Se toma café sem açúcar, para que raio precisa do pires e da colher? Se a fatura é emitida diretamente para a nossa página das finanças, precisa mesmo do papel? Se consegue viajar com uma mochila às costas, será que precisa mesmo dos cinco casacos de inverno que tem no armário?

Ana Milhazes faz estas perguntas e nós, comuns mortais à espera de encontrar o caminho da luz ou, neste caso, da sutentabilidade, ficamos parados a pensar: "Mas como é que eu nunca tinha pensado nisto?".

Claro que não preciso do pires do café, nem de mais uma fatura a encher a carteira e é óbvio que aquele casaco da Zara é um capricho, não uma necessidade.

E é assim que Ana faz a sua evangelização, ainda que não goste da palavra que a MAGG escolheu. "Eu faço a minha vida sem impor nada a ninguém", garante, ainda que não esconda a felicidade de ver mais um amigo a recusar o saco de plástico no supermercado ou a levar consigo um kit de talheres para dizer não aos descartáveis.

A jornada desta ativista ambiental começou quando percebeu a quantidade de lixo que tinha todos os dias no caixote e a quantidade de tempo e dinheiro que gastava em lojas. Começou aos poucos a destralhar o armário, a casa, a libertar-se de relações tóxicas e de um trabalho que já não a preechia. Dedica-se agora ao ioga, ao blogue "Ana Go Slowly", ao movimento Lixo Zero Portugal, a palestras e workshops sobre sustentabilidade e lançou agora um livro, que só saiu depois de um grande esforço para que estas 224 páginas fossem também elas sustentáveis.

Livro Lixo Zero

O "Vida Lixo Zero", editado pela Contraponto, foi impresso em papel 100% reciclado e a capa não é plastificada. E ainda que seja a autora do conteúdo, não pede uma compra em massa. "Quando terminar, doe este livro, faça-o circular pelos seus amigos, familiares, amigos e colegas de trabalho, e passe a mensagem", escreve antes de começar a falar de números que nos deixam a questionar todo o nosso dia a dia.

E aqui vai um deles: estima-se que cada português produza, em média, 42 quilos de resíduos por mês e 505 quilos por ano. Mas Ana não entra para estas estatísticas. Desde 2017 que o lixo de Ana não chega sequer para encher um frasco de vidro. Parece mentira, mas Ana diz que todos conseguiríamos fazer o mesmo e usa o livro para apresentar estratégias. A MAGG compilou as melhores e ainda falou com a autora, que diz que, aos 35 anos, nunca teve tão pouco e nunca se sentiu tão realizada.

Fala do "não" como uma palavra muito poderosa neste caminho de viver com menos. Quantas vezes disse que não nos últimos dias?
Temos que dizer que não a muitas coisas para evitar o desperdício. É a forma de recusar o que não precisamos. Este fim de semana foi atípico porque estou a mudar de casa. Como não tinha muita coisa no frigorífico, comi mais fora e em todos os restaurantes a que fui recusei sempre o guardanapo de papel. Não tinha comigo o meu kit de talheres, mas ando sempre com um guardanapo, que usei em todas as refeições. Recusei sempre o talão também, seja em restaurantes ou em hotéis. As pessoas ficam a olhar para mim, mas fazem o que peço.

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Sente-se sempre diferente do resto do mundo?
Não sinto isso. Já senti mais, há uns anos, quando tudo isto era desconhecido. Recusar o talão, recusar a palhinha passou a ser mais normal. Ainda ontem perguntei se a bebida vem com a palhinha e a funcionária disse que não, mas que trazia se eu quisesse. Antigamente, à partida, a bebida vinha sempre com palhinha e só se eu não pedisse é que vinha sem. E ainda me lembro de recusar o talão e as pessoas ficarem sempre a pensar no meu pedido, com o ar de estranheza de quem o estava a ouvir pela primeira vez.

Eu sempre fui um pouco diferente da minha família e dos meus amigos e isso preparou-me para esta realidade. Eu já não sinto que sou diferente. Sinto que sou eu e que não tem mal nenhum ser diferente da norma.

Ainda assim, como era a sua vida antes desta?
Sempre foi diferente, mesmo quando ainda seguia a vida protocolar de ter um emprego fixo, trabalhar num escritório e ir a reuniões. Quando ia a reuniões, era sempre distribuída uma garrafa de água a cada participante. Eu, mal chegava, pousava a minha garrafa reutilizável em cima da mesa para que nem tivessem tempo de me dar uma descartável. Em almoços de trabalho já levava o meu kit de talheres e aí sim, era muitas vezes olhada de lado. É que o mundo empresarial é muito diferente do familiar, onde as pessoas gostam de ti genuinamente. Mas a verdade é que eu estava a marimbar-me para isso. Eu faço o que é importante para mim e sei que não estou a fazer mal aos outros.

Aconteceu alguma coisa na sua vida para esta mudança que a leva onde está hoje?
Apesar de ter tido sempre aqui o bichinho da sustentabilidade, acabamos por levar a vida que alguém planeou para nós. Somos educados a cumprir a check list da vida: tenho que estudar, ir para a universidade, encontrar um trabalho estável, casar, viajar, ter uma casa, ter filhos. E eu, ainda que num caminho diferente do da maioria, fui cumprindo essa check list. Mas aos 24 anos já tinha atingido tudo o que havia para atingir com aquela idade e não me sentia feliz. Adorava o meu trabalho [trabalhava na área da informática], adorava os meus colegas, tinha uma casa perto da praia, adorava a minha vida. Mas havia qualquer coisa que faltava. Acho que me faltava cumprir este sentido de missão. Não queria ser só mais uma e para mim a vida não podia ser só aquilo.

Na altura trabalhava muito, sentia que os dias eram todos iguais e não tinha tempo livre para fazer o que realmente gostava. Descobri o minimalismo, comecei a destralhar, passei a aproveitar mais tempo na natureza. No fundo, arranjei espaço para fazer outras coisas. Nessa altura já era vegetariana e reciclava desde sempre. Achava, por isso, que já tinha um comportamento hiper sustentável. Até que olhei para o meu caixote do lixo e percebi que podia fazer muito mais. Conheci o blogue da Bea Johnson, o Zero Waste Home, e inspirei-me na sua jornada contra o desperdício criar o grupo de Facebook Lixo Zero Portugal, par que pudesse haver um espaço de troca de ideias entre pessoas que estavam a tentar reduzir os seus resíduos.

Em 2017, a minha vida muda. Andava muito cansada, porque acabei por acumular muita coisa. Tinha o trabalho, o grupo de Facebook, o ioga, o blogue, e um dia ia a conduzir na Ponte da Arrábida e tive um apagão. Percebi que era devido à exaustão e decidi ali que aquele seria o meu último dia de trabalho. Acabei por ir ao médico que me diagnosticou burnout, mais tarde uma depressão, comecei a ter ataques de pânico todos os dias e fiquei sem vontade de fazer até mesmo aquilo que me apaixonava. Tudo isso foi o empurrãozinho de que precisava para a mudança total. Eu era sustentável com o ambiente, não o era comigo.

A sustentabilidade é um todo.
Sim. Faltava-me ser sustentável comigo. Já tinha menos coisas, mas precisava também de fazer menos coisas. Não adianta nada usar escovas de bambu e ir com os meus saquinhos às compras, mas não respeitar o que sou.

Nesse trabalho de desapego e de destralhanço, livrou-se também de pessoas?
Sem dúvida, mas foi progressivo. Eu não tive que dizer às pessoas que me ia afastar delas, simplesmente afastei-me. Eu era completamente viciada em compras e passava os dias em centros comerciais. Quando isso mudou, essas pessoas naturalmente foram-se afastando da minha vida. Os nossos interesses são outros e, por isso, é normal que nos aproximemos de quem nos faz mais sentido. Isso acabou por acontecer com outras coisas, até com os pensamentos. Sempre fui um bocado obsessiva, seja na altura com compras ou com limpezas, e noto agora que preenchendo a minha vida com coisas mais positivas me sinto muito melhor. Destralhei a minha mente.

No livro, a palavra "lixo" aparece sempre entre aspas. Porquê?
Porque acho essa palavra não devia existir. Nada devia ser considerado lixo. Idealmente não deveríamos produzir resíduos, mas já que produzimos, deviam ser usados por alguma indústria ou pessoa para que fossem reutilizados. Tudo devia ser utilizado para outro fim.

Decidi usar essa palavra, mesmo quando criei o grupo Lixo Zero Portugal, porque é curtinha e fácil de entender. Eu sei que acabo por falar para pessoas que não são entendidas no tema e como quero que o assunto chegue a todos, opto pelos termos mais simples.

O seu lixo cabe num frasquinho.
Sim. Eu considero lixo aqui que sobra dos três R's: recusar, reduzir, reutilizar, reciclar e decompor (rot, em inglês). Inicialmente tinha um caixote, mas depois percebi que eram tão poucos os resíduos que ficavam bem num frasco.

Há quanto tempo tem esse frasco?
Inicialmente ia fazer um frasquinho por ano, mas percebi que não enchia. Então, desde julho de 2017 que cabe lá tudo. E são coisas que não é possível reciclar em Portugal, como é o caso das lentes de contacto e as cerdas das escovas de dentes. Mas caso algum dia seja possível, até esse lixo desaparece. Foi o que aconteceu com as pulseiras de festivais  e etiquetas de roupa que tinha lá, que acabaram por ganhar outra vida quando uma amiga minha as usou para um trabalho para o qual precisava de vários tecidos.

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Acha que essa é uma meta acessível a todos?
Acho. Se é possível para mim, é possível para qualquer pessoa. Eu não sou iluminada. Acho é que para algumas é possível com muito esforço e essas pessoas não devem ir por aí. Nada deve ser feito com esforço, esse é o sinal de que tenho que deixar de o fazer.

Mas há que mudar hábitos. 
Sim, e isso requer algum esforço. Mas há coisas hoje em dia que estão facilitadas. Eu lembro-me, por exemplo, que quando comecei tinha que ir a vários sítios sempre que queria fazer compras. Mas serviu para me testar e perceber até que ponto é eu queria ir e até que ponto as lojas se querem adaptar aos clientes. Se levarmos os nossos frascos e sacos, se evitarmos as embalagens, os donos das lojas vão perceber que há coisas a mudar. É o chamado abrir caminho.

Reclama muito?
Sim. Ou melhor, deixo muitas sugestões, principalmente em hotéis ou restaurantes.

É assim que evangeliza quem se cruza consigo?
Curioso usar essa expressão, evangelizar. Eu não sinto isso. Eu simplesmente estou a ser a Ana. Nunca faço nada com esforço ou sacrifício, nem para mim nem para os outros. Eu não estou a impor nada. Simplesmente levo as minhas coisas e com isso mostro aos outros como se pode fazer diferente.

Muitas vezes, sinto que as pessoas mais introvertidas têm receio de usar os seus talheres, o seu guardanapo, os seus talheres, com medo de serem julgados. Eu faço e mostro que os outros, habitualmente, ou não dizem nada, ou até me dão os parabéns. Ao mesmo tempo, ao usar os meus utensílios, mostro aos responsáveis que há outras formas de agir.

Vê acontecer muitas mudanças graças ao seu trabalho?
Eu assisto a mudanças em grandes espaços, mas não sei se acontecem por minha causa. Mas vejo muitas mudanças nos meus amigos, o que me deixa muito contente. Outro dia um até me dizia que via a minha cara sempre que ia às compras e não conseguia trazer nada que viesse envolto em plástico [risos]. Há uns tempos fui com uma amiga a um festival de ioga em Lisboa e levei o meu kit de talheres, um copo e paninho, onde embrulho as sandes. Sem lhe dizer nada, ia usando as minhas coisas. Pedia para me porem a sandes no meu pano, o chá no meu copo e ela ia vendo, sempre sem dizer nada. Dias depois manda-me uma fotografia do kit de talheres que ela fez. Disse-me que me viu a usar tudo de forma tão natural e fácil que quis passar a fazer também. Melhor ainda, levou para a escola onde dá aulas para mostrar aos alunos. Ou seja, ficou inspirada e ainda inspirou outros a fazer o mesmo.

O que aconselha a quem quer mudar mas não sabe por onde começar?
Podemos começar com aquilo que temos em maior quantidade. Por exemplo, se todos os dias deitamos fora uma garrafa de plástico, passar a usar uma reutilizável. Ou, por exemplo, levar o copo para o café que se toma todos os dias no trabalho.

Não vale a pena querer mudar tudo, isso não vai funcionar. Devemos dar passinhos de bebé, para ganharmos motivação para fazermos coisas maiores. Além disso, se der um passinho pequeno hoje, outro amanhã, depois de um mês já dei 30 passos, o que vai dar uma coisa gigante.

Ainda que veja essa mudança acontecer, não existe sempre uma sensação de impotência?
Acontece-me muito raramente. Eu acho que devo ter o botão dos unicórnios ligado, porque só vejo as coisas boas a acontecer. Ainda assim, eu afasto-me dos sítios que me podem trazer esse desconforto. Vou à mercearia do bairro e não a uma grande superfície, rodeio-me de pessoas que vão ao encontro do que acredito. Vivo neste mundo cor de rosa que é o meu. Mas quando viajo, por exemplo, acontece-me muito. Ainda este fim de semana, numa estação de serviço, assisti a uma senhora a comprar uma garrafa de água de plástico e pedir ao funcionário para lhe servir o café num copo de plástico. Eu bebi o meu em chávena de cerâmica e quando saí, ela ainda lá estava a beber no copo de plástico. Aí pergunto-me, há necessidade? É que ainda por cima o café sabe melhor numa chávena do que em plástico. Aí tenho que respirar fundo e apetece-me falar. Mas não faço isso.

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Mas se todos assumissem o mesmo estilo de vida que a Ana, que impacto isso teria na economia?
Teria que haver uma adaptação. Mas a verdade é que eu prescindo de muitos serviços. Agora na mudança de casa, por exemplo, não contratei uma empresa, fiz tudo sozinha. Não vou a uma lavandaria, a um hipermercado e isso às vezes leva-me a pensar: "Se todos fossem como eu, estas empresas tinham que fechar". Por outro lado, o corte nunca será total e acho que as coisas iriam ficar sim mais equilibradas. Íamos todos consumir menos e reutilizar mais e por causa disso teríamos que trabalhar menos. As empresas manteriam na mesma os funcionários, mas cada pessoa trabalharia menos horas e ficariam com mais tempo livre para fazerem o que verdadeiramente gostam. Ao fazer isso íamos sentir-nos mais felizes e, como consequência, íamos comprar menos coisas. Eu acredito que compramos coisas para preencher um vazio. Mas este ciclo, ao contrario, ia ser muito positivo.

Se pudesses agora dizer alguma coisa à Ana que preenchia vazios em centros comerciais, o que seria?
Diria que ia ser muito feliz e que essa felicidade não passa pelas coisas, mas por seguir o que verdadeiramente é importante. A Ana dessa altura, que já achava que saia da norma, ainda era muito carneirinha. Muito mais do que ela pensava.

Dicas de Ana Milhazes para uma vida com menos coisas e mais sentido

No trabalho

  1. Usar uma garrafa de água reutilizável e uma chávena para o café e o chá;
  2. Evitar imprimir e, caso tenha que o fazer, que seja sempre em frente e verso;
  3. Partilhe boleia com colegas;
  4. Desligue o computador sempre que não estiver a usar;
  5. Implemente a separação de resíduos, caso não aconteça.

Em viagem

  1. Levar sempre uma garrafa de água reutilizável. Esvazie antes de passar na segurança do avião e encha logo a seguir;
  2. Leve o bilhete no telemóvel, não é preciso imprimir;
  3. Leve o kit de talheres, copo, guardanapos e sacos de compras reutilizáveis;
  4. Leve apenas a roupa que vai vestir e escolhe peças versáteis;
  5. Verifique se o hotel tem dispensadores de champô e gel de banho, senão leve os seus;
  6. Recuse a comida oferecida no avião, normalmente embalada em plástico. É certo que vai para o lixo, mas se mais pessoas o fizerem, talvez mudem as regras.

Na casa de banho

  1. Tome banhos de água fria: são rápidos e fazem bem à saúde;
  2. Use champôs e sabonetes em barra em vez de frascos;
  3. Use escovas de dentes de bambu e troque-a apenas quando precisar;
  4. Aprenda a fazer produtos de cosmética caseiros: na maioria dos casos só precisa de ingredientes que tem na cozinha;
  5. Prefira o copo menstrual a tampões ou pensos descartáveis.

Na cozinha

  1. Tendo em conta o impacto da produção de carne no ambiente, opte por refeições vegetarianas;
  2. Compre a granel e apenas na quantidade que precisa;
  3. Volte à cafeteira e esqueça as cápsulas de café. Se não conseguir prescindir, use cápsulas reutilizáveis;
  4. Congele recorrendo a tupperwares, frascos de vidro ou sacos de pano;
  5. Use as máquinas de loiça e roupa apenas quando estiverem cheias;
  6. Faça os seus próprios detergentes. Na maioria das vezes, bicarbonato de sódio e vinagre são a solução.

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