A arte imita a vida mais do que a vida imita a arte. A frase de Oscar Wilde tem mais de 130 anos, mas nem por isso está desatualizada. E para que não haja dúvidas, olhe-se para a história da escritora Deborah Feldman que, depois de ter nascido no seio de uma comunidade hassídica de judeus ultraortodoxos, foi crescendo em constante conflito com os ideais a que se via obrigada a cumprir.

Casou com apenas 17 anos contra a sua vontade e dois anos depois foi mãe. Em 2006, já vivia sozinha com o marido e em 2009 fugiu com o filho — deixando para trás uma comunidade e uma série de costumes que a castravam.

A sua história foi contada na primeira pessoa em 2012, com o lançamento da biografia "Unorthodox: The Scandalous Rejection of My Hasidic Roots" que, nos últimos anos, foi o ponto de partida para a nova minissérie da Netflix. Chama-se "Unorthodox" e, pelo menos em Portugal, ainda está a passar despercebida à maioria do público.

Estreada a 26 de março, a série conta apenas com quatro episódios que vão desde o momento em que a protagonista, inspirada na própria Deborah Feldman, se apercebe do conflito moral de pertencer a uma comunidade na qual não se revê, até à decisão de deixar tudo para trás.

Mas porque o trabalho de adaptação de um projeto literário para a televisão implica sempre alguma liberdade criativa, há alguma ficção na história da série da Netflix. A boa notícia é que, apesar disso, a adaptação mantém-se muito fiel à experiência da autora.

Mostramos-lhe o que é verdade e o que é inventado entre o livro e a série "Unorthodox" da Netflix.

1. O foco da série é diferente do foco do livro

Enquanto no livro é dada maior ênfase à adolescência de Feldman, a produção da Netflix foca-se muito mais no casamento encomendado pela sua comunidade e nas perspetivas de futuro que a protagonista, interpretada por Shira Haas, pondera com um homem que nunca amou.

2. Esta é a primeira série ídiche da Netflix — e há um motivo

Após a estreia, "Unorthodox" tornou-se na primeira grande série da Netflix a usar a língua ídiche nos seus diálogos e há um fundamento muito forte para isso.

É que em várias partes do livro publicado por Deborah Feldman, a autora refere por diversas vezes que sempre foi ostracizada pela família e pela sua comunidade por falar inglês com os amigos. Além de ter escrito o livro em inglês, uma das primeiras coisas que Feldman fez após fugir com o filho foi ensinar-lhe a lingua inglesa

Depois de fugir com o filho, aliás, uma das primeiras coisas que a autora fez foi ensiná-lo a falar inglês.

3. A relação com a mãe e com os avôs foi adaptada para a série

A série conta que a então jovem se viu obrigada a crescer sem a mãe depois de esta abandonar a comunidade de Satmar por ser homossexual.

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Apesar de tragédia, corresponde à realidade. Na altura da saída, a mãe foi avisada de que não poderia levar a filha consigo porque, segundo as regras e os costumes da comunidade, a custódia dos filhos não é dada a pais que decidam abandonar o meio onde vivem.

A mãe saiu mesmo da comunidade e obrigou a que Deborah Feldman fosse viver com os avôs. Também este momento corresponde à realidade.

E a série da Netflix vai mais longe ao adaptar um elemento pessoal da relação da autora com a avó — que só lhe cantava canções de embalar quando o avô não estava em casa. Isto porque, dentro da comunidade de Satmar, mulheres que cantem são consideradas imorais.

4. A relação com o marido também corresponde à realidade

A primeira vez que Etsy (o nome da protagonista baseada na autora) vê Yanky, o marido encomendado pela comunidade, corresponde à forma como tudo terá acontecido e segundo o que escreveu a autora no seu livro.

Grande parte desse diálogo é baseado nas páginas do livro de memórias que dizem que, durante a primeira interação, Feldman só tinha permissão para lhe dirigir a palavra assim que ele falasse primeiro.

A série também mostra as várias aulas que, na vida real, a autora teve de ser, lecionadas por altos membros da comunidade de Satmar, para saber tudo o que era importante da vida doméstica — como o que fazer durante o sexo e o que precisava de fazer durante a menstruação, altura em que as relações sexuais estão proibidas.

5. A fuga corresponde ao que aconteceu na vida real — mas não foi tão dramática

No momento em que a protagonista decide fugir do marido e da comunidade com quem cresceu, há duas grandes diferenças face ao que aconteceu na vida real e que foi coberto no livro. Ao contrário do que acontece na série, a fuga não é tão dramática (que tem de ser porque a televisão quer-se, acima de tudo, com momentos de tensão) e Deborah não foi imediatamente para Berlim, na Alemanha.

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No entanto, tudo o resto é verídico: Feldman penhorou várias peças de joalharia valiosa e presentes de casamento para poder juntar dinheiro, alugou um carro e partiu, juntamente com o filho, para Nova Iorque. Chegada à nova cidade, uma onde poderia começar do zero, mudou o número de telefone e manteve-se incontactável para que nenhum membro da família a pudesse procurar.

Feldman chegou mesmo a mudar-se para Berlim, só que noutro momento completamente diferente e já muito depois de ter abandonado a família. Aconteceu em 2014 depois de descrever Nova Iorque como "um jardim cheio de esqueletos, um labirinto de algumas caras conhecidas que servem de gatilho para muitas das más memórias que tenho."

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