Para cada grande produção como “A Guerra dos Tronos”, há cinco ou mais séries que passam despercebidas e que não são conhecidas ao ponto de se tornarem assunto de conversa em jantares de amigos. “The Americans”, terminado em 2018 e considerado pela crítica como um dos melhores (e mais desconhecidos) títulos dos últimos anos, é só um exemplo.

Todas as semanas, a MAGG traz-lhe uma sugestão imperdível na nova rubrica “A série que ninguém está a ver”, com o objetivo de dar a conhecer algumas das produções com menos visibilidade — mas que merecem tantos ou mais elogios como outras populares.

Depois de "Ozark", a nova sugestão é "Kalifat", a série sueca da Netflix que bateu todos os recordes de audiências na Suécia e que, pelo menos em Portugal, está a passar muito despercebida.

Há poucas séries capazes de replicar o mesmo grau de tensão que sentimos em "Segurança Nacional" quando Brody (Damian Lewis), um soldado americano radicalizado pela al-Qaeda, se prepara para se fazer explodir dentro de um edifício onde estão presentes grandes figuras do Departamento de Estado dos EUA.

O colete-bomba, as rezas e a determinação de levar até ao fim uma missão com um desfecho violento não se tornaram menos credíveis só porque Brody era o protagonista e não fazia sentido, pelo menos no contexto daquela história, que a personagem ficasse por ali.

Devido a uma falha muito conveniente do colete, a bomba não é detonada e os espectadores podem respirar de alívio depois de três ou quatro ataques de ansiedade em menos de 15 minutos. Pelo menos por agora, estavam seguros.

Mas a série nunca tirou o pé do acelerador mesmo que tenha vindo a perder qualidade ao longos dos anos — embora a crítica internacional ache que não.

E é precisamente essa a sensação que se sente desde o momento em que se carrega no botão de play para ver "Kalifat". Mas antes disso, há um ponto fundamental a reter: é que na série, a ação é anterior a 2017 e Raqqa, na Síria, ainda pertence ao autoproclamado Estado Islâmico (EI).

No centro da história está Pervin (Gizem Erdogan) que vive em Raqqa com o marido, militante do EI, que se prepara para organizar um atentado terrorista na Suécia. O atentado, sabe-se depois, são na, verdade, três. Pervin é só uma das milhares de mulheres radicalizadas pelo grupo na Suécia e que se decidem juntar ao EI depois de lhes prometerem uma vida melhor e em comunhão constante com Deus.

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Assim que chegam a Raqqa, a realidade bate-lhes de frente. Além de perderem o contacto com o exterior, as condições em que vivem são desumanas e quase sempre são obrigadas a satisfazer os maridos com quem foram obrigadas a casar — numa cerimónia que tanto pode ser num quarto ou nos escombros de um edifício atingido por um míssil. Desde que haja testemunhas do matrimónio, vale tudo.

Umas não se conformam e, ou fogem, ou morrem a tentar. Outras abraçam a nova realidade como sendo aquilo que o Islão defende. Pervin encaixa-se na primeira categoria tornando-se numa informante da polícia sueca a quem vai revelando todos os detalhes sobre os ataques a troca de um plano de fuga. Tudo isto, claro, correndo o risco de ser descoberta a qualquer momento e cuja consequência é a morte.

"Kalifat" tem um elenco muito competente e uma história que, não sendo nova, traça um retrato fiel sobre o processo de radicalização e de como toda a campanha publicitária do EI é capaz de formatar a cabeça dos mais jovens — facilmente manipuláveis e, especialmente, os mais desiludidos com as condições político-sociais em que vivem.

Em boa verdade, foi esse o ponto de partida para que Wilhelm Behrman pudesse começar a construir o argumento de raiz. "A ideia começou com uma fotografia que foi posta a circular na imprensa internacional e que mostrava três adolescentes britânicas a fugirem das suas famílias para se juntarem ao Estado Islâmico. Fiquei tão perturbado com aquilo, talvez porque tenho uma filha com a mesma idade, que senti que devia escrever sobre isso", revelou à revista "Variety".

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E embora o foco da série comece por ser o atentado terrorista que vai promete a Suécia, à medida que a história vai avançado quem ganha protagonista é não só Pervin, que tenta fugir de Raqqa, mas também três adolescentes suecas que, depois de expostas a toda a retórica extremista do grupo, decidem juntar-se ao EI.

E todas elas têm pelo menos uma coisa comum: falta de oportunidades para singrar na vida e uma desilusão cada vez mais patente sobre a forma como os muçulmanos são tratados na Suécia — que, segundo uma das personagens, geralmente os relega para trabalhos menores, como assistentes de limpeza ou varredores de rua ("Nunca viste um polícia muçulmano, pois não?", ouve-se num dos diálogos).

"Kalifat" tem apenas oito episódios e promete ser o próximo grande vício quando voltar a abrir a Netflix. E avisamos já: é uma série progressiva, bem ao estilo de "Segurança Nacional", "Fauda" ou "24", em que cada episódio é muito mais intenso do que o anterior. Em especial, os últimos três.

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