, a Sociedade Portuguesa de Cefaleias em conjunto com a MiGRA irá também lançar um inquérito a nível nacional para averiguar a forma como a utilização de máscaras e de outros tipos de proteção individual têm feito aumentar as crises de enxaquecas.

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