De tempos em tempos, há uma novidade qualquer na televisão portuguesa que desperta curiosidade entre o público. Aconteceu com "Taskmaster" (que ainda hoje é um grande sucesso), aconteceu com "Ruído", a série de Bruno Nogueira, com os mais variados reality shows e, agora acontece com a mais recente novela da TVI, "Terra Forte". Protagonizada por Benedita Pereira, João Catarré, Rita Pereira e José Fidalgo, a produção resulta de uma colaboração entre a estação e a Prime Video, assim como "A Fazenda", e conta uma bonita história de superação.

"Vitória". Vimos os 2 primeiros episódios da nova novela da SIC. O bom, o mau e o que nos tirou do sério
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Pelo menos é o que a TVI garante, uma vez que no primeiro episódio ainda nada está muito concreto. No entanto, na sinopse fica claro: Flor (Benedita Pereira), é filha de Rosa e Manuel, e vivem todos numa grande casa em Florianópolis, Brasil, com Maria de Fátima (Rita Pereira) e a sua mãe, que é uma das empregadas da família. Flor e Titi, a alcunha de Maria de Fátima, acabam por construir uma grande amizade, e quando a mãe de Titi morre, os pais de Flor acabam por adotá-la. Contudo, toda esta família cresceu da desgraça de outra.

José Fidalgo interpreta Sammy e Duda, dois irmãos gémeos que acabam por ter a sua vida destruída quando Manuel tira todas as posses (incluindo a casa de Florianópolis e a empresa Açoreana) a Álvaro (José Wallenstein), o pai das crianças – típico. Ou seja, a vida que Flor e Titi viveram é, na verdade, a vida que Sammy e Duda deveriam ter vivido, e a narrativa acaba por se desenrolar à volta disto. No entanto, há algo de diferente nesta novela: Sammy não é o mau que vai atrás daquilo que é seu, uma vez que, para ele, tudo ficou resolvido quando Manuel morreu (isto só é spoiler se não chegou a ver o primeiro episódio).

A vilã da história é mesmo Maria de Fátima, que, como se foi vendo nos teasers que a TVI foi lançado ao longo das semanas, empurra Flor para o mar quando as duas estão num cruzeiro, e a grande narrativa desta novela é essa mesmo. Apesar de no primeiro episódio não ter ficado bem explícito, sabe-se que Flor vai estar uns dias no mar perdida, até António (João Catarré), um pescador da ilha das Flores, a encontrar, e os dois acabam por se apaixonar e ter duas filhas, enquanto que, no Brasil, Titi casa com Sammy e tem também dois filhos.

Mas há algo que nos faz espécie e precisa de ser falado: o encontro entre Flor e António. Primeiro, como é que ela simplesmente sobrevive no mar desde Florianópolis até aos Açores (até porque já fizemos ambas as viagens e de avião a diferença é de 10 horas até chegar ao destino, imaginamos se fossemos a nado quase como ela)? E, segundo, como é que Flor aparece em cima de uma baleia com todo o seu esplendor? Não faz qualquer tipo de sentido – aliás, até faz se pensarmos que esta é uma novela de ficção, mas, ainda assim, é muito difícil de acreditar. Em cima de uma baleia? Será isto sequer algo exequível?

Isto é algo que nos faz distanciar um pouco das novelas portuguesas. A credibilidade não está lá, o que torna a produção menos apetecível de ver. No primeiro episódio, esta cena só aparece durante meio segundo, mas dá claramente para perceber que vai ser uma das mais importantes da novela, e quem nos garante que este tipo de conteúdo não irá aparecer novamente? O que queremos dizer é que, no geral, a produção até é boa (já lá vamos), mas ver alguém em cima de uma baleia é, no mínimo, um turn off. Mas talvez sejamos só nós, que não acreditamos que alguém pode simplesmente sobreviver dias e dias no mar e aparecer subitamente em cima de um animal marinho.

E já que estamos na onda de falar sobre coisas que não nos convenceram, temos mais duas rápidas para comentar: a imagem de Maria de Fátima no navio de inauguração da família com o perfeito de Florianópolis e a não-vingança de Sammy. Podemos estar a cometer uma gafe monumental ao dizer isto, mas temos para nós que a cena em alto mar não estava, efetivamente, a ser gravada nesse local.

Dizemos isto porque a imagem não é boa, parece simplesmente que as duas personagens foram colocadas ali e o oceano à volta ganha uma tonalidade esquisita. Aliás, não só o mar como o próprio contorno dos corpos das duas pessoas, que aparecem esbatidas. Não foi uma imagem agradável de ver (gritou amadorismo), sobretudo numa novela em que o resto das imagens é de cortar a respiração. 

E não, a não-vingança de Sammy também não nos convenceu. A história até está bem contada, mas como é que o homem não guarda rancor daquela família que lhe tirou tudo? É um ponto de interrogação que pode vir a ser explorado mais à frente, mas que, neste primeiro episódio, soa demasiado fácil, especialmente quando pensamos que Sammy namorava com Flor antes de esta desaparecer e que depois casou com Maria de Fátima. 

Agora sobre as coisas boas de "Terra Forte"

Mas, falando de coisas boas, podemos começar com as tais imagens de cortar a respiração. Logo nos primeiros minutos, a paisagem é o que fala mais alto, com Florianópolis a surgir com uma beleza que rouba a cena: mar calmo, luz dourada, uma natureza incrível que parece respirar por si só. A qualidade das imagens é algo digno de se ver duas vezes, com uma ambição cinematográfica que não se vê muitas na ficção nacional, e isso é transversal às gravações nos Açores. A realidade é que o ecrã se transforma num autêntico postal. 

Isto porque há uma sensibilidade diferente na forma como o arquipélago é filmado, não só como cenário mas também como território emocional, porque há um conforto diferente em se falar da Ilha das Flores e não da Ilha de São Miguel: os Açores são muito mais do que apenas Ponta Delgada.

Uma imagem incrível é, por exemplo, a sequência subaquática, onde Flor está a nadar e a tentar pescar, com as cores e os movimentos a transportar o espectador para dentro do mar com a personagem principal. No geral (e esquecendo Maria de Fátima e o perfeito de Florianópolis no navio), nota-se que houve investimento nesta parte da novela, assim como aconteceu com "A Fazenda" - ou seja, o mais provável é que a Prime Video também tenha a sua quota parte aqui. 

E uma coisa que também nos fez gostar mais da série foi o facto de terem escolhido dois locais que fazem precisamente parte da história um do outro. A ligação entre Açores e Florianópolis faz todo o sentido porque não é apenas geográfica e sim cultural, uma vez que a capital do estado de Santa Catarina foi fundada por açorianos. A novela acaba por abraçar essa herança com naturalidade, onde o amor e a pesca faz parte do ADN de ambos.

Além disto, outro ponto forte de "Terra Forte" é mesmo o seu elenco. Rita Pereira volta a protagonizar uma vilã sem valores (aleluia), onde o empurrar a própria irmã, como dizem muitas vezes na novela, para alto mar foi o que a fez conseguir uma vida de sucesso. Má, calculista e bastante preconceituosa, Maria de Fátima ainda vai causar muitos estragos, e não vale a pena ter pena: esta é uma personagem mesmo feita para o público não nutrir qualquer tipo de sentimento positivo. João Catarré também precisa de ser aplaudido, porque a sua caracterização foi muito bem feita. É homem do mar e não tem qualquer problema em mostrar orgulho nisso, só ficamos tristes se o seu final não for com Flor.

Desta forma, acreditamos que "Terra Forte" tem todos os ingredientes certos para vingar como mais um sucesso da TVI. Não só conta com um enredo sólido como com uma realização ambiciosa e um elenco cativante, mostrando que a estação está disposta a arriscar. A o facto de a parceria com a Prime Video regressar para esta produção mostra que esta aposta tem corrido bem, pelo que é bem provável que a partir daqui o drama, o romance e a ação só aumentem. Mas, por favor, não tragam de volta a baleia.