O Ribatejo foi o cenário escolhido para o primeiro episódio de "Cinzas", a primeira novela produzida pela NBP (Nicolau Breyner Produções) que, anos mais tarde, viria a chamar-se Plural. A produtora audiovisual (que, em 2009, passou para as mãos do grupo Media Capital e passou a produzir todas as novelas da TVI) celebra este sábado, 30 de abril, 30 anos.

"Cinzas", que estreou na RTP1 em 1992, contava com um elenco de jovens e promissores atores, como Ricardo Carriço, Maria João Luís, Fernando Mendes, Helena Laureano, Sofia Sá da Bandeira e nomes consagrados como Morais e Castro, Nicolau Breyner e Mariana Rey Monteiro.

Era o início de um caminho que os seus fundadores (Nicolau Breyner e António Parente, atual presidente do Conselho de Administração da SP Televisão, produtora das novelas da SIC) desejavam trilhar, com o objetivo de construir em Portugal um mercado de ficção televisiva que rivalizasse com os formatos importados do Brasil e que, à época, eram fenómenos de audiências.

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Em 1992, surgia o primeiro canal de televisão privado, a SIC e, um ano depois, a TVI. O canal fundado por Francisco Pinto Balsemão, com a parceria com a rede Globo que dura até aos dias de hoje, começou por apenas emitir novelas brasileiras, aventurando-se na ficção feita em Portugal em 2001, com "Ganância", produzida pela NBP.

Dois anos antes, em 1999, a NBP produzia a primeira novela para a TVI, "Todo o Tempo do Mundo", que marcava o início de uma relação que, com o passar dos anos, viria a tornar-se cada vez mais exclusiva até que, em 2009, a Media Capital adquiriu a totalidade da empresa. "Jardins Proibidos", que estreou em 2000, foi a primeira novela da TVI a bater a ficção da Globo; "Meu Amor", exibida em 2009, foi a primeira novela portuguesa premiada com um Emmy Internacional; "A Única Mulher" tornou-se, em 2017, a mais longa novela exibida em Portugal, com um total de 561 episódios.

Três décadas de recordes, de histórias, duas das quais a criar novelas para a TVI. Atualmente, no elenco da mais recente produção da estação de Queluz de Baixo, Julie Sergeant faz parte da história da NBP / Plural. A Íris da novela "Rua das Flores" integrou o elenco de "Cinzas", a primeira novela da NBP, que estreou na RTP em 1992. Na altura tinha 22 anos e, na trama, interpretava a jovem Sofia Amaral. 30 anos volvidos (e muitas novelas depois), a atriz recorda como foi este caminho.

Márcia Breia e Julie Sergeant na novela
Márcia Breia e Julie Sergeant na novela "Cinzas" (1992, RTP1) créditos: DR

O que recorda dos primeiros dias de gravações de "Cinzas"?
Havia uma grande vontade da parte de todos de fazer um projeto tão... tinha havido um interregno de cinco anos sem haver novelas e o Nico [Nicolau Breyner] vinha cheio de força para implementar isto em Portugal. No entanto, para mim não foi assim tão novidade, primeiro porque já tinha feito a última da primeira leva ["Passerelle", RTP1, 1988], depois porque já trabalhava com o Nicolau na NBP a fazer teatro e outras coisas com ele. Quando veio a novela, ele chamou-me para um dos papéis e, nessa altura, apresentei-lhe algumas pessoas: a Sofia Sá da Bandeira, o Ricardo Carriço, a Helena Laureano, e acabámos todos por fazer a "Cinzas".

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Qual era a principal diferença na forma de trabalhar quando começou a NBP?
Eu acho que não havia muita diferença porque a geração que fazia as novelas, tanto na primeira fase como na segunda, era uma geração toda muito parecida, formada no teatro, eram todos colegas. Não havia uma disparidade tão grande como existe hoje. Hoje, há alguns que só fazem televisão, outros fazem televisão, cinema e teatro, outros que só fazem teatro. Depois, quando se reencontram, há assim uma mistura maior. Ali era uma geração que fazia tudo e trouxeram o seu know how para as novelas.

O Nicolau Breyner, juntamente com o António Parente, tinham uma visão ao construir esta empresa.
Sim, o senhor Parente mais na parte financeira, mas a parte artística estava entregue ao Nico. O Nico é que era cabeça de cartaz, ator, realizador. Sobretudo era um excelente ator, um excelente diretor de atores. Acho que foi uma boa junção que ali se criou. Foi uma bela patuscada e a verdade é que, 30 anos depois, ainda aqui está a funcionar.

Qual é o momento em que sente que existe uma indústria de novelas em Portugal?
Não digo o momento em que as novelas portuguesas chegam ao mesmo patamar das brasileiras, mas aquele momento em que sentiu que havia uma consolidação. Essa pergunta é um bocado ingrata, porque eu já trabalhei na Globo ["Sítio do Picapau Amarelo", 2004] e sei como é. Não nos podemos esquecer que, até há pouco tempo, a Globo era uma das principais estações de televisão do mundo. Mais tarde, a Plural foi adquirida pela Media Capital, mas a Globo tem um historial de novelas ao qual nós, ainda hoje, não nos podemos igualar.

A forma como se grava, a maneira como se trabalha, não é o mesmo método. Eles têm um clima quente, nós temos um clima frio. Eles não gravam de manhã em estúdio, gravam até às nove da noite mas só entram à hora de almoço. Eu gosto muito de trabalhar de manhã mas é verdade que as pessoas de manhã estão mais cansadas, mais inchadas. Às vezes é preferível, em vez de sair tão cedo, sair mais tarde... não sei. São formas diferentes de trabalhar. Agora, ambas são vencedoras do formato, cada uma à sua proporção.

"[A novela portuguesa] são os nossos dramas, a nossa tragédia, são todas as coisas que nos fazem portugueses", Julie Sergeant.

Como era fazer novelas em 1992?
Fazíamos 8 minutos de novela por dia. Estava tudo a começar. Hoje fazemos quase um episódio por dia. Isto é um trabalho de equipa, tudo o resto vai melhorando. Os textos vão melhorando, a chegada da internet também permite que tenhamos informação de todo o mundo na hora, no momento em que está a acontecer. Tudo isto permite aos autores ter um know how e uma forma de trabalhar muito mais completa do que havia naquela altura. Todos nós fomos melhorando as nossas técnicas, seja o operador de câmara, começou a usar-se steady cams, 4K, digital... passámos por várias fases e todas, parece-me, têm vindo a engrandecer o trabalho de todos nós.

Como é que define a novela portuguesa?
São os nossos dramas, a nossa tragédia, são todas as coisas que nos fazem portugueses.

Acha que houve uma mudança de paradigma nas novelas portuguesas no último ano? "Festa é Festa" e "Rua das Flores" são muito mais focadas no humor, algo que já não acontecia há alguma tempo na ficção televisiva.
Sim. As coisas funcionam por fases e somos condicionadas pelo ambiente que nos circunda e com o qual vivemos. Houve aí uma altura em que se deu primazia ao drama. Mas a vida, às vezes, não é fácil e nem sempre as pessoas querem ir para casa, depois de um dia dramático, uma vida difícil, horários, dinheiro, impostos, e ainda chegam a casa e têm de levar com os dramas dos outros, mesmo que sejam ficcionados... de alguma forma, existe uma necessidade, sobretudo nesta altura, com a COVID-19, as pessoas não querem mais dramas. Não há necessidade.

Julie Sergeant em
Julie Sergeant em "Rua das Flores" créditos: TVI

O que é que lhe está a dar mais gozo na "Rua das Flores"?
Eu sou uma pessoa que gosta de trabalhar. É ter prazer naquilo que faço e fazê-lo da forma mais divertida, neste caso, porque se trata de comédia. E tentar também estabelecer os limites a que nos propomos, como casa, como empresa, como produtora e como artista.

Consegue escolher a novela que gostou mais de fazer?
Gostei muito de fazer "Fascínios". Tinha acabado de chegar do Brasil, com a minha filha pequenina, e era um personagem muito bom. Gostei muito de fazer "A Herdeira", apesar de ter sido uma fase muito difícil da minha vida, que foi quando a minha mãe [a atriz Guida Maria] faleceu. A Marianinha, a minha personagem, era deliciosa. E, logo a seguir, adorei fazer a freira Elvira n'"A Teia". Adorei fazer "A Teia". Fico sempre com um carinho pelos personagens.

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