Quando Catarina Barreiros sugeriu que começássemos a ter um balde ou um garrafão num qualquer canto da banheira, não imaginou que uma ideia tão simples fosse revolucionar a forma como olhamos para as práticas do nosso dia a dia e que têm impacto sobre o planeta. O mesmo aconteceu quando Madalena Rugeroni trouxe para Portugal a aplicação Too Good To Go, um conceito que poucos conheciam, mas depressa se tornou no Zomato da sustentabilidade, já que é através da app que muitos descobrem restaurantes espalhados pelo País e evitam o desperdício.

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Mas há mais exemplos. Nomes como Catarina Matos, Joana Dias da Cunha, e Joana Guerra Tadeu também têm deixado a sua marca no que diz respeito a um mundo melhor. E só se vive numa gruta é que ainda não ouviu falar destes projetos. Ainda asism, ajudamos a avivar a memória. Catarina criou a Mind the Trash, a loja desperdício zero portuguesa, Joana fez nascer um marketplace com marcas sustentáveis de moda, beleza e produtos e Joana guerra Tadeu é a autora do podcast Puericooltura, que fala de filhos, bem como de viver uma maternidade de acordo com princípios de sustentabilidade. Sim, parece impossível, mas não o é.

Cada uma à sua maneira, contribuem para um mundo melhor, e a MAGG foi saber mais sobre estas mulheres empreendedoras na área da sustentabilidade. Vamos às apresentações.

Catarina Barreiros: a impulsionadora do aproveitamento de água do banho e do fim ao papel higiénico

Catarina F. P. Barreiros
Catarina F. P. Barreiros, influenciadora de sustentabilidade e de um estilo de vida com menos desperdício. créditos: divulgação

Não é de agora que Catarina F. P. Barreiros, com 27 anos, se preocupa com o ambiente. Na casa onde cresceu sempre se fez reciclagem e aproveitavam-se as sobras para que quase nada fosse parar ao lixo. Contudo, a atenção cresceu apenas anos mais tarde.

"Tive o primeiro contacto mais 'consciente' através da minha melhor amiga, que era já vegetariana na faculdade, e que me mostrou um documentário. A partir daí fui percebendo o impacto da alimentação e ficando mais curiosa com o tema. No entanto, foi quando conheci o meu marido que comecei a ficar mais desperta para o movimento Zero Waste [Lixo Zero]", conta à MAGG. Chegou até a conhecer Bea Johnson, a fundadora do movimento lá fora, num evento organizado pela Maria Granel, uma loja de produtos a granel, conceito completamente desconhecido para Catarina na altura.

Aos poucos, a mestre em arquitetura no Instituto Superior Técnico (IST) e em Gestão na Nova School of Business and Economics, fez contas à vida e decidiu que zero era o impacto que queria ter no ambiente. Ainda que a seguir a esse número viesse uma virgula que nos impede de ser 100% sustentáveis no dia a dia, Catarina começou a usar as redes sociais para chegar a cada vez mais pessoas.

Já vai em 47,3 mil seguidores no Instagram, plataforma que usa para "passar informação bem estruturada e de fontes o mais fidedignas possível", diz. Do envolvimento na sustentabilidade ao sucesso no Instagram, o que mudou para Catarina Barreiros foi o grau responsabilidade. "Uma coisa é fazer pesquisa para me convencer a mim. Outra coisa é assumir essa responsabilidade perante mais de 40 mil pessoas e fazê-lo sem que ninguém sinta que estou a impor alguma coisa, a julgar alguém, que sou perfeita e a minha vida é perfeita e portanto só quem é perfeito é que consegue mudar. Está longe da verdade", refere.

Quanto ao termo "influenciadora", Catarina não tem desdém sobre este conceito, na medida em que sabe que, efetivamente, influencia comportamentos. Exemplo disso foi o dia em que mostrou que tem um recipiente junto à banheira para aproveitar a água de aquecer o banho ou quando falou abertamente sobre o facto de não usar papel higiénico em casa. Se também ficou espantado com esta ideia e está a questionar como é que se faz em casa de Catarina, a resposta é simples: usar o bidé, tal e qual como antigamente.

Saber que é impulsionadora destas práticas é para Catarina uma das melhores sensações. "É pouco humilde dizer isto, mas em verdade é o que sinto: que encontrei a minha missão. É muito gratificante". Quanto ao facto de ser mulher, mãe, empreendedora, e ter práticas sustentáveis, Catarina faz-nos refletir: "É fácil ter práticas sustentáveis. Tudo o resto é difícil". No fundo, o importante é que mudar pequenas coisas, porque, como em tudo, na sustentabilidade não há certos e errados.

"Precisamos de mais pessoas a aderir a práticas sustentáveis e não as vamos conseguir se dissermos 'ou fazem tudo, ou estão erradas'. Ninguém vai fazer tudo bem. E está tudo bem", remata.

Catarina Matos: foi num metros em Londres que Catarina idealizou a primeira loja portuguesa zero desperdício

Catarina Matos
Catarina Matos, responsável pela marca Mind The Trash. créditos: divulgação

Catarina Matos, de 32 anos, estava no metro de Londres quando ouviu a mítica frase "Mind The Gap". Apesar de ser o nome de uma banda portuguesa de hip-hop, na sua génese significa "cuidado com o espaço entre o cais e o comboio". Este abismo, para o qual uma voz do metro em Londres fazia um aviso, não podia aplicar-se melhor às preocupantes ameaças climáticas que o mundo enfrenta.

"A minha preocupação com o lixo levou-me quase de imediato a associar a Mind The Trash", conta à MAGG Catarina, que na altura vivia em Londres. Sempre que vinha a Portugal apercebia-se de que aqui não havia a mesma oferta do que na capital do Reino Unido, como esponjas reutilizáveis para a louça ou até mesmo escovas de dentes de bambu. Por isso, decidiu criar uma marca que permitisse trazer esses produtos também para cá.

Foi assim que nasceu então a Mind The Trash, em julho de 2017, que além de blog e primeira loja portuguesa zero desperdício online, com produtos alternativos aos de plástico e não naturais, é uma comunidade unida, razão pela qual as publicações da página de Instagram são sempre feitas na primeira pessoa (pessoa essa que é Catarina). "Apesar de todas as opções sustentáveis que têm vindo a aparecer no mercado, nós temos a percepção que a nossa relação com os clientes é muito especial", conta a arquiteta e estudante de Cosmética Natural.

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No entanto, como qualquer um de nós, Catarina Matos também cresceu a usar objetos descartáveis, mas com o tempo percebeu que queria mudar. "Primeiro, adotei os guardanapos de pano e comecei a utilizar uma garrafa reutilizável (que já tenho desde 2015). Depois comecei por comprar escovas de dentes de bambu e pasta de dentes natural em frasco de vidro", conta. No meio de todas as mudanças, a mais difícil foi mesmo a alimentação. "Quando não me consigo organizar para ir aos mercados ou lojas a granel, a minha única opção aberta até tarde é o supermercado. O que não é das melhores opções, porque contém praticamente tudo embalado em descartáveis. A meu ver, um dos fatores chave para uma vida sustentável é a organização".

Como empreendedora, Catarina tem como ambição "ter mais trabalho no terreno da informação e educação". Colocando de parte o lado empreendedor, enquanto defensora de um mundo mais sustentável, Catarina só desejava não ter de assistir a mais gaivotas a picar os copos de plástico deixados depois de saídas à noite nas ruas do Cais do Sodré, onde vive, — embora, devido à pandemia essa situação tenha deixado de ser tão frequente.

Joana Dias da Cunha: a prova de que a moda também pode ser sustentável

Joana Dias da Cunha
créditos: divulgação

Nem só de Catarinas se faz o mundo da sustentabilidade. Joana Dias da Cunha, de 31 anos, licenciada em Gestão e mestre em Marketing, é responsável pela marca Fair Bazaar, um marketplace de produtos sustentáveis que vai desde os perfumes, à roupa para homem e mulher.

Mas fora do mundo empreendedor e sustentável, quem é Joana? "Sou uma mulher que gosta de estar no campo e contemplar a natureza, ter tempo de qualidade com o meu filho Mateus de dois anos, fazer ioga e meditação, aproveitar as coisas boas da vida", conta à MAGG, acrescentando que tem ainda um lado aventureiro que a empurra muitas vezes para fora da zona de conforto.

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Foi também esse espírito que a levou então a criar a Fair Bazaar, mas a ideia tem outros precedentes. Joana despertou para a sustentabilidade quando a certo dia viu o documentário "The True Cost" — que retrata a exploração sob os trabalhadores para alimentar a indústria da moda e o consumismo — fazendo com que refletisse sobre as suas próprias compras compulsivas de roupa.

"Despertei para uma realidade até então completamente desconhecida para mim. Uma realidade tão dura e tão cruel à qual me foi impossível ficar indiferente e que me tocou fundo", diz. Mas não foi logo aí que criou o seu próprio projeto. Começou por comprar marcas com um conceito mais consciente e ao contactar com histórias incríveis de quem faz um esforço por tornar a moda um mundo mais ético, Joana pensou: "Porque não reunir todas estas marcas num sítio só, de forma a dar-lhes maior visibilidade e torná-las de acesso mais fácil e rápido?".

E assim foi. Criou a Fair Bazaar e não se ficou por revender os artigos. Através da marca quis ainda passar uma mensagem ao mostrar “pessoas reais”. Este é o nome de uma das campanhas da Fair Bazaar, a Real People, cujos protagonistas inspiraram Joana Dias da Cunha a continuar o seu percurso por um mundo mais sustentável.

Joana Guerra Tadeu: mulher, mãe e ativista a tempo inteiro

Joana Guerra Tadeu
Joana Guerra Tadeu créditos: divulgação

Apesar de já fazerem muito (e muito mais do que qualquer um de nós), as mulheres que se têm afirmado como empreendedoras de um mundo sustentável sentem sempre que podem fazer mais. É o caso de Joana Guerra Tadeu, que sente que ainda lhe falta fazer "tanto", e dá exemplos: utilizar ainda menos o carro e profissionalmente "encontrar uma forma de trabalhar a justiça social ao mesmo tempo que se trabalha a consciência ambiental e democratiza aquilo de momento são as 'alternativas' ecológicas".

Ao contrário das mulheres de quem falámos anteriormente, Joana Guerra Tadeu, com 30 anos, não tem uma loja online. O seu projeto não pretende "vender", mas sim "dar" aos outros a noção do que se passa no mundo à nossa volta. Joana é conhecida como "a minimalista", mas também como ativista em prole de um futuro sustentável, sendo que se dedica a iniciativas de desenvolvimento sustentável a tempo inteiro desde que decidiu despedir-se em 2016, após a morte da mãe, vítima de uma doença terminal.

A mãe, bem como o pai, tiveram alguma responsabilidade nas ideologias que Joana defende hoje em dia. "Tive o privilégio de crescer com uma mãe militante d'Os Verdes e um pai militante do PCP, por isso, não posso dizer que o mérito de estar desperta para as questões da sustentabilidade, ambiental e social, seja meu", refere.

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Contudo, o mérito de colocar as oportunidades, experiências, educação, conhecimentos, e o seu tempo ao serviço das pessoas e do planeta é seu. A juntar a tudo isto, Joana Guerra Tadeu é mãe de uma menina de 3 anos e foi em 2019 que decidiu partilhar também esta experiência com mais pessoas através de um podcast, quase sussurrando ao ouvido temas gritantes sobre maternidade e sustentabilidade.

"Ao entrar neste mundo da maternidade despertei para questões dos direitos sexuais e reprodutivos sobre os quais nunca me tinha debruçado convenientemente. Percebi que são questões que precisam de mais tempo de antena e decidi proporcioná-lo", refere. O podcast Puericooltura, criado no Dia da Mãe em 2019, tem então tratado temas relacionados com o parto e pós-parto, incluindo amamentação, relação com o corpo, perdas gestacionais, e aborto."

Sim, porque apesar de ser ativista ambiental, reconhece que os "princípios de sustentabilidade não se resumem a utilizar fraldas reutilizáveis", embora isso possa ser encorajado. "Mais importante que isso, é educar as crianças com valores que a façam respeitar o planeta e as pessoas, dando o exemplo e não evitando assuntos difíceis, como o racismo, as desigualdades socioeconómicas ou a sexualidade", refere a minimalista.

Apesar de ter uma comunidade com mais de 12 mil pessoas no Instagram para o qual cria conteúdos digitais sobre estilo de vida ecológico, empreendedorismo sustentável e justiça social, organiza formações, faz prestação de serviços de consultoria para ajudar empreendedores ecológicos com os seus projetos, e tem um podcast. Por isso, quando perguntam a Joana o que faz profissionalmente, a resposta era mais difícil ao início, admite, mas agora tem-na na ponta da língua.

"Respondo 'ambientalista', e sinto-me muito confortável. Percebi que isso é mais importante do que garantir que a etiqueta que ponho a mim própria é bem aceite por outras pessoas", remata.

Madalena Rugeroni: em menos de um ano esta mulher ajudou a salvar mais de 100 mil refeições

Madalena Rugeroni
Madalena Rugeroni créditos: divulgação

Tal como não desperdiça comida, Madalena Rugeroni, 29 anos, não desperdiça uma oportunidade. Depois de ter vivido cinco anos nos Estados Unidos, onde se licenciou em Relações Internacionais e Jornalismo na University of Miami, e de ter trabalhado durante cerca de dois anos na Google, Madalena decidiu voltar para Portugal, mas sem perder a ligação ao mundo: é que veio para o salvar.

"Decidi voltar a Portugal para começar o meu próprio negócio, uma startup que também combinava tecnologia com o meu gosto pela alimentação. Foi então três anos depois que surgiu a oportunidade de juntar-me à Too Good To Go como Country Manager e trazer este movimento para Portugal", conta à MAGG, acrescentando que a aplicação já estava em expansão na Europa e assente em Espanha.

Além disso, razões para trazer a app para cá não faltavam. É que no nosso País, todos os anos são desperdiçados um milhão de toneladas de alimentos. Atente bem: toneladas. Por isso, uma aplicação que permitisse salvar um terço que fosse — a mesma fatia de toda a comida produzida que acaba desperdiçada — deste peso nacional no planeta, já seria um avanço positivo. Mas foi mais do que isso.

Ao trazer a Too Good To Go para Portugal, Madalena já conseguiu juntar uma comunidade que anda em busca de oportunidades para salvar sushi que iria para o lixo ou iogurtes dentro da validade que mais tarde ou mais cedo seriam descartados. E cada dia é uma nova surpresa, porque mesmo que os utilizadores encomendem no seu estabelecimento preferido, é-lhes dada uma magic box que torna cada experiência uma nova surpresa.

"A minha palavra de ordem é rapidez. Talvez por isso diria que sou uma magic box do Auchan, uma vez que são quase todas salvas em menos de 5 minutos", brinca Madalena.

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"Um lanche de amigos, um almoço tardio, para um snack a meio da tarde ou um jantar a dois. A vantagem da Too Good To Go é que há magic boxes para todos os gostos e para qualquer situação: desde pastelaria, chocolates, sushi, frango, refeições vegetarianas, etc. É para todos os que gostam de comer", diz.

Mas no que diz respeito à sustentabilidade, Madalena não salva apenas comida. No seu dia a dia faz coisas simples como reciclar, consumir menos carne, usar sacos reutilizáveis e tenta ainda comprar o menor número de produtos em plástico. "O importante é que cada um faça o melhor que sabe e consegue", reflete.

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