Quando Eunice Rodrigues, 40 anos, licenciada em Educação de Infância, engravidou de Jaime, o quarto filho, estava longe de imaginar o contexto em que o bebé viria a nascer.

Depois de uma gravidez algo atribulada, o primeiro rapaz da família chegou ao mundo no dia 1 de abril, com Portugal em pleno estado de emergência e o mundo a atravessar uma crise sem precedentes graças ao COVID-19, um vírus que, à data de 17 de abril, já infectou mais de dois milhões de pessoas e causou cerca de 145 mil mortes.

Mas antes do parto do bebé, Eunice, que já é mãe de três meninas com idades compreendidas entre os 10 e os dois anos, descobriu que é COVID-19 positiva. “Estava com 40 semanas e 4 dias no dia 30 de março, na reta final da gravidez, e dei entrada nas urgências do Hospital de São João, no Porto, com uma perda de sangue mínima e algumas contrações. Veio-se a verificar que não era nada de alarmante, que ainda só tinha dois dedos de dilatação, mas aproveitaram para me marcar indução do parto para dia 3 de abril. Já que era procedimento do hospital fazer o teste para todos os internamentos, fizeram-me logo a colheita nesse dia.”

Eunice Rodrigues regressou a casa nessa segunda-feira. No dia seguinte, recebeu uma chamada da sua obstetra com a notícia que tinha acusado positivo para o COVID-19. “Não tinha sintomas nenhuns a não ser perda do olfato e do paladar, algo que já me acompanhava há algumas semanas”, conta à MAGG.

Devido ao diagnóstico, o parto de Eunice foi adiantado para dia 1 de abril, mas na noite de 31 de março, a mãe de quatro crianças entrou em trabalho de parto naturalmente. Foi transportada para São João por uma equipa do INEM devidamente protegida e Jaime não nasceu na ambulância por pouco.

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“Não tive epidural, o parto foi curtíssimo, normal, e demorou uns cerca de 10 minutos. O Jaime nasceu, colocaram-o em cima da minha bata devidamente protegido por um pano, eu nunca lhe toquei, nem ele a mim. A seguir, a médica cortou o cordão umbilical e o meu filho foi levado para a neonatologia”, conta Eunice, a descrever os acontecimentos da madrugada de 1 de abril.

No bloco de partos, Eunice Rodrigues viu o filho presencialmente pela primeira e única vez até hoje, 17 dias depois do seu nascimento. Com o diagnóstico positivo para o COVID-19, bebé e mãe foram separados. Eunice está em casa há duas semanas, já fez três testes, todos positivos, e o pequeno Jaime permanece no Hospital de São João, apesar de não ter qualquer problema de saúde.

A controvérsia da separação mãe-filho

O vírus que tomou conta do mundo no início de 2020 continua a ser uma incógnita para a comunidade médica e científica. Ainda não existe uma vacina, os sintomas são vários e diferentes, e tudo é incerto. O mesmo se aplica aos partos das mulheres que acusam positivo para o novo coronavírus, o que resulta em recomendações diferentes de várias organizações de saúde, embora nenhuma ofereça uma resposta assertiva.

Em Portugal, e de acordo com as recomendações da Direção Geral da Saúde publicadas no seu site oficial, “a separação mãe-filho após o parto é um assunto controverso, pois ao risco de contágio de recém-nascido opõem-se as vantagens da ligação e amamentação precoces”. As mesmas recomendações salientam que “é necessário que as instituições de saúde tomem decisões individualizadas, tendo em conta a vontade da mãe, as instalações disponíveis no hospital e a disponibilidade das equipas de saúde”.

Em relação ao contacto pele a pele, a DGS afirma que tal está “desaconselhado” e recomenda-se “que todos os recém-nascidos de mães com COVID-19 sejam testados",  sendo aconselhado também um "acompanhamento neonatal, pelo menos no primeiro mês de vida”.

Já no que diz respeito à amamentação, as mesmas recomendações ditam que, “como não existe evidência sustentada de risco de transmissão viral através do leite materno, nas situações de separação mãe-filho, está recomendada a extração do leite com bomba e o seu desperdício até a mãe ter dois testes negativos”. Porém, tal “não dispensa a avaliação médica caso a caso e a necessidade de ter em consideração a evolução da literatura científica”.

Para Joana Martins, pediatra, estas recomendações são muito vagas. “Não apoiam o contacto pele a pele, dificultam o estabelecimento da amamentação, embora não a impossibilitem desde que seja extração por bomba e administração por outra pessoa. Mas também acautelam que cada instituição faça as suas regras”.

Grávidas COVID 19
Joana Martins é pediatra no Hospital Dona Estefânia créditos: Facebook / Joana Martins

De acordo com a médica pediatra, estas recomendações da entidade nacional diferem das de outras organizações, como a Organização Mundial de Saúde, o Colégio Americano de Obstetrícia ou ainda a Sociedade Americana de Pediatria, mas nenhuma oferece uma resposta.

“Nem a OMS nem qualquer outra organização nos diz claramente o que devemos fazer. Assim, cada situação é discutida com a mãe, com a família e com o médico assistente, o que deixa imenso espaço para as instituições optarem por procedimentos diferentes”, esclarece Joana Martins.

Ao que a MAGG apurou, hospitais como o de São João, no Porto, optam pela separação da mãe e bebé, com o consentimento desta. Na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, também mãe e filho ficam separados. Já no Hospital Garcia da Orta, em Almada, e no Amadora-Sintra, em Lisboa, opta-se pelo alojamento conjunto, respeitando as regras de higiene, máscara, luvas para amamentar e berço a uma distância de segurança da cama da mãe.

Mas tudo isto pode mudar diariamente. Bruna Silveira, enfermeira especialista em saúde materna no Hospital Amadora-Sintra, conta à MAGG que o seu local de trabalho já teve vários recomendações diferentes nas últimas semanas.

“Há um mês, a indicação que aqui tínhamos era que os bebés não ficavam com as mães e teriam de ser transferidos para o Hospital Dona Estefânia. Uma semana depois, já ficavam no hospital, mas numa incubadora, perto das mães. Depois voltou-se a alterar a política para ficar no berço, mas a dois metros de distância. A cada dia, a situação altera-se”, esclarece a enfermeira.

“Nunca mais vi o Jaime, nem tive contacto desde o dia em que nasceu”

Eunice Rodrigues, numa decisão tomada em família, em conjunto com o hospital e médicos da sua confiança, optou por se separar do filho, principalmente depois de o marido acusar positivo no segundo teste para a COVID-19.

“O que prevaleceu na tomada de decisões foi que existisse o menor risco de contágio possível. Permanecer no hospital pareceu-nos melhor do que contactar com duas pessoas positivas, eu e o pai. No hospital, e apesar de o risco também estar presente, é um meio mais protegido, onde ele tem todos os cuidados médicos, tem estado bem disposto, a ganhar peso”, explica a mãe de Jaime.

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Tal como salienta Eunice, no Hospital de São João, foram-lhe dadas recomendações, mas a indicação de que a decisão final teria sempre de ser da mãe, algo com que Eunice Rodrigues concorda em absoluto.

“Estamos a falar de um vírus desconhecido e de algo que ninguém dá certezas. Ofereceram-me recomendações, mas disseram-me sempre que a decisão era minha. E concordo, porque se o hospital desse indicações e as coisas não corressem tão bem, a responsabilidade ficaria toda desse lado e também não acho correto. A responsabilidade destes atos é nossa, e esperamos ter tomado as melhores decisões para proteger o nosso filho deste contexto todo.”

Eunice não vê o bebé desde dia 1 de abril. “Nunca mais vi o Jaime, nem tive contacto desde o dia em que nasceu. Vejo-o diariamente por vídeo-chamadas, por fotografias que as enfermeiras me enviam. A possibilidade de o ir visitar é algo muito complexo. Eu teria de me equipar a rigor, não lhe podia tocar. Na verdade, não ia existir proximidade nenhuma, e achei que ia ser pior para mim, que iria ficar ainda mais angustiada”.

Grávidas COVID 19
Jaime nasceu no dia 1 de abril, no Hospital de São João, no Porto créditos: Facebook / Eunice Rodrigues

A mãe de Jaime já fez três testes, todos com resultados positivos, e prepara-se para fazer o quarto esta sexta-feira, dia 17 de abril, e já tem outro marcado para dia 22. Já não tem sintomas, e dado que o marido já deu negativo no terceiro teste, existe uma esperança que a chegada do bebé a casa esteja para breve.

Mas foi exatamente com o resultado do terceiro teste que Eunice viveu um dos seus momentos mais complicados nesta difícil jornada. “Foi uma chapada de luva branca, não estava mesmo à espera. Não tinha sintomas, tinha a certeza de que ia dar negativo, e criei toda uma expectativa de que quem ia buscar o Jaime no final da semana era eu. E a desilusão foi ainda maior.”

A par deste momento, Eunice explica que o regresso a casa também não foi fácil. “Não poder tocar nas minhas filhas, que precisam de afeto, é complicado. Raramente o faço, mas já há um abraço ou outro, já estou incapacitada de dizer que não. Este vírus tira-nos a possibilidade de sentir, da nossa liberdade, é a grande castração do ser humano neste contexto. Outro momento complicado foi no hospital, quando poucas horas depois de ter o Jaime, no quarto onde estava internada com outras mulheres infectadas, assisti à equipa médica a dar a notícia da morte do marido a uma senhora à minha frente. Morreu nos cuidados intensivos, com o vírus, e nem me foi possível abraçar a senhora. Este vírus torna-nos mais racionais, até um pouco mais frios.”

Pediatra alerta para a amamentação: "Já existiram casos documentados de transmissão"

Eunice Rodrigues optou por seguir as mesmas recomendações da DGS, que ditam que o leite materno deve ser extraído por bomba e dispensado até a mãe ter dois testes negativos, no caso de separação de mãe e bebé.

“Tiro o leite com a bomba e deito fora. Todos os dias recebo uma chamada de uma médica do hospital, para saber como eu estou, como está a extração de leite, para eu insistir na estimulação e conseguir iniciar a amamentação quando o Jaime vier para casa”, explica Eunice, que está completamente ciente da importância do leite materno para um recém-nascido.

Mas preferiu não correr riscos acrescidos. “Sei que há mães infectadas que estão a dar o leite, mas infelizmente, como existe muito desconhecimento em relação a este vírus, optei for fazer assim. Mesmo que o leite fosse extraído pela bomba e dado por outra pessoa, a extração implica sempre manipulação com mãos. A transmissão podia não acontecer pelo leite, mas devido a todo o processo”, explica a mãe de Jaime.

“O que se sabe, até ao momento, é que o vírus não é detetado nem no líquido amniótico, nem no leite materno. E embora a possibilidade de infeção por leite materna não possa ser excluída, não nos parece que seja o principal veículo de contaminação”, afirma a pediatra Joana Martins.

Mas, para a médica do Hospital Dona Estefânia, mesmo o aleitamento não estando contra-indicado pelas principais organizações de saúde, o problema começa na dificuldade de dar de mamar sem respirar para cima do bebé.

“Se eu deixo um bebé ir à mama da mãe, tenho que garantir que a mãe lavou muito bem as mãos antes de pegar na criança, que lavou muito bem a cara e que está a usar máscara. Não é fácil e já existiram casos documentados de transmissão. Os pais devem acautelar esta situação e saber que é um risco que correm”, salienta Joana Martins.

De acordo com a pediatra, para optar pelo aleitamento materno, “a mãe COVID-19 positiva pode extrair o leite com bomba, desde que esta esteja dedicada apenas a si — no contexto hospitalar, as bombas são partilhadas —, deve fazer uma total lavagem das mãos e o leite deve ser administrado ao bebé por outra pessoa”.

Joana Martins acrescenta ainda que, caso as mães optem pela separação dos bebés, devem ser obtidos dois testes negativos com um intervalo de 48 horas para se reunirem. E os dois testes são importantes devido à quantidade de falsos negativos que existem. “São cerca de 40%. A causa apontada para esta percentagem diz respeito à qualidade da colheita da amostra”, realça a pediatra.

Os partos das mães com COVID-19 são feitos com equipas reduzidas

Tal como no parto de Eunice Rodrigues no Hospital de São João, que aconteceu com uma equipa médica reduzida, também outros hospitais estão a tomar todas as medidas necessárias para acautelar a segurança de doentes e profissionais de saúde.

Grávidas COVID 19
Eunice Rodrigues foi mãe pela quarta vez aos 40 anos, infectada com COVID-19

Bruna Silveira, enfermeira especialista em saúde materna no Hospital Amadora-Sintra, explica que as grávidas infectadas são encaminhadas pelo circuito vermelho, uma espécie de isolamento, para uma zona do bloco de partos inteiramente dedicada às grávidas com COVID-19.

“Existe uma sala de partos e de recobro específica, e a grande diferença em relação à equipa médica são as nossas proteções individuais. Quando passamos pelo circuito vermelho estamos totalmente equipados, com botas, batas impermeáveis, viseiras, luvas, máscara, etc.. As grávidas estão também sempre de máscara”, explica a enfermeira à MAGG.

Para além de não serem permitidos acompanhantes na sala de partos, também a equipa é reduzida ao indispensável. “Se o parto é normal e eutócico, está apenas um médico, um enfermeiro e um auxiliar na sala de partos, e é o enfermeiro a fazer o parto. Se há necessidade de usar um fórceps ou uma ventosa, passando a um parto distócico, eventualmente chamamos um segundo médico para ajudar”.

No caso de uma evolução para cesariana, Bruna Silveira salienta que é chamado “mais um enfermeiro do bloco, um anestesista e um segundo obstetra”. Depois do parto, “o bebé é logo testado”.

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