A SIC apelou aos milhares de corações saudosistas que se lembram bem de como enchia a alma ver os primeiros tempos da SIC, com formatos verdadeiramente criativos e disruptivos na televisão portuguesa, como "Não Se Esqueça da Escova de Dentes", "Perdoa-Me" ou "Ai os Homens". E recuperou um desses clássicos, talvez o menos excitante de todos, "All You Need is Love", que teve duas vidas nos anos 90, uma com Lídia Franco e outra com Fátima Lopes. O programa estreou na SIC este domingo, 9 de outubro, à noite, e trouxe consigo a mesma apresentadora, um formato diferente, mas a mesma essência: partilhar histórias de amor.

A MAGG assistiu à estreia e viu muita coisa boa, algumas nem por isso. Vamos lá ver então como foi este regresso de "All You Need is Love".

3 Coisas mesmo boas

1. Foi bom ver amor em tempos de guerra

Quando "All You Need is Love" estreou, em 1994, não existiam redes sociais. Aliás, a Internet tinha sido inventada há dois anos e praticamente não existiam páginas online portuguesas. Por isso, não vivíamos emaranhados numa teia de constante crítica, ódio, maledicência, que nos cobre, hoje, a todos os que andam nas redes sociais. Passamos horas e horas por dia no telemóvel, e grande parte do tempo no Facebook, no Instagram, no Twitter, onde a ocupação preferida de muita gente é destruir, criticar, arrasar, insultar, humilhar. E isso está a ajudar a dar cabo da saúde mental de tanta e tanta gente. Por isso, soube realmente bem deixar o telemóvel de lado e passar uma hora e meia em frente à televisão a ver histórias de amor. De amor daquele em que apetece abraçar a pessoa sem tempo para a largar, chorar de amor, beijar com ternura. E houve isso tudo. Histórias bonitas, emocionantes, que puxaram à lágrima não porque foram feitas para puxar à lágrima, mas porque é efetivamente bonito e emocionante ver amores genuínos entre seres humanos. E sentíamos falta disso.

Soube bem ver momentos de amor num mundo em que se odeia cada vez mais
Soube bem ver momentos de amor num mundo em que se odeia cada vez mais

2. Fátima Lopes e João Paulo Sousa

Fátima Lopes teve pela primeira vez um parceiro na apresentação do formato, depois de o ter liderado sozinha nos anos 90. E havia aqui duas dúvidas: primeiro, como seria ver a apresentadora, 30 anos depois, a pegar no programa; depois, como se iria sair João Paulo Sousa numa estreia num registo que não era o seu, e se a dinâmica com Fátima Lopes iria funcionar. E, nesse aspeto, foi tudo perfeito. Fátima Lopes esteve exemplar na condução do formato, encontrando os equilíbrios perfeitos entre o drama e a alegria, o choro e o riso, sem cair na tentação fácil de provocar o choro, de dramatizar, por palavras, algo que já é dramático por si. Soube ser o sorriso no momento triste, soube pegar na mão nos minutos de ansiedade, soube dar espaço para que o amor em estúdio vivesse por si, deixando as luzes para os protagonistas (coisa que muitos apresentadores ainda não entenderam — nem todos os programas são sobre eles, senhores).

João Paulo Sousa é, talvez, o mais talentoso apresentador da sua geração. Inteligente, sensato, perspicaz, equilibrado, soube gerir a sua tarefa sem falhas. Esteve muito bem no arranque do programa em estúdio, ao lado de Fátima Lopes, colocando-se, humildemente, na posição de ajudante da apresentadora. Fátima, que já tem muitos anos disto, soube aceitar o elogio mas elevar e reconhecer o papel e o talento de João Paulo Sousa. Funcionou muito bem. Fora de estúdio, o apresentador soube vestir a camisola da Oliveirense e tocar bombo, soube conduzir uma entrevista mais íntima com humor e sensibilidade e teve como ponto alto a forma como soube ser o neto que todas as avós querem ter, ao segurar nos postais antigos de Rosarinho, que procurava a amiga Palmira. Nota 10.

João Paulo Sousa esteve perfeito na estreia
João Paulo Sousa esteve perfeito na estreia

3. Adaptação do formato a 2022

O "All You Need is Love" da forma como foi pensado para 1994 não faria muito sentido nos dias de hoje. E a SIC/Endemol souberam adaptar bem o formato, retirando aquela parte do "Bar do All You Need is Love", que era uma espécie de Tinder da altura, próximo de alguns formatos recentes como "O Bar da TV" e outros do género. Também a duração do programa foi equilibrada. Poderia haver a tendência — muito portuguesa — de esticar o programa até ao limite, fazê-lo demorar horas, mas não. O programa arrancou, contou as suas histórias e terminou, no tempo certo. A parte dos exteriores também funcionou bem, muito graças ao bom trabalho de João Paulo Sousa.

3 Coisas assim-assim

1. O público em estúdio e o cenário

A primeiríssima impressão deste novo "All You Need is Love" não foi a melhor, nem a mais surpreendente. Isto porque o cenário e o tipo de público escolhido para estar presente na gravação não foram assim tão diferentes daquilo a que estamos habituados a ver nos programas da manhã da SIC ou da TVI. Estúdio em forma circular, gente mais velha a aplaudir, pouca diversidade na audiência. Uma das coisas que nos faz sentir que aquele programa é para nós e revermo-nos nas pessoas que estão na plateia. E acreditamos que um dos objetivos de todos os canais de televisão é o de trazer de volta os milhões que se foram embora das TV generalistas e migraram para o streaming, canais de cabo, youtubes, tiktoks desta vida. Gente nova, de vintes, trinstas, quarentas. E esses eram uma clara minoria na plateia. Até para descolar este formato de outros já com muitos anos de televisão, seria importante ter uma audiência mais diversa em estúdio, porque era isso, também, que nos dava a SIC dos anos 90. Quem estava a ver em casa sonhava estar ali naquele estúdio, porque o que víamos do sofá era gente como nós, nova, entusiasmada, vibrante, que dançava, apitava (sim, havia formatos em que havia malta com apitos), cantava, era uma experiência que se vivia na audiência e que nós, em casa, invejávamos.

2. A surpresa menos surpreendente

Um bom momento do programa foi o da declaração de amor às sogras e às noras. Num dos casos, Luísa fez juras de amor à sogra. A sogra, fez juras de amor à nora. E Fátima Lopes lá puxou pela senhora, perguntando-lhe se não gostava mesmo, mesmo, era que o filho, Joel, se casasse com Luísa. Ela começou por responder que lhe era indiferente. Mas Fátima insistiu, meio naquela do "pense lá melhor nessa resposta, que isso não dá muito jeito para o programa". E afinal a senhora já disse que isso era um sonho. E foi então que Fátima Lopes preparou a surpresa menos surpreendente da história, quando arranjou todo um cenário para que Luísa pedisse Joel em casamento. O rapaz percebeu o que se ia passar ao fim de dois segundos. Podia ter sido melhor trabalhado.

Toda a gente percebeu o que se ia passar - até o noivo
Toda a gente percebeu o que se ia passar - até o noivo

3. A canção do genérico

Nada contra o tema interpretado por Virgul e que é o novo genérico de "All You Need is Love", mas... como é que se combate com os Beatles? Não dá. A canção do "All You Need is Love" será sempre a do programa original. Alguém se lembra da letra da segunda canção do Vitinho? Da segunda canção do génerico da "Chuva de Estrelas"? Não. O original está perfeito, faz parte do ADN do programa, por isso é não mexer.

1 Coisa menos boa

A única coisa que não correu bem foi, na altura em que o programa estava a ganhar ritmo, aquela história de amor à Oliveirense. A história até é boa, mas entrou no momento errado, e teve uma duração muito grande. Amar um filho não é a mesma coisa que amar um cão, amar uma pessoa não é a mesma coisa que amar um clube. É tudo amor, certo, mas não é a mesma coisa. A história da líder da claque da Oliveirense prolongou-se durante largos minutos e fez-nos perder o interesse. Deveria ter sido mais curta e ter entrado num momento diferente, mais para o final.

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